IV Se Rasgum: A hora e a vez da diversidade

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Vladimir Cunha · Belém, PA
19/11/2009 · 11 · 1
 

Quando eu era criança e o Pinduca tocava no Festival do Sorvete da Praça Brasil, em Belém do Pará, a classe média da cidade não dava muita bola pra ele. Naquela época carimbó era cafona, coisa de pobre, de caipira. Trinta anos depois, Pinduca está sendo tietado por John e Fernanda Takai no backstage da quarta edição do festival Se Rasgum. E quando sobe ao palco e manda ver nos sucessos que lhe deram o título de O Rei do Carimbó, as cerca de duas mil pessoas presentes na segunda noite do festival dançam, fazem trenzinho e abrem rodas de pogo como se estivessem em um show dos Ramones.

O que é de se admirar em se tratando de um festival que, até dois anos atrás, carregava com orgulho o “Rock” no nome. “Se Rasgum no Rock”, assim mesmo, meio sectário, determinista e limitador, ainda não muito convencido do valor da diversidade musical da cena independente brasileira.

Difícil dizer o que mudou. Talvez tenha sido os roqueiros, pois Pinduca continua o mesmo. Do mesmo jeito que faz desde os anos 70, sobe ao palco como se fosse uma espécie de James Brown amazônico, escoltado por seguranças, com uma banda de 13 integrantes, seis dançarinos e um assistente que se encarrega de segurar a capa que lhe dá um ar de majestade. Em cerca de 45 minutos, toca os mesmos sucessos que todo mundo está careca de ouvir, mas que sempre funcionam: “Carimbó do Macaco”, “Sinhá Pureza” e “Esse Rio é Minha Rua”, entre tantos outros. Dança, faz elogios à Fernanda Takai (“Essa mulher bonita, cheirosa, talentosa”, repetiria ele diversas vezes durante o show) e coloca um garoto com uma camisa de David Bowie para dançar em cima do palco. Toca lambada, merengue e salsa. Termina o show com “Aquarela do Brasil” e sai do palco. No backstage, John e Fernanda já estão a postos para os devidos cumprimentos. A conexão com o Pato Fu se fecharia logo depois no show da banda mineira, que encerrou o
segundo dia do festival, com o casal improvisando no bis uma versão de “Sinhá Pureza”.

O namoro de Pinduca com o Pato Fu fez, para mim, todo o sentido. O que o IV Se Rasgum tinha de irrelevante – o pastiche indie rock de The Baudelaires, Dead Lover’s Twisted Hearts, Dharma Burns e Radiotape – pareceu ficar para trás quando o público passou a assimilar como música pop tudo o que o festival tinha a oferecer. É o que possibilitou que o mesmo metaleiro que vibrou com os riffs do Black Sabbath que a Comunidade Ninjitsu enfiava no meio das suas músicas dançasse a lambada eletrônica de DJ Dolores e Pio Lobato no projeto Música Magneta. Ou que colocasse no mesmo campo de possibilidades a MPB de vanguarda de Marku Ribas, com sua banda de veteranos cuja habilidade nos instrumentos fez cair o queixo da molecada, e as maluquices e chiliques de Tatá Aeroplano, o líder da banda Cérebro Eletrônico.

Não importa como, o negócio era fazer a informação circular com velocidade e intensidade. Seja entre o público, no palco ou nos bastidores do festival. B Negão com Ras Bernardo no Digital Dubs fechando a conexão Lapa/Caribe/Jamaica no palco secundário. B Negão no palco principal com a Comunidade Ninjitsu cantando “A Dança do Patinho”. Mano Changes, da Comunidade Ninjitsu, na platéia da banda Tecnoshow vibrando com “Galera da Laje” e “Red Label ou Ice”, os hits supremos das festas de aparelhagem de Belém do Pará. Gabi Amarantos, vocalista da Tecnoshow, colocando o funk de apartamento do Bonde do Rolê no bolso com o seu tecnobrega safado e nada romântico. John, do Pato Fu, decepcionado porque perdeu o show de Gabi. Pedro, Gorky, Laura e Ana, do Bonde do Rolê, suando a camisa, mostrando os peitos e arriando as calças para tentar superar, sem sucesso, o caos que a Tecnoshow instaurou no palco secundário. Esdras Neném, baterista de Marku Ribas, no backstage trocando idéia com Durk, baixista do Gork, prestando atenção em tudo, pilhado com as bandas mais novas e pesadas do festival. O uruguaio Paracetamol, vocalista do Hablan por La Espalda, tietando Jaime Katarro, da banda de hardcore Delinquentes. Jaime Katarro no palco secundário incitando o pogo e o mosh ao cantar uma versão thrash metal de “Pescador, Pescador”, um dos maiores sucessos de…Pinduca!

E o mais irônico é que a banda que deu origem a essa maluquice toda, que cruzou gêneros e fez o roqueiro perder a vergonha de ser brasileiro, pareça estar com o seu prazo de validade vencido. Só isso explica a apresentação arrastada e burocrática que Jorge Du Peixe e companhia fizeram no IV Se Rasgum. As músicas novas não empolgam e a banda soa repetitiva, com um vocalista sem carisma e pouco talento para criar melodias interessantes. Sobram os batuques (que dão no saco depois de uma hora e meia de show), duas ou três músicas mais pesadas e os sucessos compostos por Chico Science, que até animam os fãs mais xiitas da banda pernambucana. Mas a essa altura o jogo estava perdido e boa parte do público já tinha desistido de esperar algo mais da Nação Zumbi.

É engraçado ver que, ao mesmo tempo que os seus filhos e herdeiros descobrem e abraçam a diversidade, o grupo liderado por Du Peixe e Lúcio Maia se feche cada vez mais, reduzindo o seu som a uma fórmula meio caduca, como se eles próprios tivessem tirado a parabólica do mangue e esquecido as lições de Da Lama ao Caos e Afrocibederlia. O que era para ser um dos grandes momentos do festival tornou-se quase um constrangimento. Não que isso me desanime. A julgar pela disposição do público e das bandas, o legado da Nação e do mangue beat continua. Se não como música, pelo menos como conceito. No Se Rasgum, no Goiânia Noise, no Calango e nos outros 33 festivais que acontecem anualmente por todo o país. Vista assim, de perto e de dentro, a música independente brasileira nunca pareceu tão interessante.

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eduardo ferreira
 

grande wlad! em que pese o fim do pastiche indie de todos esses festivais, a coisa ainda está um pouco amarrada. no mastro amarrado como um ulisses cibernético tenho evitado o som das sereias que ainda tremulam seus cantos numa viagem repetitiva sem fim. não vi novidades no calango (pelo menos como música). saudações overmundanas.

encontrei bruno nogueira em cuiabá, o famoso overbaby. saúdo o daniel de pádua, duende de pádua, que preferiu voar mais cedo.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 21/11/2009 14:39
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