Fábio Neves fala sobre o trabalho do Pinho Brasil

Divulgação
Fábio Neves (Pinho Brasil)/Divulgação
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Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ
22/6/2010 · 27 · 2
 

Pinho Brasil é um duo formado em 2008 pelos músicos Fábio Neves (violão 8 cordas/viola caipira) e Márcio Valongo (bateria). Seu trabalho caracteriza-se por uma nova proposta musical: aproximar o público da harmonia e dos diferentes ritmos que caracterizam a cultura brasileira. Para isso, o Pinho Brasil pesquisa autores clássicos e contemporâneos e constrói um repertório marcado pela qualidade e diversidade.

No próximo dia 02 de julho o Pinho Brasil irá se apresentar no Centro de Referência da Música Carioca, no bairro Tijuca, no Rio de Janeiro. Aproveitei esta oportunidade para fazer uma breve entrevista com Fábio Neves e conhecer um pouco mais o seu processo de trabalho.

Alê Barreto: Como você chegou até o Pinho Brasil? Fale um pouco de sua trajetória como músico.

Fábio Neves: Comecei na música em 1997. Queria tocar guitarra, mas tinha aulas de violão em um conservatório de Niterói (RJ). Quando completei um ano de violão, desisti da guitarra, pois estava maravilhado com a descoberta do novo instrumento que trazia um novo repertório de possibilidades para mim.

Partindo daí, ingressei na Escola de Música da UFRJ (curso superior) em 2002. Esse foi um passo importante para consolidar a minha carreira. Na faculdade participava de diferentes grupos e formações, dentre os quais posso citar o Trio Cordas Cariocas, o grupo Choro Carioca, o Grupo Mucama e o conjunto Violões da UFRJ.

É interessante ressaltar que nesse período comecei a trabalhar com o violão de 8 cordas, tentando recriar um olhar de instrumento acompanhador para um instrumento solista.

Tanto a faculdade quanto os grupos me possibilitaram bastante vivência musical. Devo muito do trabalho que faço com o Pinho Brasil, a essas experiências.

Já em 2007, prestes a concluir minha graduação, sentia que faltava reunir a minha bagagem acumulada e iniciar um trabalho que possuísse uma identidade bem definida e que, apesar da música ser uma linguagem universal, necessitava, também, aprender a me comunicar com outros nichos profissionais.

Foi nesse ano que adquiri uma viola caipira e, em 2008, convidei o Márcio para o desafio!


Alê Barreto: Fábio, qual é a relação existente entre o nome “Pinho Brasil” e os conceitos artísticos que orientam seu trabalho?

Fábio Neves: Bem, o violão era chamado "Pinho" pela malandragem carioca, no tempo que tocar violão era grande motivo de complicação com a polícia... por volta do início do século passado. Isso se deve porque o pinho é uma das madeiras usadas na construção do instrumento.

Tem uma música do Martinho da Vila que fala do Pinho (violão), mas não me recordo o nome.

Já o "Brasil" remete ao nacional. Minha proposta, desde a época da faculdade, foi trabalhar em prol da nossa música, que é riquíssima.


Alê Barreto: Muitos artistas se propõem a apresentar a diversidade da música brasileira. Como o Pinho Brasil faz isso?

Fábio Neves: Nada mais adequado, uma vez que "Brasil" simboliza a multiplicidade de expressões, do que adotar a viola caipira para complementar o trabalho do violão. A ideia é recriar na música os contrastes urbano (violão) e rural (viola caipira).

A entrada da bateria do Márcio nesse caldeirão vem para preencher a essência rítmica da cultura brasileira. Todas as nossas expressões culturais populares tem um alicerce rítmico, percussivo.

A valorização dos ritmos nacionais é encontrada, inclusive, nas músicas dos grandes compositores eruditos, como Heitor Villa-Lobos, Radamés Gnattali e César Guerra-Peixe.


Alê Barreto: Há muita polêmica quanto a ação de “resgatar” as manifestações da cultura popular. Muitos antropólogos acreditam que não é necessário “resgatar” a cultura, pois ela possui uma dinâmica própria de mudança. Como o trabalho do Pinho Brasil se insere neste contexto?

Fábio Neves: O Pinho Brasil se posiciona como um divulgador das manifestações nacionais, sempre partindo de um olhar original, no qual nos permitimos "temperar" um poquinho os arranjos musicais que elaboramos.

Para complementar, o Pinho compreende a vida própria das manifestações culturais. A exemplo do Funk Carioca, nossa cultura é tolerante à diversidade, o brasileiro absorve com facilidade o novo e recria em cima dele.

Mas também acho que temos muita riqueza perdida, que corre o risco de cair no esquecimento, tal como as manifestações indígenas e de comunidades locais que tem dificuldade em renovar seus mestres populares e dar sustentabilidade à sua cultura.

Temos que ter atenção para isso.


Alê Barreto: No Brasil ainda é pequeno o incentivo ao trabalho de formação de platéia, principalmente para música instrumental. O Pinho Brasil se preocupa com isso?

Fábio Neves: Com certeza. Essa atenção se reflete desde o repertório que selecionamos até os projetos que idealizamos.

Um bom exemplo é a última apresentação que fizemos, que foi para um público de 650 estudantes universitários na UFRJ.

Procuramos também dar oportunidade a diferentes nichos sociais.


Alê Barreto: No mês de julho o Pinho Brasil irá se apresentar no Centro de Referência da Música Carioca. Esse é um show que você está à frente da produção executiva e que conta com a minha assessoria em algumas atividades de comunicação. Como é ser músico e trabalhar a produção juntamente com um produtor? Dá para conciliar as duas atividades?

Fábio Neves: Dá sim. Acho fundamental o envolvimento do músico nas questões "além música".

Precisamos participar da produção do espetáculo e saber dialogar com os diferentes atores envolvidos.

No Centro de Referência, por exemplo, existe toda uma equipe formada por componentes do espaço cultural e do Pinho Brasil, que trabalha em prol do espetáculo. É um fator culminante para a boa realização de todas as atividades de produção e para um melhor resultado para os músicos, espaço cultural e o público.

Alê Barreto: Finalizando, que dicas você considera interessantes para músicos que estão pensando em começar um trabalho de música instrumental no Brasil?

Fábio Neves: Considero duas coisas especialmente importantes: trabalhar a identidade do grupo, tanto no repertório quanto no projeto; e aprender a se comunicar com os diferentes profissionais envolvidos na produção dos eventos.

Escute a música Mulher Rendeira, de autoria de Zé do Norte e arranjo do violonista Marco Pereira, sendo executada pelo Pinho Brasil no programa Música e Músicos do Brasil, na rádio MEC, disponível para download gratuito no Banco de Cultura do site Overmundo.

Pinho Brasil toca dia 02 de julho no Centro de Referência da Música Carioca. Veja mais informações na agenda do Overmundo.

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Cintia Thome
 

Ei Alê. Bela entrevista e ótimo lance desse exímio artista!!!!
Felicidade sempre!

Cintia Thome · São Paulo, SP 25/6/2010 20:13
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Alê Barreto
 

Oi Cíntia!
Muito obrigado. Suas palavras são sempre um importante aprendizado e incentivo para mim avançar.
Um beijo e muitas felicidades!
Alê

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 3/7/2010 12:15
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