Festa da Farinha - Reduto Nordestino em MS

Laryssa Caetano
Fantasiados animam a festa
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Revista Poranduba · Campo Grande, MS
8/8/2011 · 9 · 0
 

De longe já se escuta o triângulo vibrar e a multidão se aproximar da música, inegavelmente nordestina. Repentistas no palco, buchada de bode nas barracas, sandálias de couro penduradas no varal – bem do lado da literatura de cordel. Rostos fortes, sotaques da terra, da enxada, da farinha. Rendas e uma infinidade de receitas de mandioca fazem da Festa da Farinha de Anastácio um reduto para nordestinos despatriados há gerações e que encontram ali não apenas sotaques e comida, mas um jeito todo diferente de levar a vida.

“Sempre trabalhei duro, nordestino é assim, não tem preguiça não†resume Aristeu dos Santos, um dos inúmeros produtores de farinha na região. O homem ainda torra a farinha da maneira antiga, em fornos de barro com um tacho côncavo de metal que também serve de frigideira para as tapiocas. Farinha que sustenta ele e os associados da cooperativa, muitos que, como ele também fazem parte dos 56% da população local descendente de nordestinos. No total, são cerca de 700 kg de farinha produzidos por semana no município.

Natural do Sergipe, Aristeu se mudou ainda criança para o Estado, em 1952, quando os pais se aventuraram a descer o país em busca de melhores condições de vida. “Tinha uma camarada lá que trazia o povo pra cá no caminhão, aqui tinha terra boa e chuva, trabalho não ia faltarâ€, relembra. E não faltou. Foram levas migratórias do nordeste para o resto do Brasil, mas enquanto os que iam para as grandes cidades – como São Paulo – sonhavam enriquecer, os que partiam para o mato sonhavam apenas com uma terra fértil, diferente da caatinga árida que tinham na antiga casa.

Dizem que foi um sobrevivene da Guerra do Paraguai que, ao voltar para o Nordeste, fez a fama de Mato Grosso do Sul. O estado atraiu um contingente fugitivo das secas para a cidade de Anastácio. É o que afirma o presidente do Centro de Tradição Nordestina – CTN e secretário municipal de Cultura, José Edson dos Santos. “Essa área era conhecida como combate. Um dos militares que atuaram aqui foi José Gomes. Depois da guerra, ele voltou para o Nordeste e começou a falar desse lugarâ€, reforça.

A migração nordestina no Estado se intensificou a partir de 1890 e permaneceu contínua até a década de 1930, impulsionada posteriormente pela Marcha para o Oeste de Getúlio Vargas.

Ao lado de Aquidauna, às bordas do Pantanal, Anastácio ficava escondida frente a vizinha famosa. Como as cidades irmãs se separam somente por uma ponte, a mais tímida era conhecida por “Aquidauana mais esquerda†para a tristeza dos moradores. Para reforçar as características identitárias, e aproveitando o expressivo número de 56% dos habitantes descendentes de nordestinos, nada mais justo que celebrar a cultura que se dilui aos costumes locais a cada geração.

O festival mudou a imagem de Anastácio. O evento, que contabiliza seis edições, atraem cada vez mais gente. Na última, mal dava para andar. Já passavam das onze horas quando o show de Zé Ramalho foi anunciado, levando a multidão ao frenesi. Enquanto duplas apresentavam disputas rimadas com viola e violão, as primeiras notas de Asa Branca eram suficientes para fazer ecoar os aplausos de todos os lados.

A festa parece fazer despertar o sentimento de regionalismo nos nordestinos presentes. Para Elzenete Cavalcante, o festival “não deixa morrer a cultura desse povoâ€. O maranhense radicado em Campo Grande, Juvenal Ribeiro vai todos os anos à festa. “Eu junto a família e ponho o pé na estrada para lembrar um pouco da minha terraâ€, relembra. Com chapéu típico, Juvenal repassa parte das tradições para a filha. A esposa é paraibana, e todos participam de encontros da cultura nordestina.

O festival passaria despercebido por um visitante desatento, pois com tantas caras e sabores da terra da farinha, mal se assemelha com a cultura paraguaia-pantaneira-indígena de Mato Grosso do Sul. Mas não engana: no sotaque de interior misturado ao forró e à pinga, também se escuta sem timidez o sertanejo ecoando ao fundo na festa.

Como não é só de cultura e saudosismo que se vive, o Festival aproveita para movimentar a economia local com a vinda dos turistas. Difícil tarefa é encontrar vaga em ônibus rumo à cidade. Mais difícil ainda encontrar vaga no estacionamento que se estende por quarteirões. E a folia não para. Há quem se fantasie de jegue e saia galopando festa adentro. Outros, como Julia dos Santos Cabreira, aproveitam a festa para gerar renda. Cozinheira de primeira, ela descobriu na farinha de mandioca uma ideia para muitas receitas: coxinhas, curau, tapioca, pastel e até mesmo bombom e brigadeiro. Tudo de mandioca.

Autora: Laryssa Caetano
Publicado em www.revistaporanduba.com.br

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