Olho non ohlO – refletir é sobreviver

divulgação
Cineasta Jorge Bodanzky, homenageado da Mostra, recebendo troféu Muiraquitã
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daniel valentim · Juiz de Fora, MG
17/12/2006 · 153 · 2
 

Olhar-se é condição essencial para a sobrevivência da identidade frente à crise acachapante da Modernidade, a Era da promessa desfeita de que à luz da razão, o indivíduo, o OUTRO, seria reconhecido e respeitado. É a partir desse ponto de vista que percebo a importância de um evento como a I Mostra Amazônica do Filme Etnográfico, que levou a telas de dois centros universitários de Manaus, obras clássicas e atuais com lentes voltadas ao universo pan-amazônico.

Realizado entre os dias 1º e 7 de dezembro, entretanto, com uma programação que incluía mini-cursos, fórum de debates, mostras competitivas e paralelas, o evento – talvez por seu caráter pioneiro na região – não chegou atingir a expectativa de público dos organizadores; não obteve destaque na imprensa local; e nem mesmo chegou a movimentar significativamente o meio acadêmico da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) ou do Centro Universitário do Norte (Uninorte), como esperava o Núcleo de Antropologia Visual (Navi) da Ufam, organizador da Mostra.

Por outro lado, é importante ressaltar que esse foi um primeiro passo de uma revolução que ainda é possível: a do auto-conhecimento a partir da imagem; e daí para a reflexividade de pensamento que nos tirará do atraso. Ou pra sempre seremos vitrine em exibições mambembes do Exótico. Abaixo, você confere um pouco do que aconteceu na Mostra nas palavras de um de seus realizadores, o professor Tom Zé, do Departamento de Comunicação Social da Ufam e membro do Navi, além de apaixonado por cinema.

(O resultado da mostra competitiva está no primeiro comentário da matéria, que postei lá embaixo).

Overmundo- Como foi a presença do público nas sessões, cursos e debates?
Tom Zé-
O público que freqüentou as sessões de cinema (Mostra Competitiva, Mostra Paralela e Mostra Bodanzky) ficou bem aquém de nossas expectativas e não foi porque não divulgamos. Neste tipo de evento, infelizmente, a imprensa local não se sente atraída e tivemos que "pressioná-la" (com releases) para ter um espaço. No meu entender, a grande maioria do público manauara não tem interesse e nem curiosidade para saber o que se mostra na região. Se é falso, se é preconceituoso, se é enganoso ou se é uma imagem comprometida com a visão de seu povo. Penso até que o público deve achar muito interessante ressaltar apenas o lado exótico da Amazônia. Infelizmente.

Apesar de termos preenchido as inscrições dos cursos e da oficina em seus limites dias antes do evento, o que percebemos é que durante a realização deles só a metade dos inscritos compareceu, revelando - quem sabe - apenas a vontade de ter certificados e não apreender conhecimento. O que é lamentável, pois tratavam-se de pessoas com cursos superiores ou ainda na graduação. Semelhante situação se deu nas sessões do Fórum de Debates, que tiveram pouca participação da população. Talvez o público não esteja acostumado a se fazer presente a debates pela tarde e de forma intensa, como ocorreu. É uma avaliação.


O- E a participação de filmes amazonenses na mostra, em termos de qualidade em relação a obras de outras localidades?
TZ- Houve uma razoável presença de filmes e vídeos amazonenses inscritos na Mostra Competitiva, mas, sem dúvida, há ainda um descompasso técnico. Isto não quer dizer que não houve trabalhos ruins de outros locais. Houve, principalmente de outros estados amazônicos brasileiros. Pode-se dizer que a produção local compete com Rondônia, mas perde para o Pará e Acre. Pelo menos daqueles que vieram para a Mostra. Mesmo com festivais de cinema (UM, Curta Quatro e Amazon Festival) falta ainda interesse das pessoas para realizar filmes que não sejam institucionais, propagandísticos e "comerciais". Isto é, filmes cujo interesse maior seja o das populações locais de fato e de direito e não de "instituições", "ONGs" ou estatais. Falta mesmo é um aprofundamento maior na compreensão do que seja a Amazônia por nós, amazônidas.

O- Contrapondo os filmes clássicos aos mais atuais exibidos na mostra, o que mudou na maneira como vêem (ou como vemos) a Amazônia?
TZ- Analisando o que nos chegou na I Mostra, posso dizer que o olhar sobre a Amazônia está mudando. Dos filmes mais antigos aos atuais o que se percebe é uma mudança de enfoque, de ponto de vista. Agora, os realizadores são os próprios habitantes. Isto é, são indígenas, camponeses, ribeirinhos, as tribos urbanas, segmentos marginalizados da periferia que falam ou/e dirigem os filmes. Não há mais pessoas "interpretando a fala" dessas populações, mas elas próprias atuando. Claro, há também aqueles realizadores que se identificam com essas populações e realizam obras de extremo valor, como as do próprio Jorge Bodanzky, por exemplo.

O- O recente documentário sobre os bumbás de Manaus, produzido pelo professor Sérgio Ivan, do departamento de Antropologia da Ufam, mostrou que o cinema pode ser uma boa forma de aproximar a população em geral do conhecimento produzido dentro da Universidade. Há algum projeto do Navi nesse sentido? Quais os planos para 2007?
TZ- Com relação ao documentário produzido pelo prof. Sérgio Ivan, eu pessoalmente não o conheço, mas acho que ele perdeu uma boa oportunidade de difundi-lo ao não inscrevê-lo na I Mostra. Aliás, aproveito para fazer uma crítica a alguns professores da UFAM e, em especial, aos antropólogos. Eles foram os grandes ausentes. Não participaram de nenhuma forma. Nem com esse filme especificamente, nem com sua presença nos cursos e debates. Parece que nem estava acontecendo nada de interesse acadêmico em Manaus nestes dias. Parece que se algo não sai dos próprios Departamentos, esses professores ignoram os demais eventos. A não ser, obviamente, que haja interesse pecuniário por trás...

Mas, de um modo geral, não acredito que eventos como este possam aproximar a população do conhecimento produzido dentro da Universidade simplesmente porque quem deve produzir esse conhecimento não parece estar muito interessado numa aproximação. É o que percebo, ao longo de mais de vinte anos de UFAM.

Quanto aos planos futuros do NAVI, está a edição de um número especial da revista Somanlu, do Mestrado Sociedade e Cultura na Amazônia, com os principais pontos levantados na I Mostra e artigos especiais de professores (de outras Universidades) que participaram dele. Pensa-se em produção de um filme, sim. Mas essa é uma questão de levantar recursos financeiros e uma missão um pouco mais difícil.


O- Como estudioso do cinema, como o senhor analisa a recente produção amazonense a partir dos pequenos festivais que vêm acontecendo, como o Um Amazonas e o Curta 4?
TZ- Como disse, a recente produção local ainda é muito incipiente. Ela carece de apoio das instituições locais do Estado, em primeiro lugar, e de instituições empresariais. No entanto, já há uma certa produção, que, acho, está se deixando levar - pelas limitações de seu tempo, um minuto, quatro minutos - para a experimentação. Não que a experimentação seja algo ruim, mas, de certa forma, está "bitolando" os realizadores. Eles não parecem avançar. Há também uma grande ausência de criatividade de se pensar em algo mais aprofundado, que, portanto, exija mais tempo de realização. E, note bem, não significa apenas "estender" o tempo filmado! Significa ter conhecimento consistente sobre o que se produz e não ficar repetindo fórmulas e cair na mesmice! Aí, sim, poderemos ver a capacidade criadora de nossos cineastas! Não basta só produzir clip musical e sair ganhando algum tipo de prêmio! É preciso ainda construir uma base local de apoio à esse tipo de produção audiovisual e não apenas a Film Comission para grandes empreitadas, que geralmente vêm de fora!

O- Cinema (incluindo as tecnologias digitais, obviamente) pode ser uma arte economicamente viável no Amazonas? É possível profissionalizar-se na área?
TZ- Graças à tecnologia de hoje, é possível fazer muito mais cinema. Mas esta máxima não se aplica ao Amazonas. Primeiro porque aqui falta quase tudo para apoiar uma empreitada cinematográfica. Segundo porque não há uma boa capacitação técnica para cinema. Terceiro porque há uma falta de interesse em se produzir obras que falem realmente das coisas da Amazônia. Não basta ter uma câmara ou uma ilha de edição se há uma crise de identidade e de criatividade. Por tudo isto, não temos como possuir um pólo produtor de cinema aqui e nem de se ter profissionais nesta área. Ou será que, por haver possibilidades de gravar imagens com um celular, alguém pode ser chamado de cineasta e aquela obra ser taxada de filme? É verdade que com esses equipamentos quase domésticos, Augusto Masagão realizou uma pequena obra-prima, "Nós que aqui estamos por vós esperamos", mas aí está a diferença - no gênio criador, na busca de originalidade.


O- Qual a contribuição de um grande evento como o Festival Internacional de Cinema, que chegou à terceira edição neste ano, para a cinematografia da região? Filme em ponto de ônibus populariza cinema?
TZ- O Amazon Festival é mais uma obra faraônica e megalômana da gestão Robério Braga. Só serve para massagear seu ego. Infelizmente. É ridículo oferecer 15 mil reais para o vencedor do melhor roteiro amazonense dizendo que será usado na produção do filme e "que ele será mostrado na próxima edição do Festival" quando se sabe que o gasto com o Festival e em trazer estrelas ocultas e diretores apagados é de vários milhões de reais! Deveria se incentivar mais a exibição de filmes em locais que nunca tiveram acesso a ele, tipo bairros, escolas, centros sociais, interior do estado (sede e periferia dos municípios), mas para isto seria necessária uma produção local que satisfizesse isto porque, se não, o que vai haver é uma enorme difusão de filmes babacas. E isto contribui para a degeneração da cultura que a TV já faz muito bem. Uma coisa está ligada à outra! Se filme em ponto de ônibus populariza o cinema? Não acredito. Para se assistir a um filme temos que ter tempo, paciência, compenetração e estar num ambiente de casa de cinema (meio escuro), tudo o que um ponto de ônibus não oferece. Dizer que "estamos levando cinema à população passando filmes em pontos de ônibus" é populismo e babaquice de péssimo gosto, como se a população não tivesse que ter as mesmas condições de assistir filmes que as camadas economicamente dotadas têm ao ir aos Shoppings, pois agora é lá o espaço do cinema. E não é à toa que estão lá.

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daniel valentim
 

Resultados:

-Melhor longa-metragem: "Baniwa - Uma história de plantas e curas", de Stella Oswaldo Cruz Penido

-Melhor média-metragem: : “Invisíveis Prazeres Cotidianos”, de Jorane Castro; e “Buscando el Azul”, do peruano Fernando Valdivia

Menções honrosas: “Quem Somos? Quem Já Não Somos Mais?", de Márcio Fernandes e Raoni Vale; “Iauaretê: Cachoeira das Onças”, de Vincent Carelli; e “Yawa: História do Povo Yawanawa”, de Joaquim e Laura Yawanawa.

A categoria curta-metragem não indicou vencedor porque o júri decidiu que nenhuma das obras inscritas satisfez todos os critérios estabelecidos.

daniel valentim · Juiz de Fora, MG 14/12/2006 19:20
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jjLeandro
 

Feliz Natal, mano
http://jjleandro.blog.terra.com.br/
http:fotolog.terra.com.br/jjleandro60

jjLeandro · Araguaína, TO 24/12/2006 12:39
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