Alicerces do Tempo

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Ivo Maranhão Costa · Recife, PE
28/7/2013 · 0 · 0
 

Alicerces do Tempo
Ivo Costa



Capítulo 1 - Ventos de Agosto




Era início de setembro de 1959, o céu estava num tom azul clarinho e intenso. Os ventos de agosto ainda sopravam como se não quisessem dar vez à primavera que se aproximava. A família Santos vivia mais um dia de sua rotina humilde e feliz. O pai, seu Geraldo, sertanejo de Arcoverde, homem de bem e pedreiro de mão cheia, nunca deixava faltar nada em casa e cuidava bem da esposa, dona Marlene, grávida e de seus três filhos, Vicente de 14 anos, Vilma de 12 e Valter de apenas cinco. “O que vem se for menino vai ser Valdir e se for menina, Marlene quer o nome de Valéria. Com saúde é que importa”, dizia ele radiante aos conhecidos, ao imaginar como seria a criança que sua senhora trazia no ventre.
A propriedade era modesta, mas caprichada. Tratava-se de um terreno de bom tamanho, cerca de 20x20, fruto de uma invasão mesmo, que findou formando uma rua. Afinal, na época muita gente fez isso e com eles não foi diferente. Tinha bom solo, quase às margens do rio Morno, braço do Beberibe, onde vez por outra os moleques da região pescavam piabas para assar na lenha e catavam betas para servirem de gladiadores em garrafas com água.
A casa, seu Geraldo tinha construído com as próprias mãos, sem dispensar é claro, a mão de obra de seu fiel ajudante Lourival, um rapaz meio leso que viera de Gravatá sem eira nem beira, procurar trabalho em Recife. Seu Geraldo o acolheu em casa por um tempo até ensinár-lhe o suficiente para que participasse de suas empreitadas, além de fazer vez por outra, alguns bicos por conta própria em troca de uns cruzeiros.
A construção tinha apenas dois quartos, mas a sala espaçosa compensava. Tinha também um banheiro largo e cozinha caprichosa, que aproveitava toda a luz do Sol que pudesse passar pelos combogós. Atrás da casa, seu Geraldo ainda plantou uma muda de aroeira. “é pra fechar talho”, dizia ele destacando a propriedade cicatrizante da planta. Já no terreno restante da frente, permaneceu a sombra presenteada pela velha mangueira que já existia no local.

Numa manhã rotineira, quando os primeiros raios de sol se espremiam pelas brechas da janela do quarto, o cheiro do café quentinho já tomava conta de toda a casa. Na verdade à mesa já estava posto um belo cuscuz feito no bafo ao fogo de lenha e banana cozida, comprada na banca do verdureiro que negociava na Praça da Convenção e pão comprado na barraca de seu Martiniano. O leite era fresquinho e trazido na porta de casa, oriundo de uma criação em Linha do Tiro.
Enquanto seu Geraldo se preparava para o trabalho, Vicentinho dava um pulo da cama acordando os outros, pois dormiam todos juntos. O caçula, Valtinho ainda resistia catando sono, mas a fome fazia a vez.
Então dona Marlene tomava uma boa fatia do cuscuz macio, ainda fumaçando e despejava no prato de cada um, decorando com uma boa colherada de manteiga, que derretia lentamente ensopando a massa. Vicentinho ficava olhando o pai comer. Tamanha era a admiração daquele menino, que se esquecia de olhar para o próprio prato como se esperasse autorização. Quando seu Geraldo percebia e o encarava, Vicentinho sorria e seu Geraldo franzia a testa dizendo: “coma que vai esfriar”. Só assim o menino dava as primeiras garfadas, enquanto seus irmãos já se esbaldavam. Ele sabia o quanto era trabalhador, honesto e dedicado aquele pai e quanto era amado por ele, ainda que o mesmo não demonstrasse a todo o momento. Ele sabia, sentia.















Capítulo 2 – Uma faca no coração


Era sexta-feira e pontual como sempre, seu Geraldo segue apressado até a praça da convenção para tomar a condução. Vicentinho sempre acompanhava o pai carregando sua marmita, aproveitando para levar pra casa o que se comprava no lugar. A condução das seis horas ia até a encruzilhada e lá seu Geraldo encontrava com Lourival que há dois meses vinha morando num cortiço perto do mercado e estava feliz da vida por trabalhar na mesma empreitada. Os dois seguiam para a labuta, descendo no centro e de lá iam em direção a Boa Viagem onde ficava a obra.
A T.Albuquerque era uma empresa mediana e uma das pioneiras em construções no recife. Seu proprietário o Sr Terêncio Albuquerque, homem honrado, maçom e de origem humilde, conhecia bem o valor do trabalho e sabia reconhecer um bom profissional. Seu Geraldo era um desses e ganhara há muito o respeito do patrão. Tanto que já era cotado para mestre de obras desde que o acompanhasse em um novo desafio. Doutor Albuquerque como era conhecido entre os peões, chama seu Geraldo pra uma conversa em seu escritório e propõe levá-lo a Brasília, onde fecharia alguns contratos de parceria para realizar os acabamentos de algumas obras, bem como a construção da catedral e um grande hotel. “Quero você como mestre de obras lá Geraldo”, dizia ele, “a obra aqui já está pronta e lá é trabalho grande pra melhorar de vida. O único problema é que a família não pode ir, não agora”. Isso entrou como uma faca no coração de seu Geraldo, pois amava demais os seus. Pensou na gravidez da esposa, nos meninos, mas se animou quando lembrou que era só um tempinho longe de casa e que daria uma vida melhor para todos. “Deixo tudo em ordem”, pensou. “Vicentinho já é quase um homem e em janeiro venho buscar eles”. O patrão continuou: “selecionei os melhores que tenho e vou dar o dia de amanhã pra todo mundo se organizar. O sábado é seu, converse com sua esposa e me diga terça-feira, depois do feriado porque dia 12 a viagem acontece”. Então sem pensar em mais nada, de pronto aceitou.
Mais um dia cansativo, porém cheio de novidades. Em casa, seu Geraldo tenta aplacar a indignação de dona Marlene ao saber da viagem marcada. “Mas Geraldo, daqui a dois meses vou parir e nem as festas você vai passar em casa”, dizia ela em tom de revolta. “Sua irmã está vindo lhe ajudar minha filha”, responde ele acerca da cunhada, Marluce, que viria do interior passar o natal, podendo ficar de vez. Sem acordo ou consolo, numa breve explicação do porquê de ter aceitado a proposta e como se alucinado pela idéia de voltar com maior cargo, o homem só responde o que lhe cabe: “vai ser melhor para os meninos mulher, quero uma vida melhor pra todos nós. É progresso”. E vai para o quarto sem querer mais conversa, fingindo dureza de coração, mas se acabando por dentro. Cria ele que ir para a nova capital era o melhor a fazer.
Na manhã do sábado, seu Geraldo percebe que apesar de contrariada, dona Marlene caprichara como sempre na mesa que punha, mas agora em silêncio. Ele também não diz um til sequer e depois de comer, se mete fazer tarefas para deixar a casa mais ajeitada. Cismou em fazer argamassa e ela só observa. O experiente pedreiro permanecia firme na idéia de progredir. Era a chance que um homem de pouco estudo não poderia jogar fora. Com ele era trabalho e estudo era para seus filhos. Os queria formados e isso o estimulava mais. A casa iria ficar bem pintada e ajeitada. Iria dar instruções para os meninos sim, principalmente para Vicentinho, contando com o filho, já um homenzinho. “Uma semana meu Deus!”, pensava, “só uma semana e poderei partir tranquilo”.













Capítulo 3 – Rumo a Brasília

Era dia 12 de setembro. Sábado de uma semana que parecia não querer passar. O Sol ainda nem dava direito as caras e seu Geraldo já estava de barba feita. O café o aguardava, feito pelas mãos de uma esposa prendada e triste, mas conformada, que ia aos poucos e com muita delicadeza acordando os filhos um por um para celebrarem com o pai o dia da despedida. Seria possível que a felicidade só estampava o rosto daquele chefe de família? Chegava até a cantarolar alguma coisa. Nem as crianças pareciam muito felizes naquele dia. O desjejum não era o mesmo com tanto desânimo. “Marlene, arruma os meninos que daqui a pouco Tonho chega”, dizia ele, “e deixe disso mulher, já conversamos muito e já lhe disse, se Dotô Terêncio já está lá é porque o negócio é bom”. Mas dona Marlene não queria saber de negócio, queria o marido em casa na hora do parto e no natal. Porém, falar mais não adiantava. O homem estava cego e ela só tem um sorriso aguado.
Ouve-se o som de buzina velha. Era a Kombi 50, alemã, de seu Tonho, morador do bairro que fazia frete na região. Apesar de ter apenas nove anos de uso, o carro era bem acabado. Era das primeiras lançadas, de manivela, mas servia pra transportar mercadorias e levar gente. Vicentinho ajuda o homem a carregar as malas enquanto dona Marlene e as crianças se acomodam no interior do veículo. Seu Geraldo fecha as portas e janelas e na saída, depois de fechar o portão da frente, pára por um instante e contempla toda a construção que fez com as próprias mãos. Mas ao olhar para trás e ver sua família o esperando, tira qualquer pensamento que o impeça de lutar por eles. Não iria desistir. Entra com Vicentinho no carro e segue.
No bairro da Encruzilhada, local marcado para esperarem um ônibus fretado, já com todos os trabalhadores que viajariam, seu Geraldo chega com a família e começa a retirar a bagagem da Kombi. Lourival, que já estava também no local se oferece para ajudar. Ao ver que dona Marlene descia do veículo, partiu a dar-lhe a mão a fim de que não tropeçasse e ao mesmo tempo fitando-a com grande admiração. Ora, dona Marlene era uma mulher sertaneja, morena, bonita, de 37 anos. Apenas os poucos recursos financeiros lhe desfavoreciam. Mas sua beleza ainda assim era notória em meio a uma aparência sofrida. Lourival tinha intensa admiração por ela e por ser meio bobo, ele não conseguia disfarçar, lançando olhares bem suspeitos. Olhares esses que incomodaram dona Marlene no período em que aquele esteve hospedado em sua casa. Tal incômodo culminou na saída do rapaz para outro local de moradia. Seu Geraldo sempre achou um exagero da mulher quando o alertava sobre o comportamento do ajudante e só acatou sua decisão de expulsa-lo por causa de sua gravidez.
O ônibus chega e a bagagem começa a ser organizada por Lourival, enquanto seu Geraldo tira dinheiro do bolso para pagar o serviço de seu Tonho, aproveitando para comprar roletes de cana no palito para os meninos. Assim que a bagagem já está organizada dentro do fretado, aproxima-se então o retratista da praça, que já observava o movimento. E querendo ele ganhar seu trocado, aproveitou para oferecer seus serviços. Prontamente seu Geraldo reuniu a família e pediu uma foto. Todos na posição e Lourival logo se encaixou também para sair no retrato. “Todo mundo sorrindo”, exclama o homem e alguns segundos depois avisa, “pronto, só paga quando vier buscar viu patrão”. Começaram as despedidas então.
Seu Geraldo afaga os cabelos de Vicentinho e dá as últimas instruções ao filho antes de partir. Ele balança a cabeça “sim meu pai”, concorda atento. Então o amado pai dirige-se a Vilma, segura seu queixo delicadamente e dá-lhe um beijo na face. Logo se agacha e fala com Valtinho, cocegando-lhe a barriga. Depois olha um e outro com ar de riso “Obedeçam a sua mãe viu, ajudem seu irmão e cuidem do neném”, os dois balançam com a cabeça em acordo. Finalmente se dirige a esposa amada, que já está em lágrimas. Põe a mão sobre seu ombro e discretamente toca-lhe o ventre. Em silêncio os dois se olham atentamente até que o motorista do ônibus alerta da partida. Então o dedicado marido profere palavras consoladoras. “Amo você minha senhora e amo nossos filhos. É por todos vocês que parto agora”, ela chora, “quando eu voltar tudo vai ser diferente, pois um mestre de obras trabalhando lá para aquelas bandas ganha bem e vou mandar dinheiro”, mas ela está inconsolável, “o que deixei dá pra sustentar a casa até o natal”. Ela o abraça fortemente “Ô Geraldo, vai não homem. Eu ensino crochê, faço doce pra vender. A gente se vira meu marido”, mas com imensa dor ele a olha fixamente e termina a despedida com um beijo na testa e uma resposta curta. “Tenho que ir”. Assim, vai em direção ao ônibus. E ainda nas passadas olha pra trás e acena. Sobe, toma assento e ainda fala com sua família pela janela. Vendo todos chorarem, não se contém e desaba em lágrimas. “Eu volto!”, promete.
Quando o fretado começa a sair, Vicentinho apressa os passos e corre tentando acompanhar o trajeto, acenando freneticamente. Ao ver o desespero do filho seu Geraldo se espreme na janela e responde com o mesmo fervor, chorando de se acabar. Indo pelo cruzamento, o ônibus dobra na Avenida Norte, saindo das vistas. “Vamo simbora menino!”, chama seu Tonho, querendo voltar logo, pois provavelmente tinha mais frete a fazer. Vicentinho se acomoda na Kombi junto com sua mãe e irmãos e todos seguem pra casa.
No caminho de volta, a saudade do menino já era sem fim, mas ao ver o olhar triste da mãe com sua barriga já pesada e seus irmãos distraídos olhando a rua, percebeu o quanto tinha amadurecido e que todos precisariam dele agora. Engoliu o choro e decidiu que a partir dali seria o homem da casa. Respirando fundo e soltando o ar para relaxar, veio-lhe a lembrança de um dito de seu pai. “Homem da casa ou trabalha ou chora. E eu não tenho tempo pra chorar não”. Lembrou também que foi a primeira vez que viu seu pai chorar.

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