Conheça a pesada rotina dos garis que fazem a limpeza das ruas em Belo Horizonte
Ainda é noite quando começam os preparativos para o dia seguinte. È hora de preparar a marmita, na latinha o de sempre: arroz, feijão, verdura e um pedaço de carne, quando tem. Para chegar no horário acorda bem cedo, pois o ônibus passa às quatro e meia da manhã. Ana Lúcia mora em Santa Luzia e não precisaria chegar tão cedo, mas como é uma das mais antigas gosta de chegar antes dos outros para ajudar o monitor Tião a arrumar o lixo e as vassouras dos companheiros. Quando o relógio bate às 7h, Ana Lúcia sai com seu companheiro Edney para mais um dia de trabalho.
A saÃda também é antes dos outros, enquanto o pessoal faz ginástica Ana e Edney saem para o seu destino, que sempre é o mesmo: Tupinambás, Afonso Pena e Amazonas. Chegando à Tupinambás começa a varredura, Ana pega sua vassoura no carrinho, levado por Edney, e começa a varrer. Enquanto ela varre o passeio ele fica com a rua.
Enquanto trabalham, pessoas passam em cima dos lixos sem nenhum respeito, outros fazem cara feia. “Tem gente que passa aqui, xinga e até chuta o lixo†disse Edney. Mas para Ana Lúcia já teve tempos piores, quando os camelôs ficavam no centro. “Nossa! Quando tinha camelô aqui era um inferno, a gente acabava de limpar, eles jogavam plástico de suas mercadorias no chão, a gente tornava a limpar e eles continuavam. Eu não ficava nervosa, mas muitos garis não tinham paciência e brigavam com eles†disse Ana.
Além desse desrespeito os camelôs também tinham preconceito com eles. “Falavam que se não fossem eles para sujarem a rua, nós não terÃamos emprego e diziam que recebÃamos para limpar o que eles sujavam†disse Ana.
Para fazerem suas necessidades dependem da solidariedade das pessoas que trabalham no comércio da região central de Belo Horizonte. Mesmo assim, enfrentam alguns obstáculos , reclama Ana. “Em alguns lugares a gente vai ao banheiro em um dia e no outro quando chegamos lá a porta do banheiro está fechada até com cadeado.†Além do banheiro, Ana toma muita água, por isso sai com sua garrafinha cheia e quando acaba ela novamente conta com a solidariedade, ou de seus amigos garis ou das pessoas do comércio.
O trabalho segue até às 11h, quando eles vão para o alojamento, situado embaixo do viaduto Santa Tereza. É hora de saborear a marmita feita no dia anterior. Banho Maria para esquentá-la e pronto, agora é só comer. Após o almoço Ana Lúcia gosta de dormir, pois mais tarde volta à varredura. Alguns garis também preferem tirar um cochilo, outros preferem bater papo. À tarde, o trabalho começa ao meio-dia, Ana e Edney varrem o mesmo trecho que varreram de manhã. Não pense que estará mais limpo, só porque foi varrido mais cedo. À tarde, o fluxo de pessoas é maior e a sujeira aumenta. “À tarde o lixo é maior, tem muita gente e além disso tem aqueles meninos que panfletam por aqui e jogam muitos papéis no chão†disse Ana.
O trabalho de gari é muito pesado. Eles chegam a varrer 4000m por dia. Apenas no centro de Belo horizonte são coletadas por dia 12 toneladas de lixo dos mais variados materiais. Os mais coletados são papéis, copos, garrafas plásticas e folhas de árvores. Mas de vez em quando aparecem surpresas no lixo. “Teve um dia que eu achei um salário jogado no canto da rua, não me lembro quanto era, procurei o dono. Como não encontrei usei o dinheiro para pagar uma parcela de um lote†disse Edney.
Ana lúcia não teve tanta sorte. Em vinte anos de profissão nunca achou nada de valor. “Eu nunca achei nada, muitos companheiros meus já acharam brincos, anéis de ouro. A única coisa que acho de vez em quando são moedas de cinco, dez centavos†disse ela.
Ana Lúcia de Oliveira Silva tem 56 anos e vinte deles como gari. Ela entrou para profissão quando ganhou seu último dos quatro filhos. “Quando comecei a trabalhar de gari meu filho era bem pequeno, hoje ele tem vinte anos†disse ela. Com tantos anos de profissão, já sente no corpo as conseqüências do ardo trabalho de gari. “Tem dia que meu ombro fica muito inchado, mas mesmo assim continuo a trabalhar†disse ela. O médico já não lhe deixa levar o carrinho, devido a alguns problemas que ela tem nos ossos.
São 16h, hora de ir embora. O caminho é o mesmo do almoço, voltar para o alojamento guardar o material, tomar banho e ir embora. No alojamento são três banheiros para mais ou menos 20 funcionários. Alguns voltam para casa sem tomar banho, mas Ana sempre toma e volta para casa onde descansa antes de começar um novo dia de trabalho, com a mesma rotina.
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