Bendito castigo aquele que os pais de Raimundo Carrero costumavam infligir ao filho travesso nas tardes quentes de Salgueiro, cidade do sertão pernambucano. Condenado a vegetar atrás do balcão da loja da famÃlia, longe das brincadeiras da rua, um dia ele descobriu por acaso uns caixotes largados à toa por ali. Era a coleção de livros de um dos irmãos mais velhos, empacotada depois que ele fugiu de casa junto com um circo. Shakespeare, Ibsen, Graciliano Ramos... Aquela tarde representou o primeiro encontro de Carrero com a literatura, um amor à primeira vista que o levaria, anos depois, a enveredar pelo romance e o teatro.
Hoje, em Pernambuco – e mesmo nacionalmente – sua fama como escritor de talento já está consolidada. Carrero, na verdade, já entrou naquela fase de receber homenagens e comemorar efemérides. Não é à toa que o jornalista Marcelo Pereira, editor do Caderno C (Jornal do Commercio), idealizou um projeto para comemorar as três décadas passadas desde sua estréia literária, com a novela A História de Bernarda Soledade – a Tigre do Sertão. Raimundo Carrero – Trinta Anos começou a despejar no mercado a partir do final de 2005 uma série de produtos em torno da data.
Quem primeiro chegou ao público foi o documentário Caçador de assombrações, dirigido pela cineasta Clara Angélica, lançado no formato de DVD. Com locações em Salgueiro, Verdejante, Orobó e Recife, esse vÃdeo de 28 minutos abre espaço para que o próprio Carrero nos detalhe sua vida e obra, ele que é um narrador nato, daqueles que cativam até numa mesa de bar. Sua risada larga pontua os passos de uma trajetória de inÃcio aparentemente contraditório: afinal, como um jovem saxofonista de grupos de Jovem Guarda envereda pela literatura tendo como padrinho nada mais nada menos que Ariano Suassuna, herói sem concorrência das correntes ultra-nacionalistas da cultura de Pernambuco? A resposta, caro navegante do Overmundo, está em Caçador de assombrações.
Marcelo Pereira também incluiu no projeto – apoiado pela CHESF – a reedição das três novelas iniciais do escritor, reunidas num único volume, O Delicado Abismo da Loucura, editado no final de 2005 pela Iluminuras. Apesar de serem obras de começo de carreira, elas trazem já consolidadas a marca do seu estilo, uma narrativa em tons trágicos, de personagens quase bÃblicos, elementares. Dois romancistas de tempos e espaços diferentes, influências assumidas nas entrevistas que dá, explicam muito do que se encontra aqui: Dostoievski e Jack Kerouac trazem, respectivamente, os dramas éticos, religiosos, e a busca da (beat)itude na literatura e na vida, constantes em Carrero.
A novela que abre o livro e motiva a festa (Bernarda Soledade...) quase pirou o jovem autor. Numa entrevista recente ele contou a esse colaborador: “Um dia, eu paro numa banca de revista – um menino de 23 anos – e tem duas páginas da Veja comigo, elogiando. Meu amigo, eu perdi a tramontana. Eu não sabia escrever mais, travou!â€. A crise durou oito anos e só terminou com As sementes do Sol semeador. Logo em seguida, veio A dupla face do baralho, produto de um sonho estranho: “Eu tava na Conde da Boa Vista e aà vi meu cunhado e meu padrinho, já morto. E aà eu passei perto dele e ele não falou comigo. E como sonho é um negócio de doido, eu me imaginei falando: só porque morreu não fala comigo. Então ele volta e diz assim: não falei com você porque eu vim lhe avisar que você vai morrer em 15 dias. Aà eu acordei chorando e pensei: bom, já que vou morrer, vou escrever uma novela. Eu morro, mas escrevo uma novela.
Raimundo Carrero escreveu A dupla face... e continua vivo até hoje, para a felicidade dos leitores e de seus amigos.
Gostei! Já tinha ouvido falar (e muito) no Raimundo, mas ainda não li nada dele. Vou correr atrás.
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 30/5/2006 07:36Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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