Cidade anfíbia

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Renato · Recife, PE
20/3/2006 · 215 · 0
 

Um pequeno povoado, não muito distante de Olinda, roubado ao mar, aos rios e ao mangue. Depois um porto movimentado, o açúcar trazendo navios e outros invasores, a primeira urbe cosmopolita do Brasil. Então, os portugueses de volta, o catolicismo restaurado enchendo a cidade de torres de igreja. Passam-se os século e surge a modernidade, contraditória como só ela, e então chegamos no início do novo século com o duvidoso título de segunda cidade no quesito “pior distribuição de renda do planeta”.

Resumida de forma grosseira, essa poderia ser a biografia da Veneza brasileira. Uma trajetória sintetizada na exposição História de Muitos – Evolução Urbana do Recife, em cartaz por tempo indeterminado no Museu da Cidade, instalado no Forte das 5 Pontas, no bairro de São José. A curadora Betânia Corrêa de Araújo – também diretora do museu – aproveitou a parte já catalogada do enorme acervo fotográfico arquivado lá – quase 300 mil negativos – juntou com reproduções ou originais de mapas antigos, fotos de satélite e resquícios de construções e mapeou de forma didática, mas nunca superficial, os (des)caminhos da cidade anfíbia.

O projeto enquadra-se num processo de revitalização do museu, criado em 1982. Explica Betânia no texto distribuído aos visitantes: “Cada dia, novos soldados juntam-se a muitos na austera Praça-d’Armas. Prontos para a luta, criam textos, produzem imagens, narram histórias, conservam objetos e devolvem à cidade os vestígios eleitos, prontos para novas formas de apreensão e consumo”. Lugar de constante construção e produção de vestígios, o museu devolve à cidade o que a memória coletiva escolheu armazenar.

A exposição divide-se em duas partes: a primeira, fixa, enquadra o período que vai da fundação até a chegada da modernidade. Cada etapa é apresentada por um texto do professor Antônio Paulo Rezende. Aí começa a segunda parte, móvel, que pretende aproveitar o processo de catalogação dos negativos, com início previsto ainda para 2006, graças a um acordo de cooperação com o IPHAN. À medida que as fotos sejam reveladas e estudadas, seções dedicadas a assuntos específicos (“rios”, “pontes”, “carnaval”) passarão a se revezar.

Cada subtema abordado deverá dialogar, também, com trabalhos de artistas plásticos ou fotógrafos contemporâneos. Nesses meses de abertura, uma projeção com imagens colhidas pela IMAGO – coletivo de fotógrafos locais – recebe o visitante. Eles optaram por captar os contrastes do Recife, navegando pelo Rio Capibaribe, explorando os morros e terminando a viagem pelo bairro de Boa Viagem, “o metro quadrado mais caro do Nordeste”.

Vale uma visita, essa História de Muitos. Lá estão os mapas deixados por holandeses e portugueses, os azulejos de casas antigas, cenas do porto pintadas por artistas como Franz Post, os escravos, o desembarque dos primeiros automóveis, a chegada do Zeppelin diante de uma multidão em êxtase, os banhos de mar, o carnaval... Quem ama as cidades amará esses pedaços da história do Recife e suportará estoicamente o calor que faz no Forte nos dias de sol intenso.

História de Muitos pode ser vista de terça a sexta, das 9h às 18h, e nos sábados e domingos, das 13h às 17h. Maiores informações pelo fone (81) 32248564.

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