“Gracias, Cholo”

arte: Tiago Carvalho
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Tiago Carvalho · Rio de Janeiro, RJ
19/5/2006 · 126 · 1
 

A estréia do argentino Diego Simeone como técnico de futebol pode servir de lição a seus colegas brasileiros

Um drama daqueles que não se vê há muito tempo nos estádios brasileiros movimentou o final da Clausura – o segundo dos dois torneios nacionais de futebol da temporada Argentina. Enquanto por aqui o Brasileirão começa sem surpresas e extremamente equilibrado, nossos vizinhos tiveram a sorte de assistir a um daqueles acontecimentos que o torcedor dedicado não esquece jamais.

Em um campeonato por pontos corridos conquistado por antecipação por um Boca Juniors sem brilho, as emoções fortes ficaram por conta da luta do tradicional Racing Club de Avellaneda contra o rebaixamento. Em demonstração de amor à camisa rara no futebol de hoje, o veterano Diego Simeone comandou uma recuperação espetacular da equipe.

Falência, crise e ameaça de rebaixamento

Ao cabo de 15 anos no futebol europeu, Simeone voltou à terra natal em 2005 para encerrar sua carreira defendendo pela primeira vez as cores do Racing, seu time do coração. À altura da sexta rodada, essa parecia ter sido uma decisão das mais equivocadas. Ameaçada pelo rebaixamento, a equipe de Avellaneda tinha apenas um ponto na tabela e amargava a crise mais grave desde a declaração de falência do clube em 1999. Há sete anos atrás, o Racing quebrou e esteve por um triz do leilão de sua sede social. Uma iniciativa dos torcedores ajudou a sanear as finanças e tirar a sede do prego.

A conquista da Apertura em 2001 não foi suficiente para afastar de uma vez por todas a maré ruim. Sem dinheiro e mal administrado, o clube adotou uma política austera de poucas contratações e diminuição dos salários – que, ainda assim, continuam sistematicamente atrasados. Essas novas diretrizes conduziram a equipe aos maus resultados que derrubaram o técnico Teté Quiroz na quinta rodada. Foi então que os planos de uma aposentadoria tranqüila de Diego “El Cholo” Simeone foram por água abaixo. Mesmo hostilizado pela torcida e sem receber em dia, o truculento volante aceitou o convite da diretoria e pendurou as chuteiras antes da hora para assumir temporariamente o posto de técnico da equipe.

“El amor no sabe de gerenciamentos”

Apesar dos tropeços nos primeiros jogos, o técnico de primeira viagem conseguiu imprimir ritmo à equipe, que emplacou uma série de quatro vitórias e um empate nos últimos cinco jogos. A torcida, entusiasmada, passou a comparecer em massa aos estádios e os jogadores passaram dedicar verdadeira devoção ao Cholo. Cada gol era comemorado pelos jogadores com abraços no ex-companheiro de cancha e nos integrantes de sua comissão técnica.

Nas últimas rodadas, já livre da ameaça do rebaixamento e idolatrado pela torcida da “Academia” – apelido carinhoso do clube de Avellaneda – Simeone manifestou em entrevistas à imprensa argentina o desejo de continuar no comando do Racing. Mas não foi atendido pelos gerentes da empresa que desde 1999 é responsável pela gestão do clube, a Blanquiceleste S.A.. Carlos “Mostaza” Merlo, que levou a equipe ao título nacional em 2001, foi contratado para ocupar seu cargo no segundo semestre de 2006. “É injusto que eu não possa seguir treinando o Racing. Pretendo voltar em breve”, disse ao recusar um cargo de assessor que a direção lhe ofereceu em desagravo à contratação de Merlo.

A despedida de Simeone aconteceria, portanto, no último jogo da Clausura, contra o Newell’s Old Boys. A equipe azul e branca encontrou o estádio coberto de faixas de apoio ao treinador. Uma delas sintetizava a situação com perfeição. Agradecia ao treinador e mandava um recado aos dirigentes: “Gacias, Cholo. El amor no sabe de gerenciamentos”. A torcida homenageou Simeone durante os 90 minutos. Quando o canto de “Oleolê, Oleolá, El Cholo es de Racing, es de Racing de verdad” tomou o Cilindro - alçapão do Racing em Avellaneda - o volante que jogava com a faca entre os dentes olhou para o céu e chorou copiosamente à beira do gramado. "Tenho orgulho de ter jogado, treinado e livrado do rebaixamento o clube do qual sou torcedor", disse, emocionado, ao fim da partida.

Em meio à comoção, o zagueiro Cláudio Ubeda, jogador mais experiente do plantel, fez um diagnóstico preciso do problema. “Espero que em algum momento possamos conseguir alguma estabilidade na permanência de um técnico e na estrutura da equipe para que o trabalho de todos possa dar frutos, mas, para isso, é fundamental ter paciência e tempo”, protestou.

Incompetência e personalismo

A breve relação de Simeone com seu clube é de um gênero que vem desaparecendo rapidamente no Brasil. Ela pertence a um outro tempo. Ao passado. A aposentadoria de Carlinhos, o mitológico comandante rubro-negro, a morte de Telê Santana e a fragilidade física de Zagallo são sinais dramáticos desse processo. São personagens que encarnam o amor à camisa e o gosto pelo bom futebol. E são, cada um à sua moda, paradigmas da discrição que a função pede.

Nada que se pareça com os Napoleões de opereta encastelados na maioria dos clubes brasileiros, dos mais inexpressivos aos mais tradicionais. Qualquer uma das declarações de Wanderley Luxemburgo, a truculência do incensado Geninho e o comportamento pouco ético de Paulo César Gusmão em sua recente saída do Botafogo atestam a decadência da maneira inteligente de pensar o futebol. Os técnicos brasileiros têm assumido uma postura cada vez mais personalista que é sistematicamente alimentada pelos clubes e pela imprensa esportiva. A incompetência à beira do gramado se transforma em empáfia nas mesas redondas, onde não são jamais confrontados por jornalistas e apresentadores, e em salários milionários em clubes cada vez mais mal administrados.




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Viktor Chagas
 

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Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 18/5/2006 16:46
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