Latinidade Carioca - 150 anos de Ernesto Nazareth

Fernando Gasparini
Trio LiberTango resgata as raízes brasileiras do tango
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Fernando Gasparini · Rio de Janeiro, RJ
2/3/2013 · 0 · 0
 


Embora os números ainda não sejam precisos, há um consenso acerca do crescimento recente da imigração de latinos para o Brasil, principalmente para grandes centros, como o Rio de Janeiro. Em busca de novas possibilidades de vida e trabalho, os novos migrantes trazem consigo sua cultura, sua arte, sua música (veja-se a explosão de ritmos latinos nas academias de dança neste carnaval). Ao olharmos para história do nosso país, vemos que esse diálogo cultural existe há séculos e está expressa na obra de um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos: Ernesto Nazareth, cujos 150 anos de nascimento são celebrados agora em março.

A chegada de latinos em solo carioca tende a propiciar encontros musicais incríveis, como é o caso do Trio LiberTango, formado pela pianista argentina radicada no Brasil Estela Caldi e dois de seus filhos, ambos brasileiros: o saxofonista e flautista Alexandre Caldi e o acordeonista e pianista Marcelo Caldi. O grupo fará uma homenagem a Ernesto Nazareth, mostrando o lado portenho do compositor carioca, nos próximos dias 14 e 15 de março, às 18h30, na Sala Funarte Sidney Miller, centro da cidade (ingressos a R$ 20 e a R$ 10).

O tango e os ritmos latinos estão na gênese da nossa música brasileira. A obra de Nazareth testemunha o encontro entre brasileiros e hermanos no final do século XIX e início do século XX. Das mais de 200 peças de sua autoria, a maioria, 88, são tangos, os chamados “tangos brasileirosâ€, que hoje são considerados subgênero do choro, semelhante ao maxixe e à polca.

Habanera

Conforme Alexandre Caldi, a palavra “tango†foi utilizada durante uma época para definir gêneros bem distintos na Argentina e no Brasil, mas a justificativa para se usar um mesmo termo está nas suas origens em comum. Um exemplo dessa raiz é a habanera, um ritmo cubano que influenciou tanto portenhos quanto cariocas e inspirou Nazareth a compor “Plangenteâ€, que está no roteiro do show.

Outro destaque é o tango “9 de julhoâ€, homenagem à data de independência da Argentina (tendo sido composta no ano do centenário do acontecimento, em 1916). “É evidente que Nazareth tinha fortes ligações musicais com nosso país vizinho. Ele inclusive esteve algumas vezes em Buenos Airesâ€, conta Marcelo Caldi. “O LiberTango vem resgatar o ‘tango brasileiro’ de Nazareth mostrando o seu paralelo com o tango argentino e como gênero-chave na afirmação da nossa música brasileiraâ€, completa Alexandre.

O show traz ainda sucessos que ficaram conhecidos na voz de Carlos Gardel nos anos 1920 e 1930, como “Volver†e “Por una cabezaâ€, além dos clássicos de Piazzolla, como as quatro estações portenhas, “Siempre se vuelve a Buenos Aires†e “Libertangoâ€. O roteiro abre espaço ainda para as autorais “Estrelaâ€, homenagem à mãe feita por Alexandre, e “Léoâ€, composta por Marcelo para o irmão.



Tango em família


O Trio LiberTango mantém vivo o legado do argentino Astor Piazzolla em terras brasileiras há 17 anos e é a prova do profundo diálogo musical entre os dois maiores países da América do Sul. Baseado no Rio de Janeiro, o trio é formado pela pianista Estela Caldi e por dois de seus filhos, Alexandre Caldi (saxofones e flautas) e Marcelo Caldi (acordeom).

Possui três discos gravados: “LiberTango – a música de Astor Piazzolla†(Delira, 2005), “Cierra tus ojos y escucha†(Delira, 2007) e “Porteño†(Delira, 2010), sendo que o mais recente também abarca obras do tango tradicional de Carlos Gardel como “El Día que me Quieras†(parceria com Alfredo Le Pera e Juan Carlos Calderon), “Por una Cabeza†(com Alfredo Le Pera) e “Mano a Mano†(com José Razzano e Celedonio Flores).

“O LiberTango quer mostrar que Piazzolla toca fundo em uma imensa quantidade de pessoas, independentemente de suas nacionalidades, o que nos leva a refletir sobre o quanto esse estilo é universalâ€, resume Estela Caldi. A ideia é recriar o repertório do artista, com novos e ousados arranjos, assinados pelos dois irmãos, resguardando a essência musical do espírito portenho.

Para Alexandre, “há um respeito à tradição e ao mesmo tempo uma afirmação da nossa liberdade criativaâ€. Já Marcelo aponta que as raízes do tango e da música brasileira são basicamente as mesmas, “essa mistura de africano, índio e europeu que só tem aqui nas Américasâ€. O elo familiar demonstra que a musicalidade latino-americana, de fato, atravessa fronteiras.

O grupo abriu os horizontes em 2012 para um repertório mais autoral, com peças de Alexandre e Marcelo. A homenagem a Ernesto Nazareth, iniciada em 2013, vem por sua vez demonstrar que o leque do tango é muito mais abrangente do que se imagina e tem uma penetração determinante na formação da música brasileira.

Os amantes do tango no Brasil costumam lotar as apresentações do grupo. O sucesso mais recente foi na Sala Baden Powell, com a estreia do show em homenagem a Nazareth, em janeiro de 2013. Em 2012 o trio foi sucesso também no Centro Municipal de Referência da Música Carioca e se apresentou no Programa Sala de Concerto, com Lauro Gomes, na Rádio MEC.

O LiberTango bateu recorde de público no Teatro Carlos Gomes, em agosto de 2011, e foi casa cheia no Teatro da Academia Brasileira de Letras, em novembro do mesmo ano. Para 2013 o trio será a atração do Festival Internacional Tango Brasil, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

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