“Quem nasceu primeiro, a música ou o sofrimento?â€
Essa é a pergunta feita por Rob Gordon nos primeiros minutos do filme Alta Fidelidade de Nick Hornby. Sob seus headphones e em meio à uma interminável coleção de discos, o protagonista quer saber a razão pela qual proibimos as crianças de assistirem a filmes violentos se, ao mesmo tempo, permitimos que elas ouçam milhares de músicas sobre desilusões amorosas, rejeição, dor, sofrimento e perda. A pergunta tem fundamento, mas se torna retórica assim que somos apresentados ao personagem principal, interpretado por John Cusack.
Rob é uma daquelas figuras que exala música e torna árdua a tarefa de encontrar uma dissociação entre ela e a sua própria persona. Se é correto afirmar que a vida imita a arte então pode-se dizer que no mundo existem milhares de Rob Gordons que vivem da e para a música. Daniel Daibem é um deles.
Daniel é música. Não, não foi um erro de digitação. Antes de ser músico (por vocação) e radialista (por opção), o bauruense radicado em São Paulo é simplesmente corpo, alma e música. Apresentando o programa Sala dos Professores, de segunda a sexta na Rádio Eldorado, Daniel foi capaz de atingir um público cuja faixa etária, classe e cor nem ele mesmo consegue definir, mas que descreve como pessoas interessadas, antes de tudo, naquilo que ele se dispõe a explicar durante a hora do rush. Seu maior trunfo consiste no modo sincero e apaixonado com que â€lecionaâ€. Por meio de suas onomatopeias, Daibem consegue transpor para palavras o dialeto dos instrumentos. É um tambor que faz bum-ticabum-bum, um sax chorando ta-tup-ii-da di-ra-rup ta-tup-II-da-dira RUP! E por aà vai. Esse estilo de contar a música faz lembrar uma das passagens de On the Road em que o protagonista, Sal Paradise, descreve a excitação de um show de bebop em New Orleans em plena década de 40, pré-rock.
O bebop nada mais é do que uma das correntes do jazz. E o jazz por sua vez é a matéria-prima do “Sala dos Professoresâ€. Como diz Daibem, “para entender a essência do jazz é necessário estar familiarizado com suas regras†e para tanto é necessário, se sintonizar com o som, no sentido mais poético que o verbo pode ter. Enquanto não está gravando o programa, Daniel pode estar se dedicando à sua banda, o Hammond Grooves, na qual faz à s vezes de guitarrista ou em qualquer outro ambiente onde a música também esteja. Segundo o próprio, 24 horas do seu dia são gastas com ela, o que nos faz presumir que até seus sonhos sejam musicados.
A maneira sinestésica com que ele lida com a música é perceptÃvel. Em uma conversa por telefone ele conta (e canta) suas primeiras memórias musicais. Da vitrola da vovó vem a lembrança mais antiga que ele possui. Toda vez que ia visitá-la, o menino ouvia o compacto do biquÃni de bolinha amarelinha. E não nos esqueçamos da farofa-fa! A outra lembrança é de um pouco mais tarde quando a mãe presenteou a ele e à irmã com um violão, na esperança de ver o filho tocando os hinos da igreja. Bem, provavelmente ela não deve ter gostado muito quando o garoto começou a ouvir a Bon Scott e seu AC/DC.
O tempo passou e hoje Daniel tem 37 anos e quase dez dedicados ao estudo da música. O menino que saiu de Bauru pra fazer faculdade de Rádio e TV é hoje, de longe, um dos caras mais cool do rádio. Sua lista de influências e Ãdolos é certamente maior do que os nomes que cita na entrevista: Wes Montgomery, Gilberto Gil e Joe Jones. A trilha sonora jazzÃstica dos filmes de Woody Allen faz parte dessa lista de acordo com ele.
Sendo assim, o cinema também contribuiu para sua história. E não poderia ser diferente, afinal a música é como um filme. Como um filme de Hitchcock. Seduz e fisga para dentro da sua narrativa até que você perca a consciência que tem de si próprio e se deixe envolver. É o impulso de avisar Grace Kelly que o assassino se aproxima (“Janela Indiscretaâ€, 1954) e a indignação ante ao sofrimento de um povo (“Strange Fruit†por Billie Holyday). Rob Gordons (cinema), Sal Paradises (literatura) e Jimmy Jazz (música) são exemplos de que a arte pratica um exercÃcio quase metalinguÃstico quando se reproduz em outra área. A arte definitivamente imita a arte.
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