Língua de boi – um diálogo entre Academia e povão

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daniel valentim · Juiz de Fora, MG
13/5/2006 · 104 · 2
 

Quando se fala em Boi-Bumbá no Amazonas, o que vem à mente é o Festival Folclórico de Parintins, com a peculiar rivalidade entre o Garantido e o Caprichoso, o boi branco e o preto, respectivamente, e seu espetáculo grandioso, televisionado, que atrai turistas do mundo inteiro. Nem os próprios manauaras sabem que a tradição do boi no Estado começou aqui mesmo, na capital, trazida por maranhenses ainda no século XIX. O curta-metragem em vídeo “Bois-Bumbás de Manaus – Brinquedo de São João”, de Sérgio Ivan Gil Braga, chega com uma proposta didática, para mostrar o passado e o presente dessa tradição popular no Amazonas, mas também é um exemplo de como a Universidade pode – e deve – dialogar mais com as comunidades que a cercam.

Na verdade, esse trabalho de pesquisa já vinha sendo desenvolvido por Sérgio, professor do Departamento de Ciências Sociais e do Mestrado em Sociedade e Cultura da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mas acabaria se transformando num estudo cujo alcance ficaria limitado à Academia, como acontece com a maioria dos projetos de pesquisa das universidades. No ano passado, entretanto, ao se deparar com um edital para projetos culturais da Fundação Villa-Lobos (FVL), o professor teve a idéia de transformar a pesquisa num documentário e inscreveu o projeto. Acabou sendo selecionado. “Está sendo uma experiência muito boa, porque dá mais visibilidade à Universidade, a aproxima mais da comunidade”, resume o diretor.

Para realizar o documentário, Sérgio convidou a Bacamarte Produções, do videomaker Danilo Egle, aluno do curso de Comunicação Social da Ufam, que ficou empolgado com o projeto, o primeiro documentário de que a produtora participou. “O vídeo está bem embasado, e traz imagens diferentes de Manaus, uma realidade nua e crua”, argumenta. O contato com a cultura popular e as idiossincrasias da periferia manauara são os grandes atrativos do documentário, no registro dos grupos em festas de rua, feijoadas na calçada, o povo dançando, e o sentimento de revolta contra os grupos da cidade que tentam imitar o boi parintinense.

Espetáculo e folclore

Imitar o boi praticado em Parintins, para esses grupos que defendem a tradição folclórica, significa se render ao mercado dos grandes espetáculos, ceder diante de exigências que às vezes subvertem valores importantes para a identidade dos bumbás. A música, por exemplo, foi abandonando seu caráter mais percussivo, cru, para ganhar efeitos de teclado, linhas de metais e trejeitos de guitarradas. Outro exemplo é a escolha da tonalidade das cores de alegorias e da iluminação pautada pelas exigências técnicas de uma transmissão televisiva.

Eu já presenciei uma reunião entre os dirigentes do Garantido e do Caprichoso com o governador Eduardo Braga, o secretário de Cultura, Robério Braga, e representantes da Rede Calderaro, filiada ao SBT e responsável pela transmissão do Festival Folclórico para a Região Norte. Para melhorar a qualidade das imagens televisionadas, o pessoal da TV queria que os dois grupos folclóricos não utilizassem as cores vermelha e azul na iluminação do bumbódromo. Para quem não conhece o Festival de Parintins, essas são exatamente as cores que caracterizam o Garantido e o Caprichoso, respectivamente.

Voltando a discussão para Manaus, alguns dos personagens dos bumbás da capital lamentam o fato de que dos nove grupos da cidade, seis já estejam se tornando “clones” do boi parintinense. Durante muito tempo, a principal crítica em relação ao boi amazonense era a de que ele estava se tornando muito parecido com o carnaval, devido a essa transformação do brinquedo em espetáculo, mas o professor Sérgio Ivan garante que esse lado do espetáculo não vai conseguir tirar a identidade da festa, que ainda mantém personagens, batidas e narrativas tradicionais.

Passado e presente

O boi-bumbá chegou a Manaus ainda no século XIX, trazido pelos imigrantes maranhenses, e tinha nos bairros da Cachoeirinha e Beco do Macedo seus principais núcleos de atividades. A pesquisa de Sérgio conseguiu resgatar registros que datam de 1859, com anúncios que mostram, por exemplo, a venda da língua do boi, uma das tradições da brincadeira.

Uma particularidade do boi da capital é a circulação de pessoas entre as agremiações, algo impensável na rixa entre o Garantido e Caprichoso parintinenses. Atualmente, são nove bumbas e seis garrotes (bois mirins) em atividade em Manaus, e há personagens como Zé Preto – que possui 70 anos de boi – que já passou por diversos deles.

Depois de meados dos anos 90, quando o Festival Folclórico de Parintins começou a ganhar destaque nacional e internacional, tornando-se um dos principais atrativos turísticos da região, os bois manauaras amargaram um período de quase total ostracismo, sem recursos para garantir um festival de qualidade e vendo-se obrigados até a mudar a tradicional data em junho para não entrar em conflito com o de Parintins. De acordo com Sérgio, entretanto, essa situação está mudando e os grupos estão voltando a realizar apresentações em bairros e com os novos investimentos do poder público, o festival está garantido num espaço de grande porte, o Centro Cultural Povos da Amazônia, na antiga Bola da Suframa.

Didatismo

O vídeo terá duração de 25 minutos e será lançado neste mês. O objetivo do professor Sérgio é levá-lo aos bairros, realizar exibições em locais públicos e em escolas, sempre com o acompanhamento de professores, para reforçar o aspecto didático do material. O calendário dessas exibições ainda não está fechado, mas Sérgio já enviou 25 cópias do vídeo para a Prefeitura, que distribuirá o trabalho para bibliotecas e centros culturais diversos. Trata-se de uma importante iniciativa advinda da Ufam, e um exemplo de como a Universidade pode transformar suas pesquisas num veículo de diálogo com as comunidades. Agora, Sérgio já deu início a um outro projeto de documentário, desta vez sobre Santa Etelvina, uma santa que na verdade nunca fora canonizada.

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Yusseff Abrahim
 

Legal o resgate da informação de que os bois parintinenses tiveram inspiração nos bois originados na capital, inclusive, vale aqui dizer que o nome do boi Caprichoso, parintinense, foi uma homenagem ao antigo boi Caprichoso do bairro manauara da Praça 14. Berço da imigração maranhense.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 19/7/2006 14:05
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Rafael D.
 

eu vi e gostei!!! mt bom, documentário show de bola....e viva cultura amazonense....

Rafael D. · Belo Horizonte, MG 8/8/2006 00:24
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