“são estórias em nenhuns lugares. pois bem, reafirmo o que não está dito: nenhum aonde irâ€. Com esta citação do conto que dá nome ao livro, corto por um atalho em terras estrangeiras (2011), o prefácio estaria pronto. Mas a minha tarefa vai além.
Necessário é ter em vista que Carlos Gomes começou a sua carreira nos versos. E não abandonou, antes despertou, “atônito, desperta o jovem de um poemaâ€. Não por acaso, James Joyce figura na epÃgrafe. Carlos é um Retrato do Artista quando Jovem. De inÃcio, lemos do conto chove uma combinada repetição de vogais, própria de poetas (eo - eu): “o rio não quebrou. vermelhos os céus. vermelhos olhos teus. os meus, negrosâ€. Após a noite ter calado – e no escuro nem todos os gatos são pardos – a prosa tem inÃcio em alerta a quaisquer repetições rÃtmicas que soem poemas em horizontal: “nos sonhos prováveis ainda o medo, o ranger das vozes alteradasâ€. O medo da personagem é o mesmo medo do autor, que ao chover o rio (de versos) transborde. E transborda sim. No mar de prosa.
Mas nem tudo é formalismo em um livro de contos onde nenhuma palavra é escrita em maiúscula, e todas são iguais perante elas mesmas, iguais perante as frases que seguem. Como se todas reivindicassem o mesmo status, sem hierarquia de tempo e espaço. Se alguma letra reivindicar a sua “maiusculidadeâ€, não será por leis gramaticais, mas por efeito estético, nenhuma terá o privilégio de visibilidade sobre as outras.
Há um teor de testemunho? O tema é a injustiça social, abandono, solidão, morte, desespero, angústia. As personagens ganham em cidadania, mas de cidade alguma. E o que fazer com a cidadania de nenhuma cidade? “são todos fugitivos, sujeira varrida para o canto: memóriaâ€. Triste constatação: A cidadania (civil, religiosa etc.) é apenas uma memória, ou melhor, um CENÃRIO.
E os CORPOS? Estão mortos. Niilismo? Nada. Os corpos estão presos à alma e não o contrário. Corpos presos a paixões e à decadência. Corpos nus, principalmente.
Ao longo da leitura verificar-se-á muitas situações de rimas, até triolés, como em depois daquela dança. No livro Retórica da Poesia, de Jacques Dubois, se explica essa função: “O triolé ocupa um lugar realmente à parte, entre as repetições. O agrupamento de três palavras com as mesmas iniciais ganha, muitas vezes, valor de adágio, e se presta bem para assinalar uma sucessão†(Ed. Cultrix, 1980, p.159). Como dito, é necessário ter em mente que Carlos é antes de tudo Poeta e “poetas não cumprem promessas, poetas são escravos. eu sou escravo das cançõesâ€. Há um laço autobiográfico como em Joyce do Retrato, bem como dos neologismos (“chorriem†solitário no conto dois pesos) e do Fluxo de Consciência. Há também reflexões sobre o ofÃcio do artista, do escritor.
Os ESTUDOS são de uma “tentativa dissimulada de poema†e “falsas consideraçõesâ€. Não é nenhuma crÃtica negativa. Explico: “são as palavras, chefe, são as palavras†e “ninguém mais cai em truque de palavras, ninguémâ€. É preciso um fôlego diferente na terceira parte para se chegar num dos contos mais belos, surpreendentemente, debaixo de uma estrada.
O tom deste livro se assemelha ao O Peso do Medo: 30 poemas em fúria, do poeta Wellington de Melo; poderÃamos mesmo colocá-lo com um subtÃtulo assim: corto por um atalho em terras estrangeiras: 26 contos em fúria. Contudo, ficaria um tÃtulo grande demais. Que se acrescente neste prefácio, então. Mas, que se frise bem, os dois livros são bem diferentes, com propostas diferentes, e se é possÃvel uma comparação é somente pelo fato dos poetas serem a antena da raça, apenas.
Por fim, “cantarola na cabeça uma melodia que não sabe de ondeâ€... são VOZES – integradas – na artista, na professora, na jornalista. Acrescento ao final: no leitor.
por Thiago Pininga.
(Estudante de Filosofia da UNICAP. Colabora nos sites Escritores & Tal, Interpoética e NotaPE e edita o blog thiagopiningablog.wordpress.com. Além disso, comenta livros de literatura no programa Observatório Literário, da Rádio Folha (FM 96.7).
DisponÃvel para compra no formato digital em: http://gomesemaia.blogspot.com/
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