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Primeiras impressões

João Vicente Kurtz
Jornada Nacional de Literatura acontece sob uma lona de circo, em Passo Fundo
1
Guilherme Mergen · Passo Fundo, RS
31/8/2007 · 135 · 2
 

Figura presente em pelo menos 10 edições da Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo, o escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão descreve a manifestação cultural como um Boeing com um plano de vôo bem estruturado. Em tempos de caos aéreo, tenho dúvidas se essa é a comparação mais adequada. Mas, às vésperas da 12ª edição, uma turbulência inesperada balançou – e ainda balança – esse que dizem ser o maior evento literário da América Latina. Tudo por conta do parecer contrário do Conselho Estadual de Cultura à liberação de mais de R$ 1 milhão para o patrocínio. A quantia, considerada pelos conselheiros incoerente com a atual situação financeira do Rio Grande do Sul, representa quase um terço do orçamento da Jornada.

Turbulências à parte, a lona do circo da cultura armou-se e Passo Fundo – município de 188 mil habitantes localizado na região Norte do Rio Grande do Sul – respira literatura, como a maioria dos jornais utiliza ao mencionar a jornada. O termo não é o único clichê usado pela imprensa ao se referir à "festa das letras", ao "show da literatura", entre tantas outras expressões empregadas ao longo dos 26 anos de jornadas literárias e dos seis de Jornadinha – irmã mais nova destinada a 16 mil alunos de escolas da região de Passo Fundo.

Ao pisar na dimensão dessa manifestação cultural, posso garantir que a cidade gaúcha – além de fria nesta época - está próxima de respirar livros, pelo menos entre agosto e setembro. Agora dizer que o município realmente respira literatura é utopia - aliás, essa foi justamente a palavra-tema do espetáculo de abertura da edição desse ano.

Como a maioria dos jornais - são dezenas de repórteres e fotógrafos
disputando um computador vago na sala de imprensa – concentra-se
praticamente só nos debates que põem cara-cara escritores e leitores, pouco se comenta sobre as modificações sofridas pela jornada neste ano. Essa 12ª edição acrescentou espaço para outras manifestações culturais, como a música, as artes plásticas, o cinema, a moda...

O próprio nome do moçambicano Mia Couto como vencedor do prêmio de melhor romance publicado em língua portuguesa, com a obra "Outro pé de sereia", parece ter surpreendido os participantes. Sinceramente, com a vitória de "Budepeste", de Chico Buarque, em 2005, muitos – inclusive eu – acreditavam em uma decisão mais "marqueteira". Porém, cinco horas antes da entrega, a garantia de que o autor premiado estava presente na jornada apontava para Mia Couto ou o goiano Flávio Carneiro, autor de "A confissão", e afastava as apostas do romance "As intermitências da morte", do Nobel José Saramago.

Tentar uma palavrinha com Mia Couto tornou-se quase impossível. Além dos jornalistas presentes na Jornada, o "agora mais conhecido" escritor atendia inúmeras ligações. Uma entrevista coletiva garantiu o acesso da imprensa. Cheguei na sala pontualmente. O africano de olhos claros já estava sentado, cercado de repórteres. "Podemos começar?", pergunta. Parece incrível, mas o interesse da maioria dos jornalistas – inclusive meu – ia muito além da obra "Outro pé de sereia". Todos queriam saber um pouco da literatura daquele pequeno país africano, caracterizado pelas guerras e pela língua portuguesa. Quando questiono sobre a publicação de livros, Couto orgulha-se da evolução de Moçambique nessa área. Em tempos passados, o país publicava apenas duas obras por ano. Agora, a média mantém-se entre 30 e 40. "Nessa questão da literatura, ainda estamos muitos ligados a Portugal. Portugal nos abre portas. Minha obra chegou até aqui justamente por causa dessa porta", comenta.

Apesar da mesma língua, Brasil e Moçambique vivem em realidades diferentes. Atualmente, um desconhece o que se passa no outro – ao contrário do período das décadas de 60 e 70, quando os países mantinham uma espécie de intercâmbio. Aliás, esse distanciamento foi uma das principais críticas do autor africano. "A imagem que os brasileiros têm da África ainda é muito mistificada. Mas essa mudança de visão precisa partir dos africanos", comenta. Curioso, pergunto qual a imagem deles sobre o Brasil. "A maioria se identifica com o futebol e as novelas. Mas não é só isso. Uma pequena parcela da população tem acesso a obras de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e, no meu caso, a poesia de Carlos Drummond de Andrade", acrescenta.

Depois de 20 minutos de bate-papo, o escritor deixa a timidez de lado e opina até sobre a proposta de unificação da língua portuguesa. "Sinceramente, acho que não vai ajudar nesse intercâmbio de literatura entre os países. Pelo contrário, vejo essas diferenças gramaticais como recursos que enriquecem as obras". Descontraído, no final da entrevista, ele se descreve como um péssimo biólogo (além de escritor, ele é biólogo). "Não acredito na ciência", confessa.

Jornada de personagens
Por trás de prêmios, debates e toda uma programação oficial cumprida à risca pela organização, a Jornada Nacional de Literatura esconde histórias totalmente desconhecidas. Esse é o meu principal desafio aqui: descobrir e contar curiosidades que não sobem ao palco, mas circulam nos bastidores. Imaginem como coordenar os mais de 100 escritores presentes nesta edição. São detalhes básicos como transporte, refeições, hospedagem... No meio de uma multidão com fome de literatura, 200 meninas, todas vestidas com moletons laranjas – aliás, toda a organização se veste em cores diferentes, de acordo com a função na equipe – correm de um lado para outro atrás dos escritores. Elas têm até um nome especial: são as chamadas jornadetes. Do hotel para o ônibus. Do ônibus para o restaurante. Do restaurante para a lona do circo. Da lona do circo para a sessão de autógrafos. Da sessão de autógrafos para a coletiva na sala de imprensa. E assim prossegue os intermináveis compromissos das jornadetes junto aos autores. Segundo elas próprias, ao concluir o trabalho, seguem até suas casas descansar para o próximo dia. Já eles (os escritores) rumam para festas, bares, jantas, etc (detalhes que ainda quero descobrir).

As "jornadetes" são selecionadas com cerca de um mês de antecedência e dedicam-se ao "ofício" de forma voluntária.
"Abrimos vagas e elas se inscrevem. Depois, passamos por uma série de reuniões para definir tudo", me conta aceleradamente a professora Dalva Bizoglin, fiel escudeira de Tânia Rösing, idealizadora das jornadas literárias e adjetivada como "fenômeno da natureza" pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça. Quando questiono o porquê das jornadetes serem somente mulheres, a professora Dalva me corrige rapidamente: "Tem meninos também, mas são poucos".

Para algumas das meninas, ser "jornadete" é a possibilidade de estar próxima dos escritores. Apesar da presença de autores reconhecidos na literatura, como o italiano Carlo Ginzburg, o cubano Reinaldo Montero e os brasileiros Mário Sabino, Lya Luft, Daniel Galera, entre outros, muitas jovens me confessam desconhecer com quem permanecem o dia todo. "É muita gente. Não tem como conhecer todos", justifica Naiara Bizotto, de 18 anos.

Pelas minhas passagens pelo circo da cultura, percebo que, apesar das atividades de pré-jornada – quando caravanas percorrem cidades estimulando a leitura das obras dos autores convidados -, os autores não são desconhecidos apenas para algumas jornadetes. Estimuladas a participar das jornadas para obter certificado de horas, muitas professoras também sequer sabem quem são aquelas pessoas no palco.

Mudança de endereço
Andar pela jornada é conhecer histórias, além daquelas contadas pelos livros. Conversando com integrantes da organização, descubro um personagem ímpar, digno de um conto. Aos 30 anos, o pernambucano Gustavo Melo mudou o roteiro da vida quando conheceu a manifestação cultural de Passo Fundo. A participação na 11ª edição, em 2005, o fez trocar o calor de Recife pelo frio do Rio Grande do Sul. Na tentativa de conversar com Gustavo, telefono para um número repassado e logo escuto uma voz masculina com forte sotaque do Nordeste.
- Pois não, diz ele.
- Aqui é Guilherme. Estou elaborando uma matéria da jornada para o portal Overmundo. Descobri a história do senhor e gostaria de conversar, é possível?,pergunto.
- Claro, pode ser daqui a 10 minutos em frente ao estande da organização?, responde empolgado.
- Combinado!

Em exatos 10 minutos, Gustavo Melo aguardava no local combinado, fortemente agasalhado com roupas de lã e um casaco – já adaptado ao frio. "Eu larguei tudo em Recife. É uma loucura sem fim. Vim para cá em 2005 de forma despretensiosa e fiquei encantado com o que acontece em Passo Fundo", dispara logo de início. Três meses depois, o escritor já era morador da cidade. "Estou aqui até hoje, envolvido no Mestrado em Literatura", conta.

Pergunto sobre uma possível diferença quanto ao apego à literatura entre Passo Fundo e Recife e ele responde que são realidades incomparáveis. "Aqui há uma diferença gigantesca em relação a todo Brasil", compara. Em Passo Fundo, o trabalho do Mestrado reduziu o tempo do pernambucano dedicado à produção de livros. Com três obras publicadas, duas independentes e uma por uma editora paulista, o escritor pretende lançar mais uma de contos em breve.

Enquanto não concluí a publicação, Gustavo acompanha as dos colegas escritores. Nesta edição da Jornada, pretende aproveitar a oportunidade para pagar uma dívida antiga. Ele quer agradecer pessoalmente ao autor Ziraldo pelas influências transmitidas através de duas obras. "Na minha lembrança mais remota como leitor, lembro de estar lendo 'A turma do Pererê' e 'O menino maluquinho'. Isso contribui para minha formação como escritor e como pessoa".

Assim, finalizo essa primeira parte das minhas impressões sobre a Jornada Nacional de Literatura. De olho nessa manifestação cultural e na busca por curiosidades, ainda "invadi" o hotel dos escritores. E tem mais: três autores com recorde de presença em jornadas resolveram unir suas vozes e formar "os três tenores". Todos esses detalhes ficam para um próximo relato. Até mais.

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Labes, Marcelo
 

Guilherme, vai fundo! Imagino que deva haver muito, mas muito mesmo o que se escrever e ler - além dos convencionais parágrafos da ZH.
Lerei com gosto.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 30/8/2007 16:45
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Marcos Paulo Carlito
 

Você nos apresenta as pontas de um universo a ser desvelado... Cara, tua colaboração tem muita importância enquanto difusão cultural e arquivo Histórico de Passo Fundo e outras plagas Rio-grandenses.

Abraços!

Marcos Paulo Carlito · , PR 15/11/2007 02:15
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Cerca de 200 zoom
Cerca de 200 "jornadetes" acompanham os 100 escritores participantes da Jornada
Encantado com a jornada, o pernambucano Gustavo Melo mudou-se para Passo Fundo zoom
Encantado com a jornada, o pernambucano Gustavo Melo mudou-se para Passo Fundo
Além dos escritores, mais de 200 artistas participam da manifestação cultural zoom
Além dos escritores, mais de 200 artistas participam da manifestação cultural
Africano Mia Couto, vencedor do melhor romance, com a obra zoom
Africano Mia Couto, vencedor do melhor romance, com a obra "Outro pé da Sereia"

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Caravana da ilusão - Música da 12ª Jornada Nacional de Literatura

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