“Occupy Benedito Calixto”

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Gabriel Fabri · São Paulo, SP
15/12/2012 · 1 · 0
 

Por Gabriel Fabri

Segunda à tarde, a Praça Benedito Calixto, famosa por sua feira de antiguidades aos sábados, estaria vazia. Mas na semana do Preliminares, cartazes como “o começo está chegando”, “inteligência coletiva / espaço público” e “tecnologia de ocupação de espaço público” estavam espalhados, e um grupo de jovens estava lá para ouvir mais sobre aquilo o que estavam fazendo: tornando a cidade mais viva, ao ocupá-la.

Carol Tarrior, do Movimento Boa Praça (www.boapraca.ning.com), começou contando sua experiência – em três praças da Zona Oeste de São Paulo, ela realiza piqueniques com atividades, periodicamente, todo último domingo do mês. Contou que o movimento surgiu a partir de uma criança de quatro anos que queria fazer sua festa de aniversário numa praça. Mas será que pode? A mãe da criança tentou, articulando com as pessoas do entorno, os vizinhos, uma academia, e até a subprefeitura responsável. A festa aconteceu e, ao invés de a menina ganhar presentes, foi combinado que a Praça que os ganharia – assim, a academia trouxe uma cama elástica, pessoas promoveram oficinas e a subprefeitura cuidou da manutenção. Entretanto, essa articulação não poderia se limitar a apenas uma data. Assim, o movimento foi criado. Para Tarrior, a parte mais difícil foi mobilizar as pessoas para aderirem à causa e começarem a frequentar a praça, pelo menos nos dias de atividades. Funcionou e numa das praças, a Paulo Schiesari (localizada na Vila Anglo Brasileira), elas conseguiram promover até uma reforma. Com mais gente ocupando os lugares públicos, Carol se sente “muito mais segura do que jamais senti”, pois, para ela, “o que dá mais segurança é ter a porta aberta, olhar para os outros não como inimigos e sim como vizinhos”.

A representante do MUDA, Marcela Arruda, da faculdade de arquitetura Escola da Cidade, aponta como maneira de estimular a apropriação dos espaços públicos perguntar “o que as pessoas que usam o espaço querem para ele?”. Essas pessoas tem que participar da “construção”, da revitalização desse ambiente, pensando no que se pode fazer de melhor com os recursos disponíveis. Para Marcela, é essencial desconstruir o olhar da sociedade para o espaço público, que tem que ser um lugar de encontro, troca e inclusão. É necessário, portanto, trazer sua essência (as pessoas) para esse ambiente, tornando a cidade mais humana.

Mister trabalha recriando materiais no Basurama, coletivo nascido na Escola de Arquitetura de Madrid. Antes de explicar seu trabalho, ele fez uma breve associação do evento com o Occupy Wall Street, movimento anti-neoliberalismo que eclodiu em 2011, chamando-o de “Occupy Benedito Calixto”, pelo fato de ambos ocuparem espaços públicos. Então contou sobre o projeto “lixo não existe”, em que propõe às comunidades a criação de seus próprios equipamentos urbanos usando como matéria prima recursos descartados, entre os quais ressaltou o pneu. Também compartilhou sua experiência no bairro da Mocca, em São Paulo, que começou com um mapeamento colaborativo de espaços abandonados, materiais descartados e possibilidades de intervenções. Entretanto, uma associação de amigos da praça ficou contra ele, quando viu que o material usado era lixo, literalmente.

Espaço público é questão cultural, segundo Mister, assim como lixo também é um elemento da cultura. E é possível, e necessário, trazer as pessoas pras ruas, usando materiais que seriam inutilizados. É preciso imaginação. Por exemplo, na Europa, com a crise, Madrid solucionou o problema da falta de orçamento para a tradicional Virada Cultural. Criaram intervenções, usando recursos existentes, em espaços abandonados. Funcionou.

Como a estrutura da “mesa” permitia um debate com o público, uma das participantes, Silvia Villar (ativista do movimento 15M), contou um caso interessante. Na prefeitura de Cordoba, Argentina, foi realizada uma consulta popular sobre os problemas da violência. O povo optou por ruas mais militarizadas, o que diminuiria ainda mais o uso do espaço público para lazer, já que poderia ocorrer uma situação semelhante a que São Paulo vive hoje. O governo foi mais esperto e resolveu perguntar para quem tem imaginação: as crianças. O “conselho dos meninos” pediu luz e banquinhos nas ruas. O que, para a participante, mostra que “a solução muitas vezes está no diálogo.

São várias as maneiras de intervir no espaço público. A principal, porém, é começar a ocupá-los, como a galera da Casa Fora do Eixo promoveu nessa última segunda feira, e vem promovendo ao longo das Preliminares. Tirar o debate da internet e levá-lo para o parque; tirar o cinema do shopping e levá-lo para a rua. O importante é ocupar a cidade e aproveitar os espaços que ela fornece.

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