Por Luisa Vidor
Barítonos, contraltos, sopranos... Esses são os tipos de vozes de mais de 150 cantores com um poder imenso, um alcance de acelerar qualquer coração que passe perto do departamento de música da Universidade Federal de Pernambuco, UFPE. Rostos diferentes. Uns estampando anos de experiência, outros com jeito de recém chegados por aqui. Pessoas de várias personalidades, etnias, classe social, gosto musical e personalidade. Porém todas em volta de um mesmo foco e um mesmo amor, a música. Esse é o Coral da UFPE.
O grupo originou-se em 2000 da disciplina Canto Coral que é oferecida para os alunos de música. Tudo foi fruto da integração dos estudantes, professores, funcionários e servidores e a comunidade externa. Seu fundador e regente até hoje é o professor da universidade, Flávio Medeiros. No começo os ensaios somente aconteciam no auditório do Centro de Artes e Comunicação (CAC) e seu primeiro recital foi no próprio hall do Centro. Com o crescimento do grupo, os recitais começaram a acontecer não só na universidade mas em vários lugares. Em 2008 uma nova fase começou quando o grupo lotou o Teatro da UFPE com o recital Carmina Burana. Assim há nove anos, o Coral leva a música erudita para os seus integrantes e suas plateias.
“Tem alunos da universidade de música e de outros cursos. Tem pessoas que vieram de outras instituições, de 17 a 100 anos”, contou com humor Flávio Medeiros, em meio ao ensaio. Segundo o maestro não há restrições para entrar no grupo. Basta querer. O único teste que acontece é para direcionar o integrante para o tipo de voz mais adequada. “Um dos grandes desafios do coro é buscar a unidade entre todos. Não importa a classe social, gosto musical ou o conhecimento musical. O coro nos torna um só organismo e o prazer de cantar é o nosso grande objetivo, além de emocionar, quando possível, as pessoas que estão ouvindo”, afirma.
A interação
Todas as quartas e quintas o coro se reúne no auditório do departamento. Duas semanas antes da apresentação há muita concentração para acertar cada melodia e palavra, mas também, muita descontração quando um erro engraçado acontece. Os alunos de música, que já tem experiência ajudam quem começou agora ou nunca teve uma aula sequer. A peça é em latim e um professor de Letras ajuda a todos a pronunciar cada palavra. É um trabalho árduo. Rogério, 26 anos, aluno de música, está no Coral há dois anos e afirmou: “tem o lado profissional e humano, pois podemos ver que não é só um aluno de música que canta, todos têm capacidade. Como eles estão se inserindo em outro meio, nós de música, também podemos”. Luiza Veras, 57, participa há quatro anos e nunca fez uma aula de música. “Isso é minha vida, passo a semana esperando. Se eu perdi três ensaios nesses quatro anos foi muito”. Ela é um exemplo de várias pessoas que participam do Coral por amor a música e se dedicam, para que tudo dê certo. “A gente se complementa. Os alunos de música pela qualidade vocal e nós com comprometimento e assiduidade”, contou Flávia Dias, 56, que também não é aluna na UFPE e está no Coral há quatro anos.
A preparação
Todos os anos o grupo faz duas apresentações, uma em cada fim de semestre. São em torno de quatro meses de preparação com dois ensaios, de duas horas cada um, semanais. A cada apresentação os recitais são diferentes e por isso requer muita dedicação por parte de todos. Como todas as peças são eruditas, as letras normalmente são em outros idiomas e são de um grau de dificuldade considerável em relação às técnicas vocais, por este motivo os integrantes não só têm que comparecer aos ensaios, mas também, a precisam se preparar em casa. “É uma experiência cantar em latim, é ousado”, afirmou Rafaela aluna de serviço social da UFPE que pela primeira vez participa do Coral. Em meio a todos os ensaios os sorrisos e a satisfação estão sempre presentes em cada integrante, principalmente das pessoas da comunidade em geral que realmente encaram com seriedade a música e ao mesmo tempo vêem os ensaios como um momento de alegria. “É uma terapia”, comenta Flávia e Luiza.
A expectativa e o grande momento
É noite e o Bairro do Recife está iluminado. Parece se preparar para receber o público e o espetáculo. O grande dia chegou. Depois de horas de ensaio, muito esforço, o Coral da UFPE está posicionado nas laterais da Igreja da Madre de Deus. O clima é de ansiedade, e muita agitação, pois todos esperam o momento de realizar o que tanto ensaiaram durante o semestre. Os músicos preparam seus instrumentos e as vozes com as partituras nas mãos se posicionam, pois o momento de entrar se aproxima. Alguns se destacam pela quietude. “Eu tô tranqüilo. Quero logo entrar e fazer”, conta Jorge Van der Linden. Outros encaram com humor. “O gogó tá nos trinques”, brinca Marilu Oliveira também integrante do Coral.
Às oito e quinze da noite é anunciada a entrada. Todos, ordenadamente, se colocam no altar na igreja. Primeiro entra a orquestra, logo depois o Coral, o maestro Flávio Medeiros e os solistas. O silêncio toma conta daquele cenário erudito. A Madre de Deus lotada, sem nenhum espaço vazio, silencia e faz parecer não ter uma sequer pessoa no espaço, porém mais de mil estão presentes. O maestro faz um gesto, e o show começa. As mais de 150 vozes ecoam em meio à histórica igreja. Parece que as esculturas e detalhes barrocos, tão rebuscados, cantam com o Coral. As paredes tremem, e coração do público também. A peça é perfeitamente executada através de cada nota colocada pelos músicos, por cada voz do Coral e dos quatro solistas.
No fim, parece que o tempo passa rápido e quando a última nota é tocada, o público aplaude veemente, de pé. São pelo menos dois minutos de aplausos ininterruptos. Não é para menos. “Foi maravilhoso, só podia ficar melhor se o próprio Mozart ressuscitasse e viesse reger”, fala impressionada, Maria Lúcia de 60 anos que veio de Carpina, no interior de Pernambuco, somente para ver a apresentação. “Foi muito gratificante. Hoje foi como se tivesse uma magia. Eu me realizei”, conta o pianista da orquestra Ednaldo Neves. No fim o clima era de dever cumprido, ou quase cumprido, pois o Coral ainda iria se apresentar no dia seguinte no mesmo local.
Todos aqueles rostos diferentes que ensaiavam concentrados, no auditório da UFPE, realmente se transformaram em um só corpo, em um só som. As diferenças se tornaram igualdades, pois a música uniu cada uma daquelas vidas, sem distinção, nem preconceito. A arte cumpriu seu papel. Inspirou e completou o coração de um público que também é diferente como eles, com vários rostos distintos, mas quando próximos para apreciar o espetáculo também se tornam uma só gente.
Diário de bordo
Cheguei a UFPE com várias ideias na cabeça, achei que seria difícil ter acesso aos integrantes, ao maestro, afinal eu assistiria um dos últimos ensaios antes da apresentação. Entrei bem discretamente ao auditório e me deparei com o ensaio já em andamento. De cara, já vi uma diversidade de pessoas, mulheres da frente, homens atrás. Peguei minha câmera e fui tirando algumas fotos para reportagem, acenei para o maestro e continuei, com o intuito de não atrapalhar o ensaio. Quando de repente escultei o maestro falar: “Pessoal quero apresentar a vocês Luisa, ela é estudante de jornalismo e fará uma reportagem conosco. Luisa fale um pouco do que você fará”. Naquele momento todos os olhares que antes estavam tão concentrados em suas partituras, voltaram-se para mim. Eram olhares de boas vindas. Expliquei que faria uma reportagem sobre o eles e que depois gostaria de seus depoimentos. Assim minhas idéias se desconstruiram. Fui tão bem recebida com sorrisos e brincadeiras... Minha visão se transformou. O Coral da Universidade Federal de Pernambuco, naquela sala se transformou em uma família que acolhe um visitante em sua sala de casa. Normalmente, nós repórteres, sempre temos que ir atrás das fontes, perguntar, buscar delas as informações que precisamos. Porém, tudo mais uma vez foi diferente. Quando o ensaio terminou, várias pessoas vieram até mim realmente querendo dar seu depoimento, com vontade de deixar suas ideias registradas. Praticamente não precisei ir a ninguém. Ouvi histórias engraçadas, sérias, comoventes, e ouvi também histórias de vida.
Cabelos curtos, pequena, sorridente, bem arrumada e com sua pasta de partituras nas mãos. Na primeira fila do Coral Mirian, 74, se destacava por seu rosto atento a tudo que o maestro falava. Depois do ensaio ela chegou ao meu lado e entusiasmada disse para sua colega do Coral: “Ela vai ficar de boca aberta com a minha história”. E então me virei e escutei atentamente.
“Toda vida quis estudar música. Eu nasci no vilarejo do interior onde não tinha muita oportunidade, principalmente para as mulheres. Sempre fui alucinada por música. Era meu maior sonho desde pequena. Eu cresci, me formei em Pedagogia e Letras. Casei cedo, criei meus filhos e não teve nenhuma oportunidade na área. Há 12 anos fiquei viúva e sozinha. Sempre fui ativa, mas tava sentindo um vazio em mim, faltava alguma coisa de rotina. Aí então optei pela música. Fui a Escola Municipal de Artes João Pernambuco, que tem aulas de graça, pois é a única escola patrocinada pela prefeitura e há quatro anos comecei e depois completei o curso básico de música. Em seguida dei início a aulas de laboratório aqui na UFPE e só depois quando me senti preparada entrei para o coral há 2 anos. Daqui eu só saio quando eu for para céu. Hoje toco piano, leio partitura... Isso aqui é minha vida, é uma glória!”.
Nas mais de três horas que fiquei na UFPE, vi que a música realmente transforma e une as pessoas. E que não há idade, forma, cor, classe social, que impeça de alguém de ir atrás dos seus sonhos e de expressar a sua arte.
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