Os Quatro Cavaleiros do Novo Ateísmo

Os Quatro Cavaleiros do Novo Ateísmo
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Giordano Cimadon · Curitiba, PR
20/6/2012 · 1 · 0
 

Novo Ateísmo é o nome dado ao conjunto de ideias promovidas por um grupo de escritores ateístas contemporâneos, os quais sustentam a visão de que a religião não deve ser simplesmente tolerada, mas sim contraposta, criticada e exposta mediante o uso de argumentos racionais, sempre que suas influências sejam identificadas.

A expressão é associada com frequência aos indivíduos conhecidos como Os Quatro Cavaleiros do Novo Ateísmo, grupo informal que compreende o etologista britânico Richard Dawkins, o filósofo norte-americano Daniel Dennett, o neurocientista norte-americano Sam Harris, e o falecido jornalista anglo-americano Christopher Hitchens.

Os diversos livros publicados entre 2004 e 2007 por estes autores servem como parte da base das discussões do Novo Ateísmo. Tudo começou com os ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas.

Ecoando a ideia de que o islamismo foi o principal responsável pelo ataque, Sam Harris se sentiu motivado a publicar em 2004 a obra A Morte da Fé, que rapidamente se transformou num dos livros mais vendidos dos Estados Unidos e inaugurou uma série de publicações do mesmo gênero.

Neste livro, Harris também ataca o cristianismo e o judaísmo, e apresenta uma ampla coleção de críticas a todos os estilos de crença religiosa. Chega a afirmar que os nazistas foram agentes religiosos cristãos quando exterminaram milhões de judeus. Dois anos mais tarde, Harris publicou Carta à Uma Nação Cristã, onde tece ainda mais críticas ao cristianismo.

Um dos maiores propagandistas de Sam Harris foi o famoso Richard Dawkins, sempre empenhado em disseminar o conflito entre a ciência e a religião. Ele é o autor do livro Deus, um Delírio, publicado em 2006, e que permaneceu por quase um ano inteiro na lista dos mais vendidos no jornal norte-americano New York Times.

Dawkins construiu uma carreira científica brilhante, e graças ao seu intelecto robusto garantiu espaço para divulgar suas ideias sobre ciência, educação, sociedade e religião, reforçando sempre a necessidade da diminuição do papel da religião na sociedade e do aumento do papel da ciência. Sua defesa contundente do darwinismo lhe rendeu a alcunha de Rottweiler de Darwin.

Mais elegante é o estilo do neoconservador Christopher Hitchens, um dos maiores apoiadores da Guerra do Iraque, polêmico pelas inúmeras críticas realizadas, especialmente à Madre Teresa de Calcutá, a qual chamou de oportunista política, afirmando que Teresa somente adotou a imagem caracterizada pela pobreza e pela santidade para poder usá-la de modo a alcançar seus propósitos financeiros.

Um de seus principais argumentos consiste em que a ideia de Deus é absolutamente totalitária e responsável pela destruição da liberdade individual. Hitchens é autor do livro Deus Não É Grande, publicado em 2007, onde afirma que as religiões organizadas são violentas, irracionais, intolerantes, racistas e incentivam o fanatismo, e propõe que as religiões desempenhem um papel menos proeminente na sociedade.

Já o cientista Daniel C. Dennett faz esforços para quebrar a ideia de que a religião não pode ser analisada pela ciência, deixando de lado a fúria para destruir a crença religiosa e as próprias religiões. Seu livro Quebrando o Encanto: A Religião Como Fenômeno Natural, publicado em 2006, procura tratar da religião como um fenômeno natural e apontar as razões evolutivas para a aderência dos indivíduos às religiões.

Os escritos dos Novos Ateístas procuram lidar de forma científica com o conceito de Deus, ao contrário da maioria dos velhos ateístas, que partiam do princípio de que a ciência deveria ser indiferente à religião e aos conceitos sobrenaturais que a compõem. Richard Dawkins sugere que a hipótese de Deus é uma hipótese científica válida, pois como qualquer hipótese, ela pode ser testada, comprovada ou rejeitada.

Mesmo assim, os Novos Ateístas se antecipam e afirmam que o naturalismo é suficiente para explicar tudo o que seja observável na natureza, incluindo as mais distantes galáxias, a origem da vida e das espécies e até mesmo os processos que ocorrem no interior de estruturas delicadas, como o cérebro humano, e microscópicas, como o átomo.

Desta forma, excluem por completo a necessidade de qualquer elemento sobrenatural para que qualquer coisa pertencente à realidade observável do universo seja entendida. A hipótese de Deus ainda é descartada através da ideia muito comum ao Novo Ateísmo, onde a ausência de evidência é evidência da ausência, pois se algo existe é de se esperar que seja evidenciado uma hora ou outra, desta ou daquela maneira.

A insistência em classificar os dogmas religiosos como hipóteses que poderiam e deveriam ser testadas colabora com a pretensão de desautorizar a ideia dos domínios não-interferentes, a qual afirma a existência de domínios separados para a ciência e para a religião, e que em cada domínio, uma e outra possuem a autoridade e as ferramentas apropriadas para elaborar discursos e conclusões coerentes.

Assim, a ciência limitaria suas ações ao mundo empírico, enquanto a religião limitaria suas ações às questões de significado existencial e valores morais. Para os Novos Ateístas, a ciência estaria em desvatagem histórica, pois como afirma Richard Dawkins, as religiões abraâmicas vêm lidando há milênios com assuntos científicos. É chegada a hora do contra-ataque e da vingança?

O proponente da ideia, o historiador, paleontologista e biólogo Stephen Jay Gould, acaba redefinindo a religião como uma espécie de filosofia moral, algo que na visão gnóstica é o menos essencial em uma religião. Para os gnósticos, as religiões são expressões temporais da Gnosis, a experiência transcendente e direta de conhecimento de Deus e seus Mistérios.

Os códigos morais que acabam sendo inseridos nas religiões nada têm a ver com a essência e com o propósito final das próprias religiões. Confinar as religiões às suas propostas de conduta soa para o gnosticismo tão absurdo quanto querer submeter a divindade a testes de laboratório, ou ainda afirmar que a ciência é capaz de observar a origem da vida e a formação de novas espécies.

É interessante notar que o Novo Ateísmo não é, na verdade, algo novo. Como afirmou o humanista Thomas Flynn em sua coluna Porque Eu Não Acredito no Novo Ateísmo, a única novidade que existe é a publicação de material ateísta por grandes editoras, sua leitura por milhões de pessoas e sua aparição nas listas de mais vendidos. Aqui no Brasil, acrescente-se à lista a proliferação de youtubers ateus polêmicos, como o Pirulla25, o Yuri Grecco e o Tomishiyo.

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