O SILÊNCIO É A ESCALA MUSICAL NO PULSAR E ...

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Heleninha de Oliveira · Dourados, MS
13/12/2013 · 0 · 0
 

O SILÊNCIO É A ESCALA MUSICAL NO PULSAR E QUIETUDE DAS VIDAS!


Posso sentir o pulsar da natureza, como se o meu pulsar fosse, sinto saudade de mim, pois sei que algum dia não mais serei... Grito um tom angustiado pela dor que há no útero materno..., a entranha de nossa Mãe Gaia sofre, já não é a mesma e o seu lamento irrompe-se-me das profundezas do desconhecido, sinto, além da matéria interestelar..., porém, vejo com profundo pesar que a vida do nosso planeta esteja fadada ao fim, caso não haja um despertar coletivo, em busca de uma fase nova para a sua sobrevivência.
Lembro-me de quando adolescente e sinto vontade de chorar: naqueles tempos idos era maravilhoso viver, época quase perfeita, visto que preservávamos o nosso habitat. Recordo-me, que se desmatava o mínimo necessário para construir uma moradia, para a plantação do sustento familiar e também dos animais. Período de uma vida simples e feliz; contentava-se-me-nos, com um bem estar entre familiares e famílias vizinhas, pois, não havia a ganância nem o desejo da vã riqueza à custa dos desmatamentos, morte de animais silvestres e dos mananciais de nossos rios: a caça e pesca era tão somente para a sobrevivência. Não havia a matança desenfreada dos dias atuais, fazendo com que várias especímenes fossem para a lista das possíveis extintas.
Ainda ouço o murmurar da correnteza das águas que coleavam por entre valas e que eram oriundas dos olhos-d’água que havia nos brejos e eu gostava de ver a água borbulhar em suas nascentes, visto que desde criança aprendi que deveríamos cuidar da natureza, iniciando com o replantar as castas que morreram, e, dessa feita, protegendo a vida natural e sua continuidade. E mais, ficou impregnado em meu olfato o cheiro da vida campesina: O odor inesquecível da ordenha e a espuma do leite natural mungido na hora; o sabor das frutas nativas: Guariroba, Macaúba, Araticum, Araçá, Jatobá, Pequi, Goiaba, Caraguatá, Jenipapo, Ingá, Mamica-de-cadela, Cajuzinho do campo, Pitanga-do-cerrado, Veludo-branco, Urucum, Jabuticaba e muitas outras. Impregnou-se em minhas narinas o perfume de algumas das plantas da terra onde cresci que exalavam como incenso evolando-se em dia chuvoso ou em noite serenada e plenilúnio, tais como: alecrim, arnica, arruda, bálsamo, boldo comum, boldo-do-chile, capim limão, erva-de-santa-maria, gengibre, guaco, hortelã-pimenta, hortelã, losna, menta, melão-de- são-caetano, macela, melissa, artemísia, mentrasto, moringa, poejo, quebra-pedra, sabugueiro, saião, anis-verde, erva-cidreira, tanchagem, e terramicina – “quando macerados”.
Não posso deixar de citar a beleza das nossas árvores, pois, algumas se destacam entre todas, exemplo: Figueira, Angico, Aroeira, Cedro, Ipês, Amendoim-do-campo, Capitão-do-campo, Jenipapo, Embaúba, Paineira, Pata-de-vaca, Cebolão, Aroeira-do-sertão, Acácia, Guatambu, Cinamomo, Caneleira e Gameleira. Vejam bem, quase todas as categorias aqui listadas estão desaparecendo, tenho observado que até mesmo as matas ciliares estão a cada dia ficando menor, fato muito triste e deprimente. No entanto, mais uma vez terei de me reportar à adolescência e a minha vida...
Visualizo o passado e a minha vontade é de subir na Chaminé da Usina Velha, como forma de protesto, para pedir a atenção do nosso povo, e quem sabe trazer à tona algumas lembranças, de alguém, visto que: Por entre valas que existiam na Usina Senador Filinto Müller, escorria abundante, pura e transparente, a deslizar-se das nascentes das minas que havia e ainda há próximas da cognominada Usina Velha: Hidromineral que gotejava vida fecunda, serpeando-se através das bicas de bambu, saciando a sede dos viandantes como lágrimas de infinito amor..., sem cor e fragrância..., um definido sabor; água benta, curativa, cristalina, sólida ou líquida tem o poder de limpar o caótico do mundo, dissolvendo a química. Sem formas, brota da argila que sustem a mata ciliar do Córrego Laranja Doce: Que pede socorro!
Em forma de chuva apaga o fogo; abranda o calor, umedece a terra árida, logo, arrefecendo o ar poluído; alastra-se no subsolo, correndo sempre nos veios e rios. Misteriosamente, como se mágica fosse, evapora, condensa-se e dilui-se..., voltando a completar seu circulo no mear das vidas, que nascem e renascem das cinzas..., dos arquétipos.
Acredito que para salvar as Minas não bastará eu bater no peito, e dizer, ESTOU INSATISFEITA!... Polemizar, também não resolverá; ser contraditória, menos ainda!
Bastará ser ou dizer-se lírica? Poetisa dos Sonhos ou Guardiã da Usina Velha? Nada, nada, nada terá valor ou significado, se o PODER PÚBLICO não olhar e sentir com visão futurista, e dessa feita, desapropriar as terras das margens da nossa histórica RUÍNA, que entre: Ingás, Sangas d’Água, Tarumãs, Couros brancos, Mosquetei-ros, Mamicas de cadela, Leiteiros, Guajuviras, Araçás, Goiabeiras, Bambus, Paineras, Amoreiras, Salvias, e mais, uma variedade de pássaros e animais silvestres, tais como: cotias, emas, gansos-selvagens, garças, quero-queros, João de barro, pombas, rolinhas, gambás, macacos, preás, inhambus, veados, perdizes e até um solitário urutau, que faziam e alguns ainda fazem do local, o seu habitat. No hoje, ainda, podemos olhar da beira das valas com suas águas cristalinas, originadas das minas que pertenciam a Usina Velha, os peixinhos “lambaris”.
Resta ainda a reminiscências de poder contemplar os “patos e gansos silváticos”, as maitacas, as pombas, garças-brancas e até um Urutau, ave de costume diferenciado que muito me encantou. Imaginem..., todas essas maravi-lhas já habitaram as matas e margens do Córrego Laranja Doce, portanto, ornamentaram o nosso marco histórico que se encontra quase no chão e na espera de sua revitalização. Qual será o ALCAIDE que fará tal proeza? Nosso ecossistema está suplicante!
O açoite pelo tempo natural, não pára: açoita, açoita, e então: O sereno em forma de lágrimas escorre pela face da estátua e o brilho do luar penetra na alma da pedra...
Meu âmago grita em forma de prece, dia e noite: o que isto significa? É que “tudo” o que tens que fazer é ouvir a quietude e magnitude da Terra que é de todos, e em quase tudo nos sustém, e que, silenciosa chora o descaso pela sua conservação e o que nela existe...
A voz suplicante do meu coração, para o seu (do poder público), se agiganta agora e diz: Eu sempre falo consigo através de suplicas ao Deus do meu coração para que retire os véus que deixam a visão e a mente torpe. Digo: Faça a sua mente fértil, por um tempo e deixe o fluído de amor às vidas manifestar-se em si, como se estivesse ouvindo coros de anjos e num estado de sublime graça, ouves meus sussurros suplicantes como se Harpas e Violinos executassem melodias celestiais, e assim, roçagar a alma: Consegues ouvir meu amor fraterno falando consigo agora? Você ai do Poder Público da nossa cidade Modelo que é um lugar bom de viver, desperte-se, e escute a melodia do silêncio através de flautas, harpas e violinos que me elevam ao Supremo e Grande Arquiteto do Universo, numa indefinida força..., pois, neste Planeta há mais encantos e mistérios do que podemos imaginar, basta sentir a energia e o pulsar que brota ao som da germinação, o som das VIDAS a serem preservadas: Indefinida é a espera pela REVITALIZAÇÃO e PRESERVAÇÃO.
Sinto medo de que a nossa Ruína seja exterminada para a construção de um moderno condomínio. Tenho percebido, através das mudanças climáticas, que são provocadas por fenômenos naturais ou por ações dos seres humanos, que estamos a um passo da nossa própria extinção, nos aproximamos de um ponto que não teremos mais volta, visto que o ambiente equilibrado é necessário e é resultado das atitudes diretas do ser humano, e então pergunto, onde há o reconhecimento de que é necessária uma profunda mudança de percepção e de pensamento para garantir nossa sobrevivência: Onde está essa consciência, esse entendimento tão fundamental? Acredito que a maioria dos humanos, ainda, não atingiu esse nível consciêncial tão essencial para o nosso amanhã, se é que haverá amanhã. Fico imensamente entristecida com a presente situação, vejo, com pesar que e a maioria dos lideres das nossas corporações, os administradores e até mesmo, alguns, dos professores das nossas grandes universidades, também não alçaram o grande vôo. Nossos líderes não só deixam de reconhecer que os diferentes problemas estão inter-relacionados, como também se recusam a reconhecer as ditas chamadas, soluções: que ainda não houve, e que afetam as gerações futuras. A partir de um ponto de vista sistêmico, as únicas soluções viáveis, são as soluções “sustentáveis”. O conceito de sustentabilidade adquiriu importância-chave no movimento ecológico e ambientalista e é realmente a chave mestra para tal situação, assim penso eu; contudo, há uma coisa que podemos fazer, e isto não passa de um exemplo: é comer menos carne de boi ou deixar de comer “carnes”, eu já não como carne vermelha, e você? Agindo de tal modo, e se os médicos estiverem certos, você poderá estar fazendo um bem a si próprio; ao mesmo tempo, poderá estar reduzindo as pressões sobre as florestas em geral. Por quê? Oras, dessa feita não ocorrerá tantos desmatamentos, para o plantio de pastagem animal..., soja, cana-de-açúcar, ou...
Ser egoísta é humano e natural? Ao se manifestar como egoísta ou se imaginar no caminho correto, então, a vida pode ser rica e ainda assim consistente com um mundo adequado para os nossos netos, bem como para os netos de nossos parceiros em Géia, numa sucessão e modificação dos valores salvatórios dos mundos: vegetal, animal e humano em cada germinação ou gestação.
“Este, em resumo, é o grande desafio do nosso tempo: criar comunidades sustentáveis isto é, ambientes sociais e culturais onde poderemos satisfazer as nossas necessidades e aspirações sem diminuir as chances das gerações futuras”.


Heleninha de Oliveira
Membro da Academia Douradense de Letras
Cadeira nº 09 – Patrono: Camilo Ermelindo da Silva
Dourados-MS; 09 de setembro de 2011

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