Brasil 1, Croácia 0, Eu 2 vodkas

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daniel valentim · Juiz de Fora, MG
18/6/2006 · 55 · 1
 

Graças a Deus não estou trabalhando em nenhum jornal: primeiro esforço léxico do dia; oxalá não tivesse aula foi o segundo. E assim, com três deuses invocados de manhã bem cedo, além de um gole de café, começou – para mim – a estréia do Brasil na Copa do Mundo 2006. Em alguns pedaços da minha rua, tirinhas verdes e amarelas amarradas a barbante como rabiolas disputavam irregularmente o espaço aéreo com fios elétricos clandestinos. Patriotismo e Malandragem a céu aberto; elementos que aliados ao sincretismo religioso que nos acomete sempre que chuteiras acetinadas feitas sob encomenda por grandes corporações passam a representar o que há de mais sagrado no pé de um moleque ralado em asfalto, cheio de ceroto e sede; formam a santíssima trindade de nosso futebol. Melhor dizendo, de quem torce por ele.

O dia tinha cara de jogo mesmo, de final de campeonato, bandeiras desde cedo, um sol de rachar, e uma sensação esquisita de domingo eterno em plena terça-feira, como uma terça-feira gorda que mesmo longe do Carnaval nos dá a licença para a putaria sem culpa, um País de Cocagne para cada esquina. Tudo pode; nada acaba. Nem essa bosta de aula, era preciso comprar gelo urgentemente, e Paulo Freire não poderia me ajudar. Parecia tarde, mas o professor dispensou a turma cedo. Às onze e pouco da manhã, a cidade já havia se transformado. O que antes era apenas o prenúncio de toda a desordem que se pode aceitar socialmente, agora acabava de se confirmar. Manaus, de cabo a rabo, parecia um único e imenso arredor do Olímpico de Berlim, que fica no país imaginário da Alemanha.

Trânsito completamente engarrafado do Centro para os bairros – mas isso acontece todo dia, oras! –. Tudo bem, é verdade, o trânsito é sempre uma confusão, mas e o festival de buzinas? – algum dia foi diferente disso? – Não, é sempre assim mesmo. Será que Manaus vive um eterno pré-jogo? Foi então que me veio o estalo, aquela iluminação das coisas óbvias. O futebol, que numa Copa do Mundo chega a seu ponto máximo de representatividade, é a desculpa perfeita, inegável, irrepreensível, e que pode ser compartilhada simultaneamente por todos, e talvez por isso ele seja tão importante para nós, bons e malandramente patrióticos brasileiros. Analisando bem, o que acontece num dia de jogo do Brasil em Copa do Mundo é o que acontece todos os dias do ano em qualquer lugar, apenas levado quase ao extremo: gente saindo mais cedo do trabalho (ou faltando), bebendo em horário comercial, fazendo churrasco na calçada, grafitando logradouros, gritando no meio da rua, escutando samba em alto volume, e por aí vai.

A diferença é que existe uma espécie de acordo tácito entre os homens que os faz revezar nesse esquema. Se hoje faltou o fulano; espero até semana que vem pela minha vez. Hoje, nessa rua, só as casas ímpares podem fazer festa; amanhã, as pares. Dia de jogo é alforria, todos juntos podemos largar os compromissos mais cedo, gritar pelas ruas, sacros e incuravelmente bêbados. No mais, ninguém dá bandeira pra não mostrar que o que realmente une a nação não é o ideal patriótico da chuteira, mas a capacidade de nos convencermos de que isso é verdade, algo como aquele truque do diabo fingir que não existe. Acho que não seria um exagero dizer que o brasileiro torce apaixonadamente mesmo é contra a Argentina, porque se ela acabar com a nossa hegemonia vai melar todo o esquema.

Finalmente cheguei na casa do Pablo. Oito caixas de cerveja e duas garrafas de vodka, churrasco, começamos os trabalhos logo. Faltavam três horas para o jogo, a grande estréia do Brasil contra a Croácia. No final das contas assisti ao único gol já no replay, mas tomei banho de mangueira na rua, gritei com todos os que passavam na frente da casa, xinguei o Parreira, e depois do jogo todos continuamos com a festa, depois de perder alguns minutos falando sobre como um a zero é muito pouco para essa seleção de grandes astros, enquanto rabiolas verde-amarelas balançavam sobre nossas cabeças, encobrindo o gato* de energia que garantiu nossa trasmissão do jogo, diretamente do país imaginário da Alemanha.

*gíria para ligação clandestina

O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo pelo país afora. Para ler mais relatos sobre o assunto busque pela tag especial_copa, no sistema de busca do Overmundo.

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Yusseff Abrahim
 

Caraca!!!
Estou chocado Daniel. Nunca tinha pensado nisso... é uma grande relação essa da desculpa pela vagabundagem e estou revendo conceitos.
Prá variar... grande texto!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 19/6/2006 22:37
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