“Eu sou drogada, tenho 48 anos, uso crack, cocaína e maconha”. Sintia Alves dispensa muitas perguntas. Não qualquer Cintia, mas Sintia com S, como ela gosta de frisar. Diferente desde o momento em que foi batizada. Mostra os documentos médicos para provar a escrita do seu nome e a verdade de suas palavras. Ou quem sabe o papel legitime a sua existência no mundo. Existência que a muitos passa despercebida. Ao simples convite a uma conversa já começa a contar sua história com o despudor e a desenvoltura de quem não tem nada a perder.
Quem passa observa com espanto ao me ver conversando num ponto de ônibus com aquela mulher visivelmente maltratada pela vida. Carrega na pele as marcas da rua, a fuligem dos carros, a poeira da cidade. Magra, amarela, descalça. Com jeito de criança apesar dos cabelos brancos. Ela toda cheirava a fumaça, cheirava aos becos da cidade.
Paulista, do bairro da Prata, conheceu as drogas aos 18 anos com a irmã. Diz ter vontade de parar, mas não encontra forças. Aos 27, depois de uma briga com a família, veio para o Rio de Janeiro de carona. Sem dinheiro algum, pedia ajuda nos pontos rodoviários. Quando perguntada sobre a briga responsável por sua vinda, ela abaixa a cabeça e se cala. Instaura-se um longo silêncio entre nós. O silêncio só é interrompido pela pergunta que ainda se repetiria por muitas vezes: “Mas, você não tem mais moeda não?”
Ela diz ser bipolar o que descreve como “eu tenho bipolar, mudança de humor, fico com raiva, triste, fico alegre e eu choro”. Quando cai em depressão, fica dias sem comer e sem levantar. Sobre o que faz da vida diz com ar desolado “Eu não faço nada”. Mas, parece ter sido consumida pela pressa das ruas. Despediu-se várias vezes avisando que precisava ir com a inquietude de quem está em eterna busca de algo. Uma busca que nem ela sabe definir.
Sintia é “poética”, cantora de barzinho e compositora. Diz com orgulho que tem 2 livros publicados e vários CDs gravados. Os nomes ela não lembra. Mas, recitou um poema ininteligível cheio de rimas, com ar infantil como quem mostra orgulhosa aos pais a poesia decorada. A música, de sua autoria segundo ela, cantou sem desafinar:
“Vejo o sol aparecer
Natural como você
E eu quero te encontrar
Eu quero te falar
Seu jeito de viver
Livre como um pássaro que voa
Feliz como a brisa que sopra à toa”
“Gostou? Eu que fiz!”
Sintia conta que tem 3 filhos, um casal de gêmeos que já são casados com os quais ela não tem mais contato e um filho de 2 anos que ,segundo ela,é figurante da Globo e da Record. Ela já passou por vários abrigos, entre eles a Colônia Juliano Moreira. Voltou para as ruas. Por quê? Liberdade. A mulher que canta a liberdade de um pássaro que voa, parece buscar essa mesma leveza em sua vida, apesar da dureza da realidade.
Conheci de perto essa dura realidade, tentando ajudar uma viciada em crack ou duas, lhes oferecendo algo de bom, mas a maldade humana prevalece e hoje uma se prostitui pra ganhar a vida, alegando estar limpa, mas sempre aproveita pra dar mais 'umazinha'...
a outra eu e um amigo chegamos a internar e antes de sua franca recuperação, sempre a mantendo com roupas, carinhos e mimos, acabou fugindo da Instituição com outro drogado...
Não ajudo mais ninguém, eles que têm que se ajudar, mantendo-se 'limpos' ou não...
Viva ao Livre arbítrio, é deles a Decisão !
Parabéns por sua atitude positiva, Renata !
Um beijo !
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