Nas mãos do artista popular Willi de Carvalho, o universo religioso e cultural do interior de Minas Gerais ganha vida por meio de miniaturas confeccionadas a partir de materiais recicláveis. Espelhos, fios de fibra ótica, tecidos, restos...Tudo pode virar arte. As 43 obras da exposição aberta no Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação de Belo Horizonte, constroem uma releitura do modo de vida dos habitantes da cidade de Montes Claros, situada no norte do estado.
Ao mesmo tempo barroco e contemporâneo, a mostra não poderia ter um título mais adequado: “Grandes Miniaturas” resume como a delicadeza dos trabalhos extrapola o limite físico dos oratórios e dos grandes moldes para , enfim, criar um retrato vivo da cultura popular não só mineira como brasileira.
Inspirado nas folias de reis e festas do Rosário, tradicionais de Montes Claros,Willi de Carvalho abusa das fitas coloridas para contar histórias que viveu ainda pequeno, num bairro simples da região. Lá, cercado por manifestações culturais de rua, ele também foi influenciado pelas casas noturnas, ou os chamados “meretrícios”, que tiveram a fama registrada até por Guimarães Rosa nos devaneios de ciúmes do personagem Soropita por sua mulher Doralva,uma ex-prostituta da cidade. No enredo da novela “Dão - lalalão”, do livro Noites do Sertão e que integra a obra Corpo de Baile, o autor relembra as noites e os bordéis do município mais baiano de Minas.
Willi, imbuído de impressões na prática, como um vizinho próximo dessas casas noturnas, transpõe para as obras o erotismo que rondava a época de menino e cria verdadeiros brinquedos eróticos. Na exposição, um símbolo fálico envolto de pequenos homens e mulheres dependurados, por exemplo,como um guarda-chuva, de longe não chama a atenção. De perto, segundo o próprio artista, recebe até censura do Museu de Artes e Ofícios, que modificou o nome “Casa do Caralho” para “Casa do Carvalho”, ao entender que o título poderia assustar e criar rebuliços durante as visitas guiadas feitas para estudantes na instituição.
Essas obras, ainda que menos numerosas ou representativas no conjunto sofisticado produzido pelo artista em torno da diversidade cultural, ficaram restritas ao fundo da galeria, quase escondidas dos olhos puritanos da tradicional família mineira. O mais irônico é ter escutado, enquanto visitava a exposição, um jovem, por volta dos 14 anos, perguntar: “Aqui é Casa do Caralho, não é?”. Então, para que esconder aquilo que já não está mais escondido?
Erotismos e puritanismos à parte, a arte minuciosa de Willi vai além das polêmicas e se consagra na lista de releituras sobre nossos próprios valores, crendices e raízes para nos fazer repensar onde estamos e para onde estamos indo.
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