A morte do guitar hero brasileiro

1
ratner · Porto Alegre, RS
20/5/2008 · 126 · 2
 



Por Rogério Ratner


A morte de Wander Taffo, com certeza, deixou triste todo mundo que gosta de rock brasileiro e música em geral. Sem dúvida, embora o Brasil conte com inúmeros guitarristas de enorme quilate, Wander mostrava-se diferenciado, com uma qualidade e perfeição técnica acima da média. O seu berço era a Pompéia, o bairro que na capital paulista representa um verdadeiro reduto e celeiro do rock, a exemplo do que, em Porto Alegre, representou o Partenon nos anos 60, o IAPI nos 70 e o Bomfim daí em diante.
Wander passou por bandas clássicas do rock brazuca dos anos 70 e 80 (Memphis, Made in Brazil, Secos e Molhados, Joelho de Porco, Gang 90), mas ganhou destaque mesmo foi no Radiotáxi. Ontem eu estava ouvindo a rádio FM Cultura, daqui de Porto Alegre, mais exatamente o programa “Estação Cultura”, e o pessoal reproduziu um trecho da entrevista que ele deu há alguns anos no programa “Conversa de Botequim”, para o radialista Luiz Henrique Fontoura. Ali ele contou a gênese da banda: todos os integrantes faziam parte do grupo de apoio de Rita Lee no início dos anos 80. Daí, um diretor estrangeiro da CBS/EPIC, que era amigo de Wander, disse que ia se mudar para o Brasil, e eles estavam procurando uma banda de rock pra lançar. Aí Wander disse que já tinham achado. Entretanto, o batismo do Radiotáxi somente ocorreu posteriormente, por Nelson Motta, que havia feito a letra da música que veio a ser o grande hit da banda, “Garota Dourada”, com melodia do próprio Taffo e de Lee Marcucci. Segundo falou na entrevista, foi Nélson que encaixou a música na trilha do filme “Menino do Rio”, que fez bastante sucesso, sendo um dos marcos na explosão do rock brasileiro nos 80. Entretanto, a banda ainda não tinha nome, e nos créditos do filme, saiu que a música era interpretada por Lee Marcucci e Banda, pelo fato de Lee, ex-Tutti Frutti, ser o nome mais conhecido do público. Rita Lee também foi madrinha da banda, e contribuiu com a clássica “Coisas de casal”, dela e de Roberto de Carvalho, que fez muito sucesso com o Radiotáxi.O Radiotáxi, nos anos 80, sempre foi taxado como uma banda comercial, e não eram poucos os que diziam que era uma “armação” de gravadora, uma jogada de marketing, o que absolutamente não era verdade. Hoje, com o distanciamento de tempo necessário, pode-se concluir que era uma banda pop de grande qualidade. As letras, de um modo geral, não eram realmente o ponto mais forte da banda, o que não desmerece absolutamente o trabalho como um todo, dada a grande qualidade das melodias, dos arranjos e o apuro instrumental e vocal. Eu tenho em vinil todos os discos, mesmo aqueles dos estertores da banda, em que alguns dos componentes originais foram saindo e entrando outros. Após o fim da banda (que chegou a gravar recentemente um DVD ao vivo, e antes havia ensaiado um retorno num CD lançado pela gravadora Movieplay), Wander lançou-se em carreira solo, primeiro com dois LPs (que eu também tenho) num estilo mais hard rock com visual metaleiro. E em 1998, lançou um CD que eu gosto muito pelo selo Spotlight, onde ele arrasa na parte instrumental. Neste disco, em que Wander retoma sua veia pop, tem uma versão bem sacana para o clássico “Lola” dos Kinks, uma versão da música da bela canção “Mais que um sonhador”, sucesso com a banda Degradée nos 80, onde ele, somente aos violões, faz uma verdadeira sinfonia, tirando do instrumento sons absurdos em termos de ambiência e encorpação, com um resultado técnico espantoso. Mas neste CD, há duas pérolas do “humor roqueiro/brasileiro/politicamente/incorreto”, “Põe ni mim”, em que ele narra as desventuras do relacionamento com uma garota bela mas burra, e “Celulite”. Na minha candura, e achando engraçada esta última música, caí na besteira de mostrar a canção pra minha mulher, o que me estragou o dia, porque ela ficou totalmente zoada. Pudera, nenhuma mulher vai achar graça numa música cujo refrão era mais ou menos assim: “Lá vem ela, parece gelatina, com a bunda esburacada e rosto de menina”. Definitivamente, as mulheres não têm senso de humor quando o assunto da piada é a estética feminina. O CD também contém um rock instrumental, que é matador. Wander, além de cantar muito bem e tocar de forma “estúpida”, também destacou-se no cenário musical por suas preciosas atividades pedagógicas, deixando um grande legado para o rock nacional. É, sem dúvida, um grande guitar hero do rock brasileiro.
“Bisoiando” na internet, vi que o Lobão disse, acerca do passamento de Wander, que a música brasileira está de luto. De fato, nesta hora, só nos resta fazer coro às palavras deste que também é um grande ícone do rock brazuca.



compartilhe

comentários feed

+ comentar
heraldo hb /.
 

caraca, só aqui mesmo pra ler essa notícia... valeu pelo post, pra não passar em branco.
um brinde a wander taffo!

heraldo hb /. · Duque de Caxias, RJ 19/5/2008 13:55
sua opinião: subir
Marcelo Cabral
 

A guitarra brasileira de luto.
Ratner, retrospectiva importante esse teu registro aqui no Overmundo. Abraços.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 20/5/2008 18:46
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados