Semanas atrás, enfrentei a solidão das pessoas nessas capitais: fui ao cinema sozinho. Em cartaz no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, assisti ao filme Arábia (2017), dos cineastas mineiros Affonso Uchôa e João Dumans. Lançado como o vencedor na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada em janeiro, o filme estreou nacionalmente em 5 de abril, tendo conquistado diversos prêmios no 50º Festival de Brasília, além do prêmio de melhor filme da Abraccine.
Com essa carteirada de prêmios, o road movie mostra a história de vida e morte de Cristiano, um operário brasileiro que anda pelas cidades do interior mineiro, narrada por suas próprias e tímidas palavras, lidas pelo solitário e jovem morador da mesma Vila Operária, ao encontrar suas anotações após um acidente de trabalho.
Vemos a trajetória de um homem buscando um lugar ao sol, uma típica jornada de herói, porém proletária. As dificuldades de manter uma relação e as mudanças de lugar são fatores que expõem a solidão da humanidade moderna, em traços simples do cotidiano e de uma rotina repleta de desafios diários para o trabalhador que só tem sua força de trabalho para dar ao mundo.
Aristides de Sousa, que interpreta Cristiano, traz a simplicidade do cidadão mineiro, junto de um elenco realista, com sotaque do interior, nos apresentando a rotina da Vila Operária, onde o frio e o som das máquinas reforçam o ambiente da melancolia e da solidão presentes no filme. Uma perspectiva que recorda o Cinema Novo, como a experiência dos moradores das cidades onde Glauber Rocha filmou os célebres “Deus e o diabo na terra do sol” e “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”.
“Arábia” é peça chave na retomada do cinema brasileiro, marcado pelo desafio de superar as produções que servem como blockbusters regionais, carimbadas pela Globo Filmes e por roteiros de comédia plástica e padronizada, além dos filmes conceituais que fingem um cinema do Olimpo, longe do alcance dos seres mortais. Nem um, nem outro: “Arábia” é a síntese de um cinema realista, marca carimbada pelo Cinema Novo como a arte da representação do cotidiano do povo brasileiro.
Este povo brasileiro, esquecido pelo seu cinema, é reintroduzido em “Arábia”. A produção cinematográfica brasileira historicamente representou e construiu a imagem do povo brasileiro, que infelizmente foi esquecido pela indústria do cinema, desde a pornochancada. Em consequência, o cinema nacional foi também esquecido pela própria nação, junto do processo de construção desta arte como peça da indústria cultural e a padronização da estética e da cultura.
Exibido na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, “Arábia” traz mais uma esperança de reapresentar o cinema brasileiro ao mundo com uma roupagem que se distancia da visão construída pela experiência da pornochanchada e do cinema industrial, experiência que tem surgido com a inovação dos filmes contemporâneos, que têm disputado espaço na referência do cinema de arte no mundo inteiro.
Aos que têm interesse em navegar nos mares bravios do cinema brasileiro, pode confiar: ancorar-se em “Arábia” é um bom passo para retomar as braçadas neste cinema tupiniquim que ainda pode dar muito o que falar para a arte mundial.
Publicado originalmente em
https://jornalismoproletario.blogspot.com.br/2018/05/resenha-arabia-affonso-uchoa-joao.html
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