80 anos de Sivuca: legado do mestre faz escola

Erno Schneider
Instituto renova a memória do artista, com shows, livros e oficinas de sanfona
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Fernando Gasparini · Rio de Janeiro, RJ
22/6/2010 · 5 · 0
 

Um dos maiores gênios do século XX, Sivuca revelou ao mundo a universalidade da música brasileira. Manteve constante diálogo com os campos do erudito e do popular desde os primórdios da carreira, e foi o responsável por levar a sanfona de inspiração nordestina às mais importantes salas de concerto do Brasil e exterior.



Falecido em dezembro de 2006, o mestre completaria 80 anos no mais recente 26 de maio. O seu imenso legado à cultura brasileira começa agora a ser compreendido pelas novas gerações, a partir de ações de resgate, preservação e, por que não?, de continuidade à obra do sanfoneiro. Há quatro anos, o ArteSivuca, entidade que abriga o Acervo Sivuca, promove shows, palestras e oficinas, além de realizar uma ampla pesquisa discográfica e documental acerca do artista.



Shows



Uma das importantes iniciativas do instituto é a produção do Quinteto Sivuca, um grupo musical formado por integrantes das bandas do sanfoneiro nas últimas décadas – Jorjão Carvalho (baixo), Paula Faour (teclados) e Guga Mendonça (guitarra) – e por talentos da nova geração – Marcelo Caldi (sanfona) e Lourenço Vasconcellos (bateria).



Em celebração ao octogenário do mestre, o Quinteto Sivuca realiza em junho uma série de apresentações musicais no circuito SESC Rio e no Teatro de Arena da Caixa Cultural, nos próximos sábado e domingo (26 e 27/06), às 19h30 (Av. Almirante Barroso, 25, Centro). Ingressos a R$ 10, inteira, e R$ 5, meia. No repertório, canções inéditas de Sivuca, homenagens autorais dos integrantes da banda e, claro, os grandes sucessos do mestre, como “Feira de Mangaio” e “João e Maria”.



O Quinteto Sivuca apresenta a diversidade da obra do artista, com forró, samba e jazz instrumental, revestida numa linguagem contemporânea, com arranjos ousados para antigos sucessos. Como por exemplo o choro “Homenagem à Velha Guarda” e o upa-kanga “Pata-Pata”, de autoria de Miriam Makeba, com arranjo de Sivuca, que levou ambos a rodar os cinco continentes na década de 70. O grupo investe no swing e nas levadas dançantes bem à moda do “jazz tupiniquim”, expressão comumente usada por Sivuca, atraindo tanto o público jovem como os velhos amantes do sanfoneiro.



Doação do acervo digitalizado



Outra ação do ArteSivuca é o levantamento discográfico do músico, um trabalho feito desde 2006, com recolhimento e catalogação completa de discos no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, França, Inglaterra, Japão, Suécia e Estados Unidos.



O material está devidamente sistematizado, o que resultou na doação de acervos digitalizados para importantes escolas e centros de pesquisa no Brasil, como Instituto Moreira Salles, Conservatório Brasileiro de Música, Instituto Cultural Ricardo Cravo Albin, Escola Portátil de Música, Orquestra de Sopros da Pró-Arte e Escola de Música Popular Brasileira de Curitiba. Nesses lugares, o acervo sivuquiano está disponível para consulta de estudantes, pesquisadores e público em geral. O material contém fichas catalográficas e o áudio de 100 discos.



A doação cumpre o dever de garantir a democratização do acesso à obra do sanfoneiro, uma vez que a quase maioria dos seus discos autorais encontra-se fora de catálogo comercial. E atende à ânsia dos músicos em explorar melhor a obra do artista.



Cursos Livres de Sanfona



Captando uma crescente demanda de sanfoneiros por novos espaços de encontro e aprendizagens, o ArteSivuca promove, desde 2008, em parceria com o SESC Rio, o Sanfonada, um encontro de sanfoneiros cuja marca é a diversidade. Numa espécie de cabaré musical, cada músico executa suas peças prediletas. O resultado vai desde um forró típico a um fado português.



No final de maio, inaugurou-se a primeira Oficina Permanente de Sanfona Brasileira, que está sendo realizada aos sábados no SESC Madureira e aos domingos no SESC Tijuca. O curso é gratuito e voltado tanto para amadores como para profissionais.



O objetivo é criar uma atmosfera em que os artistas possam aprender através dos conhecimentos da cultura popular, o campo abriga até hoje os manejos e as “manhas” de tocar o instrumento de fole. Por isso, parte das aulas são ao ar livre, em “rodas de sanfona”, onde os professores tocam e ao mesmo tempo batem papo com os estudantes, num clima de descontração e alegria, longe da sisudez dos conservatórios.



As Oficinas Permanentes de Sanfona oferecem ainda aulas de teoria musical, o que garante ao sanfoneiro melhores condições de se estabelecer no mercado profissional.



Para Sivuca, como também para muitos brasileiros, a música foi uma forma de inclusão social e garantia de sobrevivência. Por ser albino e, por isso, impossibilitado de tomar sol e com dificuldades de visão, o artista jamais poderia trabalhar na lavoura ou na sapataria, como os membros da sua família. Nesse sentido, as oficinas visam qualificar o músico de forma a ampliar as possibilidades de trabalho como profissional e abrir novos espaços para a sanfona no cenário cultural brasileiros.



Livros



O ArteSivuca é fundado e coordenado pela filha única de Sivuca, a socióloga Flavia Barreto, e pelo jornalista Fernando Gasparini. Ambos são autores de um livro a ser lançado em julho, intitulado “Sivuca e a Música do Recife”, com apoio da Prefeitura do Recife e do Governo de Pernambuco. A publicação aborda um momento especial da carreira do artista, que é a sua formação musical na capital pernambucana, ao lado de orquestras eruditas e populares e respirando uma diversidade musical gigantesca.



Foi graças à sua formação em Pernambuco que o mestre da sanfona se sentiu preparado para seguir carreira, como o artista mesmo dizia: “fiz a graduação em Recife e o PhD pelo resto do mundo”. O contexto musical, histórico e social recifense é resgatado de forma a compreender a amplitude da obra de Sivuca, e o motivo pelo qual o sanfoneiro popular, desde cedo, enveredou pela música erudita.



Após o lançamento do livro em Recife, há previsão de lançamento no Rio de Janeiro em agosto. A publicação será utilizada como instrumento didático nas aulas da Oficina de Sanfona. Afinal, um dos objetivos do curso é oferecer ao músico elementos para compreender a dimensão social do seu trabalho, isto é, como a sua obra é o resultado e a causa do contexto cultural em que vive.



Além do livro “Sivuca e a Música do Recife”, os coordenadores do ArteSivuca planejam em breve uma nova publicação, com a trajetória completa do artista, focando a sua experiência internacional, bem como os laços emotivos entre a filha autora e o pai, revelando fatos inéditos da biografia do músico.



Palestras



Podemos dizer que, se Sivuca estivesse vivo, teria motivos de sobra para comemorar. O sanfoneiro é o compositor homenageado do ano pelos Flautistas e pela Orquestra de Sopros da Pró Arte, um projeto apoiado pela Petrobras e que anualmente faz apresentações de repertórios de grandes músicos brasileiros.



Os estudantes da orquestra aprenderão mais sobre a importância de Sivuca com palestras ministradas por Fernando Gasparini e Flavia Barreto. Apresentações desse tipo fazem parte da rotina do ArteSivuca e já foram vistas por algumas centenas de pessoas, no estado do Rio de Janeiro e em Pernambuco, por ocasião do I Festival Internacional de Sanfona, em março de 2009.



“O trabalho permanente de preservação gera frutos que são colhidos a curto, médio e longo prazos. E tem a importância de contribuir para a produção cultural brasileira no sentido de expandir as sonoridades da sanfona e da música nordestina por todos os estilos que caracterizam a nossa brasilidade e também nossa universalidade musical”, afirma o jornalista Fernando Gasparini.



Flavia Barreto, por sua vez, une o trabalho acadêmico de socióloga ao compromisso afetivo com o pai. Um acordo, aliás, feito em 2001, cinco anos antes de Sivuca falecer. Desde então, Flavia reúne depoimentos acerca da vida e obra do sanfoneiro. “Meu pai, em carta póstuma, me pediu para eu fazer alguma coisa pelas crianças da Paraíba. Ainda não cheguei lá, mas fico contente em contribuir, com os meus conhecimentos, para a propagação do legado do artista”, afirma.

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