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: 26 contos em fúria

Fernanda Maia
1
Carlos Gomes · Recife, PE
10/12/2011 · 1 · 0
 

“são estórias em nenhuns lugares. pois bem, reafirmo o que não está dito: nenhum aonde ir”. Com esta citação do conto que dá nome ao livro, corto por um atalho em terras estrangeiras (2011), o prefácio estaria pronto. Mas a minha tarefa vai além.

Necessário é ter em vista que Carlos Gomes começou a sua carreira nos versos. E não abandonou, antes despertou, “atônito, desperta o jovem de um poema”. Não por acaso, James Joyce figura na epígrafe. Carlos é um Retrato do Artista quando Jovem. De início, lemos do conto chove uma combinada repetição de vogais, própria de poetas (eo - eu): “o rio não quebrou. vermelhos os céus. vermelhos olhos teus. os meus, negros”. Após a noite ter calado – e no escuro nem todos os gatos são pardos – a prosa tem início em alerta a quaisquer repetições rítmicas que soem poemas em horizontal: “nos sonhos prováveis ainda o medo, o ranger das vozes alteradas”. O medo da personagem é o mesmo medo do autor, que ao chover o rio (de versos) transborde. E transborda sim. No mar de prosa.

Mas nem tudo é formalismo em um livro de contos onde nenhuma palavra é escrita em maiúscula, e todas são iguais perante elas mesmas, iguais perante as frases que seguem. Como se todas reivindicassem o mesmo status, sem hierarquia de tempo e espaço. Se alguma letra reivindicar a sua “maiusculidade”, não será por leis gramaticais, mas por efeito estético, nenhuma terá o privilégio de visibilidade sobre as outras.

Há um teor de testemunho? O tema é a injustiça social, abandono, solidão, morte, desespero, angústia. As personagens ganham em cidadania, mas de cidade alguma. E o que fazer com a cidadania de nenhuma cidade? “são todos fugitivos, sujeira varrida para o canto: memória”. Triste constatação: A cidadania (civil, religiosa etc.) é apenas uma memória, ou melhor, um CENÁRIO.

E os CORPOS? Estão mortos. Niilismo? Nada. Os corpos estão presos à alma e não o contrário. Corpos presos a paixões e à decadência. Corpos nus, principalmente.

Ao longo da leitura verificar-se-á muitas situações de rimas, até triolés, como em depois daquela dança. No livro Retórica da Poesia, de Jacques Dubois, se explica essa função: “O triolé ocupa um lugar realmente à parte, entre as repetições. O agrupamento de três palavras com as mesmas iniciais ganha, muitas vezes, valor de adágio, e se presta bem para assinalar uma sucessão” (Ed. Cultrix, 1980, p.159). Como dito, é necessário ter em mente que Carlos é antes de tudo Poeta e “poetas não cumprem promessas, poetas são escravos. eu sou escravo das canções”. Há um laço autobiográfico como em Joyce do Retrato, bem como dos neologismos (“chorriem” solitário no conto dois pesos) e do Fluxo de Consciência. Há também reflexões sobre o ofício do artista, do escritor.

Os ESTUDOS são de uma “tentativa dissimulada de poema” e “falsas considerações”. Não é nenhuma crítica negativa. Explico: “são as palavras, chefe, são as palavras” e “ninguém mais cai em truque de palavras, ninguém”. É preciso um fôlego diferente na terceira parte para se chegar num dos contos mais belos, surpreendentemente, debaixo de uma estrada.

O tom deste livro se assemelha ao O Peso do Medo: 30 poemas em fúria, do poeta Wellington de Melo; poderíamos mesmo colocá-lo com um subtítulo assim: corto por um atalho em terras estrangeiras: 26 contos em fúria. Contudo, ficaria um título grande demais. Que se acrescente neste prefácio, então. Mas, que se frise bem, os dois livros são bem diferentes, com propostas diferentes, e se é possível uma comparação é somente pelo fato dos poetas serem a antena da raça, apenas.

Por fim, “cantarola na cabeça uma melodia que não sabe de onde”... são VOZES – integradas – na artista, na professora, na jornalista. Acrescento ao final: no leitor.

por Thiago Pininga.


(Estudante de Filosofia da UNICAP. Colabora nos sites Escritores & Tal, Interpoética e NotaPE e edita o blog thiagopiningablog.wordpress.com. Além disso, comenta livros de literatura no programa Observatório Literário, da Rádio Folha (FM 96.7).

Disponível para compra no formato digital em: http://gomesemaia.blogspot.com/

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