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Sintia com S

Sebastião Salgado
1
Renata Melo · Nova Iguaçu, RJ
11/1/2012 · 10 · 2
 

“Eu sou drogada, tenho 48 anos, uso crack, cocaína e maconha”. Sintia Alves dispensa muitas perguntas. Não qualquer Cintia, mas Sintia com S, como ela gosta de frisar. Diferente desde o momento em que foi batizada. Mostra os documentos médicos para provar a escrita do seu nome e a verdade de suas palavras. Ou quem sabe o papel legitime a sua existência no mundo. Existência que a muitos passa despercebida. Ao simples convite a uma conversa já começa a contar sua história com o despudor e a desenvoltura de quem não tem nada a perder.
Quem passa observa com espanto ao me ver conversando num ponto de ônibus com aquela mulher visivelmente maltratada pela vida. Carrega na pele as marcas da rua, a fuligem dos carros, a poeira da cidade. Magra, amarela, descalça. Com jeito de criança apesar dos cabelos brancos. Ela toda cheirava a fumaça, cheirava aos becos da cidade.
Paulista, do bairro da Prata, conheceu as drogas aos 18 anos com a irmã. Diz ter vontade de parar, mas não encontra forças. Aos 27, depois de uma briga com a família, veio para o Rio de Janeiro de carona. Sem dinheiro algum, pedia ajuda nos pontos rodoviários. Quando perguntada sobre a briga responsável por sua vinda, ela abaixa a cabeça e se cala. Instaura-se um longo silêncio entre nós. O silêncio só é interrompido pela pergunta que ainda se repetiria por muitas vezes: “Mas, você não tem mais moeda não?”
Ela diz ser bipolar o que descreve como “eu tenho bipolar, mudança de humor, fico com raiva, triste, fico alegre e eu choro”. Quando cai em depressão, fica dias sem comer e sem levantar. Sobre o que faz da vida diz com ar desolado “Eu não faço nada”. Mas, parece ter sido consumida pela pressa das ruas. Despediu-se várias vezes avisando que precisava ir com a inquietude de quem está em eterna busca de algo. Uma busca que nem ela sabe definir.
Sintia é “poética”, cantora de barzinho e compositora. Diz com orgulho que tem 2 livros publicados e vários CDs gravados. Os nomes ela não lembra. Mas, recitou um poema ininteligível cheio de rimas, com ar infantil como quem mostra orgulhosa aos pais a poesia decorada. A música, de sua autoria segundo ela, cantou sem desafinar:
“Vejo o sol aparecer
Natural como você
E eu quero te encontrar
Eu quero te falar
Seu jeito de viver
Livre como um pássaro que voa
Feliz como a brisa que sopra à toa”
“Gostou? Eu que fiz!”

Sintia conta que tem 3 filhos, um casal de gêmeos que já são casados com os quais ela não tem mais contato e um filho de 2 anos que ,segundo ela,é figurante da Globo e da Record. Ela já passou por vários abrigos, entre eles a Colônia Juliano Moreira. Voltou para as ruas. Por quê? Liberdade. A mulher que canta a liberdade de um pássaro que voa, parece buscar essa mesma leveza em sua vida, apesar da dureza da realidade.

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alcanu
 

Conheci de perto essa dura realidade, tentando ajudar uma viciada em crack ou duas, lhes oferecendo algo de bom, mas a maldade humana prevalece e hoje uma se prostitui pra ganhar a vida, alegando estar limpa, mas sempre aproveita pra dar mais 'umazinha'...
a outra eu e um amigo chegamos a internar e antes de sua franca recuperação, sempre a mantendo com roupas, carinhos e mimos, acabou fugindo da Instituição com outro drogado...
Não ajudo mais ninguém, eles que têm que se ajudar, mantendo-se 'limpos' ou não...
Viva ao Livre arbítrio, é deles a Decisão !
Parabéns por sua atitude positiva, Renata !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 12/1/2012 14:54
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Renata Melo
 

Obrigada!

Renata Melo · Nova Iguaçu, RJ 17/1/2012 12:14
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