Histórias, cantigas e encantos do “Diário de Naná”

Divulgação
Naná em conversa com Mãe Gaiaku Luiza
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Ceiça Ferreira · Goiânia, GO
5/3/2012 · 0 · 0
 

Esse documentário de Paschoal Samora é um dos destaques da “Semira Mostra Mulheres no cinema”, que será realizada de 05 a 10 de março no Cine Ouro, em Goiânia, e apresenta uma programação com curtas e longas metragens nacionais e estrangeiros, que retratam mulheres que estiveram e estão à frente de seu tempo.


Ceiça Ferreira *

Gaiaku Luiza, Virgínia Rodrigues, Edith do Prato, Dalva do Samba, Mãe Filhinha. Essas mulheres, com suas vozes, histórias de vida, ensinamentos e experiências guiam a viagem do percussionista pernambucano, Naná Vasconcelos pelo recôncavo baiano, proposta do documentário “Diário de Naná”, que dirigido pelo cineasta Paschoal Samora acompanha essa busca da música do sagrado e do sagrado da música.

No começo do filme, com os meninos e meninas do projeto Bagunçaço, numa oficina com instrumentos confeccionados a partir de materiais reciclados, Naná afirma “o primeiro instrumento é a voz, e o melhor é o corpo”. É com o corpo que ele faz som com o caxixi, ouve e capta as sonoridades das ondas do mar, da feira, do trem, e principalmente, ouve histórias de outros corpos, que compartilham a palavra e toda a afetividade que ela carrega.

Nessa viagem, o filme vai mostrando as descobertas e encontros de Naná. Com o poeta baiano Antonio Vieira e o cordel “o resgate do berimbau”, do qual emerge a figura de Besouro Mangangá (nascido em Santo Amaro, foi um dos maiores capoeiristas da Bahia, herói admirado por sua valentia e citado em inúmeras canções nas rodas de capoeira), o qual Naná reverencia com o berimbau, e afirma: “Um dia Besouro voltará”. Essa belíssima sequência me fez lembrar uma afirmação do professor Muniz Sodré sobre a capoeira, que diz “o ritmo do berimbau põe em jogo, integrados, corpo e alma do negro”.

O documentário também apresenta o encontro musical de Naná Vasconcelos com a cantora Virgínia Rodrigues, que imponente, canta para Ogum (orixá guerreiro, senhor do ferro e da metalurgia). Essa referência à religiosidade afro-brasileira, se junta às imagens de símbolos, elementos e objetos da feira de São Joaquim, onde Naná procura uma pavoa, presente que leva à Gaiaku Luiza, sacerdotisa do candomblé jeje, em Cachoeira.

Essa anciã que já havia aparecido cantando em sequências anteriores, agora conta um pouco de sua história de vida, a família-de-santo, os preconceitos enfrentados e as mudanças impostas à tradição; assim como Naná, também nos encantamos com a altivez e sabedoria de Gaiaku Luiza.

Acompanhamos Naná em armazéns à procura de um prato, não um qualquer, mas um que faça música. É um presente para Dona Edith do Prato, sambista de Santo Amaro, que ficou conhecida por fazer música com esse objeto doméstico. Com ela, Naná canta “o tombo do pau” e o “viola meu bem”, sambas tradicionais do recôncavo baiano.

Planos detalhe de uma outra mulher arrumando o pano na cabeça, e de suas mãos tocando um instrumento de madeira são o prelúdio do encontro de Naná Vasconcelos com Dalva do Samba. E eles literalmente caem no samba, dançam ao som de “Beiramar”, uma das diversas composições dessa sambista, que declara: “o samba é a vida, é aonde acaba todas as tristezas”.

De maneira irreverente, Dalva conta alguns aspectos de sua história. E até com o amargor do jiló e da vida ela consegue fazer samba. Revelando assim um importante valor de nossa identidade afro-brasileira, a ludicidade, que é a capacidade que homens e mulheres negras tem de, mesmos nas condições mais adversas, manter seu desejo e alegria de viver, sorrir, brincar, dançar.

Assim como o pé de jenipapo, que mesmo cortado, floresceu (segundo Dalva foi o samba que o trouxe de volta), também essas expressões culturais afro-brasileiras resistem, e se mantem vivas por que tem raízes, tem história, estão inseridas dentro dessa espiritualidade de matriz africana, que reconhece a sacralidade do corpo, que é vida, é documento, traz uma memória individual e coletiva, compartilhada pela palavra, pela música.

E é pedindo benção à Mãe Filhinha (outra sacerdotisa do candomblé), que Naná Vasconcelos parece ter chegado ao seu destino nessa viagem pelo recôncavo baiano. Guiado por vozes ancestrais, principalmente femininas ele desvela esse rico universo de poesia, ritmo e melodia, que constituem a musicalidade afro-brasileira.

Semira Mostra Mulheres no cinema
Esse documentário de Paschoal Samora é umas das produções, que juntamente com “Carolina”, de Jeferson De; “Alexandria”, Alejandro Amenabar; “Deusa de Ébano: Rainha do Ilê Aiyê”, de Carolina Moraes-Liu; “Filhas do Vento” e “Flor do Deserto”, de Sherry Hormann compõem a “Semira Mostra Mulheres no cinema”, iniciativa da Secretaria de Estado de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial (Semira), em parceria com a jornalista Ceiça Ferreira e o Cine Ouro.

Essa mostra integra a programação especial desta Secretaria para o Dia Internacional da Mulher, e será realizada de 05 a 10 de março, com sessões as 12h30, 15h e 19h (ingressos a R$1), no Cine Ouro (Rua 03, esquina com Rua 09, nº 1016, Galeria Ouro, Centro – Goiânia), e tem como objetivo exibir produções que retratem a condição feminina, e também criar um espaço de reflexão de temáticas e questões que constituem a realidade das mulheres, visto que serão realizados debates após as sessões das 19h.

A Semira reconhece a importância do cinema como significativo veículo de representações sociais e assim também como elemento de discussão sobre o lugar social da mulher, na História e na sociedade brasileira, e principalmente, sua força e a capacidade de resistência.
______
Notas e Referências:
SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. 3.ed.

*Ceiça Ferreira é jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade de Brasília, e desenvolve atividades com mídia, culturas negras e comunicação em movimentos sociais.

Programação completa


Serviço
Semira Mostra Mulheres no cinema
Data: 05 a 10 de março
Sessões: 12h30 / 15h / 19h
Ingressos: R$ 1
Local: Cine Ouro (Rua 03, esquina com Rua 09, nº 1016, Galeria Ouro, Centro – Goiânia)

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