Traços, textos, idiossincrasias

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daniel valentim · Juiz de Fora, MG
26/4/2006 · 141 · 2
 

No universo dos quadrinheiros de Manaus, um dos primeiros poemas escritos em português, ou galego-português – Cantiga da Ribeirinha (1198), do trovador Paio Soares de Taveirós –, se transforma no amor entre um poste sujo e uma borboleta, amor despercebido e arruinado pela cidade. Também o último dos Três Porquinhos daquela velha história passou para os quadrinhos como um sujeito que “curtia psicanálise e os clássicos da literatura”, e achava que o lobo tentando arrombar sua porta podia ser um fantoche em sua própria mão.

Entre o otimismo e a desilusão de seus textos e traços, a poesia, o humor escrachado, a violência, o sexo e a filosofia sempre fizeram parte das criações do pessoal das HQs manauaras. É o que se percebe em Clube dos Quadrinheiros – As melhores histórias (140 páginas, R$ 30), um livro editado no mês passado pela Valer, em parceria com a Fundação Villa-Lobos, e que inicia um justo resgate do trabalho desse importante grupo de artistas da capital amazonense, uma moçada que transformou encontros semanais para trocar idéias e quadrinhos no porão de um velho prédio da Universidade Federal do Amazonas, na Praça da Saudade, numa verdadeira editora underground de fanzines e produtora de eventos artísticos e didáticos.

O livro teve tiragem de mil cópias e por enquanto só está à venda na Livraria Valer (rua Ramos Ferreira, Centro). Para a seleção das 16 histórias que o compõem, o roteirista e desenhista Mário Orestes fez um apanhado da trajetória de dez anos do Clube, de 1992 a 2002. “São coisas que não podiam ficar de fora”, explica, mas confessa que muita coisa boa acabou não entrando. “Esse não é ‘o’ livro; é apenas o primeiro”, afirma o desenhista, esperançoso no sucesso da edição para que o projeto acabe se transformando numa coleção. “Material é o que não falta”, avisa. Ao todo, 17 artistas – entre desenhistas e roteiristas – estão presentes na obra, alguns com mais de um trabalho, pois o principal critério de seleção foi a qualidade estética, reforçada pela impressão cuidadosa e pelo belo trabalho gráfico da edição.

De acordo com Adelino Lobato, membro de Clube e desenhista da história Folha, o projeto do grupo inclui a realização de exposições itinerantes pela cidade para mostrar os trabalhos e divulgar o livro. Os painéis para isso já estão prontos. O único lamento do grupo é o preço do título (R$ 30), encarecido pela tiragem modesta e esmero da parte gráfica. A idéia era de que todas as pessoas pudessem ter acesso ao livro, o que combinaria mais com o histórico de “arte para todos” do Clube. O problema será resolvido em parte pelas doações de cópias às bibliotecas e instituições públicas de ensino.

Expansão

O projeto de dar continuidade a essa antologia do Clube dos Quadrinheiros com outros volumes não é apenas um sonho de seus integrantes. De acordo com Tenório Telles, coordenador editorial da Valer, a proposta da empresa é de transformar a produção de quadrinhos numa nova linha editorial, abrindo a possibilidade, inclusive, para que os autores do gênero lancem livros próprios.

Tenório revela que foi a própria Valer que procurou o Clube para a criação da antologia, alargando o leque de linguagens trabalhadas pela editora. “(O livro) veio da constatação de que sempre havíamos publicado textos de poetas, dramaturgos, contistas, e deixado outras áreas sem projeto”, atesta. O editor entrou em contato com o pessoal do Clube para a seleção do material, e partiu em busca de parceiros para viabilizar a impressão. “Quem topou foi a prefeitura, por meio da Fundação Villa-Lobos, e a Edua (Editora da Universidade Federal do Amazonas)”, afirma.

Em breve a Valer inicia uma distribuição mais ampla do livro, enviando-o às demais livrarias da cidade.

Dos porões para as ruas

O embrião do Clube foi a realização do Primeiro Encontro de Quadrinheiros de Manaus em setembro de 1992, no Sesc-AM, pelo quadrinheiro Marcos Antônio dos Santos – conhecido no grupo como Supremo –, com apoio da professora Conceição Derzi, do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O evento serviu para aproximar o pessoal, e contou com uma palestra do roteirista paraense Gian Danton.

De acordo com Roni Brito, outro dos fundadores do Clube, as reuniões semanais que se seguiram foram uma conseqüência natural daquele primeiro encontro. Ávido colecionador de quadrinhos, uma atividade que teve início ainda na infância, na banca de revistas que a família possuía, Roni se transformou no principal editor do grupo, responsável pelo Franca Zona, fanzine oficial do Clube que reunia as melhores histórias editadas em outros zines do pessoal, como o Phodas-C, o Gothic e Os Arcanos, por exemplo.

As atividades não se resumiam às publicações; o Clube mantinha contato permanente com movimentos de outros Estados e realizou, em dez anos, oito encontros anuais, em que fazia exposições e trazia alguma personalidade do meio para ministrar palestras, como Ota, da revista Mad; Laerte, Mutarelli e Adão Iturrusgarai.

A iniciativa do grupo era tão interessante que seus eventos passaram a ser “imitados” pelas pastas culturais dos poderes públicos. O sucesso desses encontros inspirou o Estado, por exemplo, a realizar duas edições do Salão do humor, sendo que a segunda foi internacional, com trabalhos europeus expostos. Além disso, os eventos artísticos criados por gente do Clube, com exposições nas ruas e praças da cidade, em que qualquer artista de qualquer área podia chegar e mostrar seu trabalho – ali, em cima da hora mesmo – foi recentemente clonado pela prefeitura, com as edições do Arte na cidade.

A importância do Clube dos Quadrinheiros, portanto, está nessas duas facetas de seu trabalho: os quadrinhos propriamente ditos, e as atividades de bastidores, de movimentação da cena cultural de Manaus, tanto que o Clube gerou outros grupos, por ampliação ou dissidência. Hoje, apesar de não haver mais as reuniões fixas, muitos fanzines daquela época ainda estão em circulação, novos foram criados, e os integrantes do Clube continuam na ativa, desenvolvendo trabalhos em diversas áreas. Foi dos Quadrinheiros que emergiu, por exemplo, o Hyper Comix (pessoal do mangá amazonense); a Hyperfilmes, produtora de filmes trash que chegou a realizar um longa em vídeo no ano passado; e o grupo Muleque Doido – fundado por Adriano Furtado (que está no livro) –, que coloca a arte a serviço das comunidades da periferia manauara.

Como diz o texto de A Equilibrium, uma das histórias do próprio Adriano no livro, enquanto um bêbado tenta chegar em algum lugar: “(...) e o que nasce morre, e morrendo, nasce pr’um novo porvir, de novo fluir, até sucumbir, na eterna seleção que ignora fatalidade, pois apenas fluir é a realidade. Não há FIM!”.

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Hermano Vianna
 

muito bom saber o que anda acontecendo nos quadrinhos de Manaus - fica aqui a sugestão para que outras pessoas publiquem aqui no Overmundo textos sobre a produção em quadrinhos na sua cidade - ao publicar é só colocar "quadrinhos" no campo das tags que todos os textos ficarão linkados, compondo um mapeamento da diversidade HQ nacional

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 28/4/2006 03:27
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Vânia Medeiros
 

tá ai, a última coisa que vinha na minha cabeça quando pensava em Manaus era quadrinhos... de agora em diante, é mais uma coisa pra eu lembrar quando pensar nessa cidade brasileira.

belo texto.

Vânia Medeiros · Salvador, BA 28/4/2006 15:53
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