O frevo de Ariano parte 2

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stellio · Campina Grande, PB
18/5/2006 · 87 · 1
 

O FREVO DE ARIANO

“OLINDA, QUERO CANTAR
A TI, ESTA CANÇÃO”

Uma luz no entanto parece piscar, pelo menos, no fim do túnel. Em Pernambuco, a folia momina tem resistido a este processo elitista, tão evidente em outros estados
Motivos, são vários e louváveis. Mas a constatação, óbvia e gratificante, é que os pernambucanos têm conseguido não apenas “botar”, mas manter o seu bloco na rua, com originalidade e tradição, e sem perder a alegria que o momento requer.

Não se pode descartar o Galo da Madrugada, maior reunião de foliões de todo o planeta, que no sábado da festa atrai 2 milhões de pessoas às ruas e pontes do Centro do Recife, e tem nos trios e camarotes um discreto, porém real, apelo a baianidade. Leia-se portanto, apelo mercadológico.

Porém, a regra do Galo é uma exceção. Um folião que há vinte anos subia as ladeiras de Olinda pouco se surpreende com o carnaval dos dias de hoje. Orquestras de frevo, maracatus e afoxés promovem o mais inusitado e agradável congestionamento de que se tem notícia.

Qualquer ritmo que não seja os tradicionais é proibido de ser executado nas ruas. As emissoras de rádios têm um percentual definido de músicas da região a serem tocadas.
Mas a mais forte manifestação parte mesmo do povo, que em coro e sem distinção de classe ou idade, canta os versos das músicas mais conhecidas, aquelas mesmas que eram tocadas quando lá estava o folião de vinte anos atrás.
Na primeira capital pernambucana, há um misto de encanto e paradoxo nas ladeiras do carnaval. Foliões dançam nos pátios das dezenas de igrejas que, sombrias, não conseguem transmitir indiferença à badalação. Há um quê de benção a tamanha alegria.

Fantasias futuristas, e engraçadas, outras tradicionais, e igualmente hilárias, dão um colorido à festa, que contrasta e completa o sóbrio casario secular.

Cada um dança a seu jeito, canta de sua forma. Mas o consenso gira em torno da alegria, do sentimento de paz e acima de tudo pela consciência de que ali não se forçam barras para a folia. A fórmula do carnaval de Olinda é permanente, à disposição de quem dele goste ou se interesse, sem o apelo comercial dos outros grandes centros.

“EM CADA PRÉDIO, TRAÇOS DE UMA CULTURA
INTERIOR DAS NOSSAS RECORDAÇÕES”

Ao Recife coube a difícil tarefa de perpetuar a tradição e repercussão da folia olindense. Centro urbano e comercial dos mais importantes do Nordeste, o caráter de metrópole da cidade certamente combinava mais com os recifolias da Avenida Boa Viagem e seus blocos com esquisitas combinações de frutas e iguarias.

Mas no recifense há também a mais arraigada manifestação da cultura popular do estado. A ciranda de Itamaracá e demais regiões praieiras, o coco, o cavalo-marinho e o maracatu da região dos canaviais, além do frevo, eminentemente recifense, cobravam da Veneza brasileira esse caráter cultural. Que o axé tivesse seu espaço nos galos e boas viagens, mas era essencial aos ritmos mais representativos da pernambucanidade ocupar seu posto.
Com a recuperação do Recife antigo, a reabilitação do casario e o fato de ser próximo a ícones da história pernambucana, mais recentes ou antigos, desde que ligada ao movimento cultural, como o Marco Zero e a Torre Malakoff, o Recife Antigo adotou essa idéia do carnaval da tradição e de todos os ritmos.

Aliada a administrações conscientes e politizadas (no bom sentido), o carnaval do Recife Antigo só cresce, seja em público participante, seja em atrações. E cresce principalmente em qualidade e diversidade.
Em 2006, o Carnaval Multicultural se estendeu por nada menos que 16 pólos, sendo três na região do Recife antigo e os demais em bairros da cidade que tiveram a oportunidade de receber as mesmas atrações dos pólos principais.

Recebendo músicos tradicionais de Pernambuco como Antônio Nóbrega, Lenine, Alceu Valença, Claudionor Germano, Silvério Pessoa, Orquestra Spock de Frevo e Quinteto Violado, o conceito de multiculturalidade no entanto não foi esquecido. Atrações vindas das praias, da Zona da Mata ou do Agreste completaram a beleza colorida e sonora nas ruas e palcos.

Fosse Lia de Itamaracá e seus cocos, Mestre Salustiano e sua Rabeca ou Siba e o excelente coletivo Fuloresta do Samba só pra citar os já renomados, o carnaval do Recife abriu espaço às mais diversas manifestações culturais dos rincões pernambucanos.

Na noite do domingo os Maracatus do Baque Solto encontraram-se no palco do Marco Zero, o principal dos pólos. A beleza e humildade de vestes e gentes encantaram o público que alternava-se em dançar ou apenas assistir ao incomparável espetáculo.

O Cordel do Fogo Encantado subiu ao palco no mesmo dia e confirmou com sua música de forte personalidade e teatralidade intrigante por que é uma das bandas mais premiadas bandas do Brasil.

Assim foi nos cinco dias de carnaval. Mesmo nomes alheios à tradição musical pernambucana apresentaram-se em meio aos valores locais. A própria segunda-feira com o samba de Martinho da Vila e Leci Brandão aconteceu depois dos blocos de paus e cordas.

E, mais importante, todos os shows e apresentações ocorrem nas ruas, com a participação da maior estrela de todos os carnavais: o povo.















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Edson Wander
 

Caro Stellio,
Também louvo essa galhardia pernambucana em manter seu carnval aberto ao povo, mas com relação ao frevo em especial, o carro-chefe musical dessa tradição pernambucana, há um problema que você não aborda, que é a falta de renovação de craidores de frevo. Nas várias vezes que visitei Olinda e Recife na época do carnaval é visível que, em que pese a renovação mangue bit, não há a renovação de compositores típicos do frevo. Numa conversa recente com Alceu Valença ele abordou esse assunto também. Ou seja, todo carnaval em Pernambucano tocam-se os mesmos frevos de 100 anos atrás. Há um descompasso entre manutenção e renovação da folia por aí não acha ? Ou esses criadores já existem e são renegados ? Que pása ?
Mas no mais, seu texto faz mesmo um retrato fiel da diferenciação carnavalesca que Pernambuco tem no país.
Abraços,
Edson Wander, de Goiás

Edson Wander · Goiânia, GO 18/5/2006 08:59
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