Joaquim "King Rock" Marinho, Ã esquerda
Ângela Maria e Nelson Golçalves. Até o inÃcio dos anos 60, a dupla ainda era sinônimo de rádio na cidade que sempre se vangloriava por seu caráter cosmopolita e vanguardista – a “Paris dos Trópicosâ€, com seu ouro sangrado de seringueiras. Não que Manaus não possuÃsse seus roqueiros; havia sim, alguns, mas eles tinham que ter dinheiro para mandar buscar discos no Sudeste, e depois apresentar as novidades para a turma em casas de amigos escolhidas de acordo com que o racionamento de energia da época permitia – sim, porque Manaus foi uma das primeiras cidades brasileiras a possuir energia elétrica, e conseqüentemente, uma das primeiras a sofrer com apagões.
Um desses roqueiros, entretanto, era privilegiado. Joaquim Marinho trabalhava como representante de discos da Phillips – e portanto tinha acesso direto aos lançamentos – quando foi convidado por Ivens Lima e Denis Menezes, dois dos principais profissionais da Rádio Rio-Mar, para apresentar um programa na emissora. Surgia, em 1961, o primeiro programa dedicado ao rock no Amazonas, “Chegou a hora do rockâ€, veiculado diariamente, à s 16h, logo após o “Teatrinho infantil de Alfredo Fernandesâ€.
Nem seria preciso dizer, mas o programa logo virou sucesso. Era a primeira vez, por exemplo, que se tocava Elvis Presley e Bill Haley para o grande público em Manaus, fato que realmente fez a cabeça da molecada. Para se ter uma idéia, foi a época em que os jovens começaram a formar pequenas bandas roqueiras, mas como era praticamente impossÃvel tirar as músicas ouvindo-as uma vez ou outra no rádio, havia quem passasse sessões e mais sessões dentro do cinema (que começou a passar filmes dos artistas citados anteriormente) para aprender a tocar algumas canções. O pianista Assis Mourão, por exemplo, confessa que assistiu a “Balanço das Horas†(com Bill Haley) 15 vezes para decorar letras e aprender as músicas.
Marinho logo recebeu o apelido de “King Rockâ€, cortesia de Ivens Lima, e ciceroneou o aniversário de 10 anos da Rio-Mar, em evento realizado no Teatro Amazonas em 1963, com um show de Sérgio Murilo, um dos pioneiros do rock brasileiro ao lado de Tony e Cely Campelo. Marinho ainda aproveitou a festa para mostrar seus dotes de cantor, apresentando quatro músicas acompanhado por Domingos Lima no violão. O “Chegou a hora do rock†foi transmitido durante dois anos pela Rio-Mar, e depois foi transferido para a Rádio Baré, numa época em que a grande revolução mesmo estava para acontecer.
Speak english!
Marinho, que sempre estava metido em tudo quanto era movimentação cultural da cidade, fazia parte da diretoria social do English Speaking Club – que mais tarde viria a ser o Instituto Cultural Brasil Estados Unidos (Icbeu) –, organizando eventos diversos para a entidade. Pois bem, numa das viagens a trabalho pelo Icbeu, em 1964, o King Rock foi aos Estados Unidos e trouxe de lá uma novidade que transformaria o gosto musical da juventude: os quatro rapazes de Liverpool, os Beatles, de terninho, numa época em que o código de vestimenta da floresta equatorial ainda obedecia oportunamente aos ares temperados europeus.
Aqui, no Porto de Lenha, Marinho também juntou outros três amigos para formar a Beat Rocks, que fazia acústicos improvisados em rodinhas na Praça da Saudade e shows em festas de amigos, além de algumas poucas apresentações públicas de maior porte. O grupo foi formado por Marinho na bateria, Assis Mourão no piano, Evandro Ribeiro no baixo e David Pennington na guitarra e vocais. Filho de inglês, David conseguia cantar as músicas com perfeição, e como as pretensões dos quatro rapazes se resumiam apenas a conquistar a mulherada – aliás, o mais nobre dos motivos para se formar uma banda –, pode-se dizer que a Beat Rocks foi um sucesso.
Nessa época, segunda metade da década de 60, já havia um bom número de bandas de baile espalhadas pela cidade, e todas adotavam o rock como o carro-chefe do repertório. Na transição dos anos 60 para os 70, 25 grupos disputavam ferrenhamente o concurso “Lira de Prataâ€, que elegia a melhor banda de baile do ano, e conferia um invejado prestÃgio à vencedora. O evento foi realizado de 69 a 73 em locais como o Sheik Clube, na avenida Getúlio Vargas; e o OlÃmpico Clube, na avenida Constantino Nery. Os grupos tocavam sempre canções dos Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley e sucessos da Jovem Guarda.
Mutantes
Outro evento de extrema importância para o rock amazonense, ainda na década de 60, foi o Festival Estudantil de Música Popular Brasileira, que teve três edições realizadas em Manaus a partir de 1967, e trouxe à cidade nomes importantes da música brasileira, como Jards Macalé e Os Mutantes. Novamente, Marinho estava à frente das coisas, administrando, desta vez, o Departamento de Turismo e Promoções do Estado, um órgão que se equivale ao que hoje é a Secretaria de Estado da Cultura (SEC). Foi durante a realização do Festival que começaram a aparecer – ainda que timidamente – as primeiras farpas de um rock autoral amazonense. Arnaldo Baptista, por exemplo, saiu de Manaus com uma canção de dois jovens amazonenses que participaram do evento, Ilton Oliveira e Wandler Cunha, e a gravou no disco “A divina comédia ou Ando meio desligadoâ€, de 1970. Trata-se de “Jogo de calçadaâ€.
Foi dessa maneira que o rock’n’roll chegou à capital amazonense, introduzindo modas e novos comportamentos na juventude. A molecada só demorou um pouquinho para passar dessa primeira “fase†da transformação, que se limitava praticamente à imitação dos Ãcones que vinham de fora, e começar a buscar uma identidade. Em meados da década de 70, entretanto, dois grupos assumiram esse papel, realizando as primeiras experiências autorais realmente marcantes na cena musical do Estado, A Gente e Tariri, mas isso é uma outra história...
(Continua).
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