ZINE ELEFANTE BU TRAZ PORÃO DO ROCK E CALANGO

Washington Ribeiro
1
Elefante Bu · Brasília, DF
9/9/2008 · 119 · 1
 

Amostra do texto

UM PORÃO DIFERENTE (trecho)

(...) Desta vez não foi bem assim. A produção trouxe o Muse, trio inglês com pouco mais de dez anos de existência e que vive um momento "hype" na carreira. Faz shows homéricos na terra natal, alguns nem tanto nos Estados Unidos, e chegou na América Latina com moral e destaque em grandes jornais. A produção da banda exigiu equipamento de primeira, levou a própria iluminação, telão e etc. Até para tirar fotos ou filmar 30 segundos das três primeiras músicas era preciso assinar contrato de responsabilidade que os pobres profissionais, naquela ânsia de fazer logo o trabalho, escreveram seus nomes ali sem ler. Lógico que o grande público não estava incluído e tirou fotos à vontade (além do show inteiro ter sido registrado pelas câmeras amadoras que divulgaram tudo no Youtube). (...)

DIA 1 (texto integral)

Meu pedido de desculpas aos metaleiros e amantes do rock mais acelerado. Enfim, a todos aqueles que amam vestir camisas pretas com desenhos da múmia do Iron Maiden. Não apareci no estacionamento do Mané Garrincha para fazer a cobertura do primeiro dia do Porão do Rock.

Entenda que depois de 11 anos de festival, hoje me permito só encarar a multidão e o barulho nos dias que a programação atende melhor o meu gosto musical. Olha que eu gosto de muitas coisas do gênero, em especial as boas velharias tipo Deep Purple, AC/DC, algumas coisas do Black Sabbath, Sepultura... e como não era o caso...

De qualquer forma eu mandei uma pessoa para, ao menos, tirar fotos e fazer um texto de dez linhas que fosse sobre o
que aconteceu. Olha, levei um cano!

Ainda bem que o Babaloo Kid (também conhecido como Washington Ribeiro) deu uma passada por lá e tirou umas fotos bacanas. Salvou o dia!

DIA 2 (trecho)

(...) A próxima banda que fez uma sonzeira da boa foi a argentina The Tandooris. Não, eles não tocaram após os Sapatos apesar da programação. Deram azar porque na época estava acontecendo um ensaio de caos aéreo argentino que atrasou vários vôos, incluindo o que veio o quarteto. Chegaram em Brasília com o Porão do Rock já rolando e tiveram de ir do aeroporto direto pro palco. Mas desse "azar" veio uma sorte danada. Isso porque o atraso forçou a produção a adiantar algumas bandas para manter o horário. Como eles tocaram mais tarde que o programado, puderam aproveitar um público bem maior. Sem querer levantar polêmica, mas é algo a se pensar em trazer mais bandas do circuito alternativo sul-americano. A verdade, que precisa ser dita, é que são bandas superiores a boa parte das brasileiras. Se preocupam mais com a qualidade e mostram usar as referências que têm de um jeito mais esperto, buscando a originalidade. O show da Tandooris foi maravilhoso, ganhou a galera que não sabia uma vírgula do que eles estavam tocando. (...)

GUITAR HERO (trecho)

Gabriel Thomaz, do Autoramas, é o maior entre os guitar heros brasileiros. Da atualidade, é o mais emblemático. E nada de "puxar sardinha" aqui não. Isso é uma constatação que os grandes críticos de música poderiam fazer. Gabriel figuraria em qualquer lista desses profissionais. E ele é um guitar hero sem ser galã, sem usar roupa da moda, sem ser “estrelinhaâ€, sem ter publicidade de gravadora ou aparecer na capa da Rolling Stone (embora mereça uma boa reportagem por lá). O que o sustenta é uma uma música excelente e o fato de tocar
pra caramba. (...)

CEREBRAL (trecho)

(...) Enquanto isso, Fred não respondia perguntas: fazia verdadeiras palestras em meio de questionamentos genéricos sobre internet, gerações e manguebit. E nesse meio tempo, colocava à mesa questões relevantes para a música. Mais que isso, mostrava nas entrelinhas aos profissionais ali presentes que era preciso mudar as perguntas. E como se faz isso? Se informe mais, estude mais! Contou o caso do manguebit, da época do lançamento do manifesto "Caranguejos Com Cérebro", que era na verdade um release que ele escreveu e foi prensado no encarte do disco Da Lama ao Caos de Chico Science e Nação Zumbi. O texto acabou criando uma atmosfera de movimento, que na realidade não era bem assim. Contou que gente do Brasil e do mundo inteiro, entre entusiastas e pesquisadores, foi a Recife para saber "qualé". Milhares de perguntas foram feitas, teses foram levantadas e trabalhos acadêmicos publicados. "O engraçado é que quando o manguebit fez dez anos", continuou Fred, "houve novamente a mesma invasão de pesquisadores fazendo
exatamente as mesmas perguntas".

LIVRE ARBÃTRIO (trecho)

(...) Então por esse mesmo livre arbítrio que o pessoal aglomerou na frente do palco para a terceira apresentação de sucesso de Pitty no Porão do Rock, festival que, é bom lembrar, foi o primeiro grande que ela fez em sua carreira. O que é legal observar é que o show dela se transformou num greatest hits, mais ou menos como acontece com o Kid Abelha: você não precisa nem ter os discos para saber cantar o set list do início ao fim. Foi uma sequência com Admirável Chip Novo, Equalize, Memórias, Na Sua Estante, Deus Lhe Pague (do Chico Buarque), finaliza com Máscara. Logo se pode concluir que trabalho ela não teve, afinal, já que entrou com o público ganho. Mas o que foi interessante mesmo foi observar as pessoas que não gostam da música. Mesmo assim elas ainda observam não com deboche, mas com atenção. Como foi dito logo no início, pode-se não gostar da música, mas a Pitty é respeitada. (...)

00h08min13s (trecho - crônica)

Meus ponteiros pararam. Essa era minha constatação pessoal mais importante dos últimos tempos. A princípio, não era nada filosófico, não. Uma manhã eu simplesmente acordei e era meia-noite, oito minutos e treze segundos. Por algum motivo, estava preso a esse segundo, especificamente. Achei bonito o sol brilhar a essa hora, ainda que costume sempre gostar mais da noite. Deu-me a sensação que ela havia roubado mais alguma coisa do dia e tornado ele totalmente insignificante. (...)

NIGHTIE NIGHTS (trecho - resenha)

Começa com a caída do baixo e a bateria. Depois entra a voz melodiosa de Norah Jones cantando "I don't know how to begin/ cause the story has been told before/ I will sing along I supose/ I guess it's just how it goes...". E daí a história corre e ela será acompanhada em certo ponto pelos olhos inexperientes da própria Norah Jones. Mas não é realmente ela. Aqui os olhos são de Elizabeth, uma moça que reside em Nova York. Um belo dia ela vê o namorado com outra mulher num pequeno, mas charmoso café da cidade administrado por Jeremy (Jude Law). Ela fica com raiva, claro, e resolve deixar as chaves do apartamento no tal café caso o ex as queira de volta . Enquanto a história de Elizabeth e Jeremy é desvendada, nós espectadores passamos a ser testemunhas dela através da vitrine e do neon da cidade. Estamos distantes, mas cúmplices de cada conto a respeito das chaves esquecidas no bar, de cada mordida na desprezada torta de blueberry, e de um beijo roubado. (...)

O SER HUMANO, O ALHEAMENTO E A ESPERANÇA (trecho)

(...) Em Messias, Cukier nos apresenta um feto que parece ser carregado pela multidão, alheio a tudo que se passa a seu redor. A multidão, por sua vez, parece ser recíproca a esse sentimento. Isso se percebe, sobretudo, nos rostos tão diversos representados; as expressões faciais são inúmeras: raiva, dor, indiferença, alegria, espanto, todas essas emoções os caricatos personagens nos apresentam. O alheamento, porém, é o mesmo em todos eles. Os personagens dessa obra estão envolvidos numa certa cadência, uma curiosa mistura de torpor e movimento. Todos eles – exceto o feto – mesmo apresentando somente seus rostos e eventualmente um dos braços, parecem marchar para o lado esquerdo do observador. Os únicos que parecem escapar dessa cadência são as sete figuras próximas e abaixo do ombro do feto, uma das quais aponta o dedo de modo quase acusativo e espantado para ele. Seu elemento em comum consiste nos gestos feitos com o braço por uns, e no olhar dirigido ao feto por outros, pois não são jamais gratuitos, mas ajudam a quebrar o torpor citado. (...)

A MELHOR DO MUNDO (trecho)

(...) É verdade que ele é resultado de um processo maior que envolve as gerações anteriores. Em especial a partir daquela dos anos 80, com Isabel, Jaqueline Silva e Vera Mossa, que deu o pontapé inicial para transformar e popularizar o vôlei feminino. Todas trabalharam a duras penas para que a seleção pudesse chegar ao topo. Porém, por mais que todas essas pessoas precisem ser lembradas e ter os seus valores reconhecidos, o ouro dessa que é a melhor geração brasileira até agora não pode ser dividido. O título é dessa equipe e de mais ninguém, porque dividir medalha significa, de certa forma, dizer que a herança das falhas dos times anteriores procede. O que acabou acontecendo eventualmente e
de forma injusta. (...)

Sobre a obra

O fanzine Elefante Bu traz a "edição negra". Um esperimento estético que vem sendo ensaiado ao longo do tempo e só agora foi colocado em prática. E esse barato veio para acompanhar as coberturas dos festivais Porão do Rock (Brasília) e Calando (Cuiabá), além de todas as resenhas e crônicas tradicionais do zine.

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informações

Autoria
Djenane Arraes
Ficha técnica
Edição e Diagramação: Djenane Arraes

Textos: Djenane Arraes, Dewis Caldas, Marcelo Leite, Rúbia Cunha, Leonardo de Moura.

Agradecimentos: Gabriel Thomaz

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clara arruda
 

Publicado.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 9/9/2008 14:47
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