A história da Dança brasileira foi modificada pelo Grupo Corpo e pela ousadia coreógrafica proposta por Débora Colker e sua companhia e não há argumentos que possam provar o contrário. Mas e a nossa Bahia, como é que vai?
Vejamos: Em 1975 nasce um dos principais representantes da Dança Contemporânea no Brasil, o Corpo. Nascido em Belo Horizonte, com o coreógrafo Paulo Pederneiras, o Grupo Corpo cresce e se torna a companhia mais bela e mais bem respeitada do país. O Grupo impressionou brasileiros e estrangeiros pela sua peculiaridade, caracterizado, por exemplo, por carregar a identidade do Brasil em suas danças, que retrataram desde o xaxado ao balé clássico. De lá pra cá , Belo Horizonte é só orgulho quando o assunto é dança.
Mais ou menos entre 2000 e 2002 a crítica fervia ao redor das "maluquices" de uma loura espevitada que achava que qualquer movimento era dança. Seus bailarinos escalavam paredes, pulavam freneticamente entre vasos, equilibravam-se em estruturas móveis e desafiavam o limite da gravidade. Débora Colker, uma coreógrafa carioca, hoje bastante respeitada (pela crítica também, diga-se de passagem) recebeu primeiramente o prestígio dos nossos colegas estrangeiros, para só depois ouvir elogios e aplausos no seu país.
No ano passado, foi considerada pela Revista Época como um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009, ganhando finalmente o reconhecimento nacional, que desembocou numa abordagem midiática interessante sobre a sua carreira. Creio que o Rio de Janeiro nunca esteve tão satisfeito desde a descoberta do trabalho da Débora Colker no quetange também ao termo Dança. Com tanta experiência, influência e glamour que é derramado por Colker sobre o mundo inteiro, o Rio tem mais o que comemorar.
A história da Dança brasileira foi modificada pelo Grupo Corpo e pela ousadia coreógrafica proposta por Débora Colker e sua companhia, e não há argumentos que possam provar o contrário. Veterano, o Corpo conta hoje com mais de 30 anos de história, na qual já revelou grandes nomes como Cristina Castilho e inspirou milhões de platéias com os mais variados espetáculos, todos de uma beleza inenarrável. Colker anda pelo mesmo trilho. Com menos de 10 anos de história, a Companhia Débora Colker se consagrou mundo afora e também aqui dentro no seu território, cativando milhares de pessoas com uma proposta diferente de dançar . A "diretora do movimento, Débora Colker juntamente com o Grupo Corpo são a prova de que Belo Horizonte tem mais que tesouros guardados, e de que "o Rio de Janeiro continua lindo". São motivos reais de orgulho diário, pelo talento e pela arte calcado num trabalho contínuo, duradouro.
Mas e a nossa Bahia como é que vai?
Dentre muitos anos de primor do BTCA - Balé do Teatro Castro Alves, destaco o ano vigente. O último trabalho que assisti me ofereceu uma reação incomum. Fiquei "surpresa-estupefacta-orgulhosa", se é que tem como definir a sensação que senti, com o espetáculo 1POR1PRAUM. Simplesmente lindo, complexo e ousado. O espetáculo, que estreou em 28 de março deste ano, "passeou" por vários bairros da cidade de Salvador, bairros afastados do Centro, ou seja, na periferia, como Plataforma, Pirajá, Periperi, entre outros, e também em alguns interiores baianos.
1POR1PRAUM sugere um confessionário, através de diversas cabines individuais (20 cabines, para ser mais exata), onde os bailarinos recebem o espectador, assim como o padre na hora da confissão, sozinhos, um por vez, para se deliciar com a coreografia, com um trabalho coreográfico de tirar o fôlego e de sufocar, de fazer chorar e rir, de levantar questões, dúvidas e até medo. Não tenho como falar de fato, o que todos espectadores sentiram, porque cada um assistiu o espetáculo do seu jeito, ao seu tempo, no seu momento, um por vez. Defino tudo que vi, como 20 encontros únicos, perfeitos e perturbadores, encontros silenciosos entre bailarinos e espectador, onde segredos foram revelados e concomitantemente enterrados para sempre.
Assistindo 1POR1PRAUM, coreografado por Jorge Vermelho, eu pude me orgulhar da nossa dança da Bahia, e estufar o peito para dizer, com orgulho, (para o eixo Rio - São Paulo, principalmente)que temos, a Bahia, uma companhia que nos representa muito bem. Com qualidade artística inquestionável, com criatividade e bastante inovação. Com 1POR1PRAUM tive a certeza de que, o BTCA é o reflexo do talento baiano, é a prova de que temos muito a comemorar, é a provocação a quem quer que seja, é a amostra de que a Bahia pode fazer muito, e se me permitem, fazer perfeitamente. "Pra ninguém botar defeito".
Raiara Azevedo
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