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Um festival para os independentes

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Roberta AR · Brasília, DF
16/10/2006 · 44 · 1
 

Provavelmente a cena mais fértil do Brasil hoje, Goiânia foi a sede da Trash – 3ª Mostra Goiana de Vídeo Independente, que aconteceu nos dias 15,16 e 17 de setembro.

Trash - 3º Mostra Goiana de Vídeo Independente

Na capital do estado de Goiás, no centro geográfico do país, foi realizada a 3ª mostra de vídeo independente da cidade. A 1ª Mostra Goiana de Vídeo Independente aconteceu em 1999. Desde a primeira edição o evento tem caráter não-competitivo e começou a ser espaço para obras que jamais haviam chegado aos olhos e ouvidos do público.

Em 2005 foi realizada a segunda edição da mostra que teve 79 vídeos exibidos vindos de São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Distrito Federal, Paraná, Tocantins, interior de Goiás e, principalmente, da própria Goiânia. Esta edição teve a presença de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que ministrou um workshop que resultou no curta "As Injustiçadas", exibido na Trash deste ano.

O que era a intenção dos organizadores, e que se comprovou na prática, a Trash em 2006 foi um espaço de veiculação de trabalhos autorais totalmente descompromissados com os formatos comerciais pré-estabelecidos.

Os filmes


Hoje em dia a máxima "uma idéia na cabeça e uma câmera na mão", o clichê dos clichês da produção independente, pode ser considerada em seu extremo. Qualquer pessoa tem acesso a uma câmera, todos os computadores já vêm com programa de edição de vídeo e qualquer vídeo tem acesso a mostras como a Trash.

Claro que existe uma seleção prévia, mas pudemos assistir a filmes profissionais e amadores feitos por pessoas de todas as idades, até eu mesma tive vídeo na mostra (Pombos Comem Carne, que pode ser visto no www.facadaleitemoca.blogger.com.br ou no youtube.com/user/facadaleitemoca).

Foram vídeos de Goiânia, claro, Distrito Federal, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espanha e Estados Unidos. Nesta edição, além dos vídeos de vários estados, foi possível ver videoclipes independentes.

Uma maratona com o melhor e o pior do gênero. Uma oportunidade de ver Afonso Brazza, o cineasta-bombeiro de Brasília, que fez sucesso com seus filmes de ação, falecido em 2003. Em "Gringo não perdoa, mata!" é possível experimentar seu roteiro cheio de floreios, quase sempre desconexos, e suas mortes espetaculares, perfeitas para os adoradores de faroeste.

A clássica animação de Otto Guerra "Rock e Hudson - Os Cowboys Gays", com os personagens de Adão Iturrusgarai, também foi apresentada na mostra.
Ah, e um grande número de filmes de Ivan Cardoso.

Ivan Cardoso

Foi possível assistir a muitos filmes de Ivan Cardoso, criador do gênero Terrir e grande homenageado da Mostra. O "Segredo da Múmia" e sua recente continuação "O Sarcófago Macabro", seu documentário "O Universo de Mojica Marins" e o "Escorpião Escarlate" foram exibidos dispersos em várias sessões. Porém todo o destaque foi dado à chamada premiere de seu mais novo filme "Um Lobisomem na Amazônia", apesar do filme já ter sido exibido em mais de dez festivais mundo afora, segundo o próprio Ivan Cardoso.

O filme traz no elenco Danielle Winits, Evandro Mesquita, uns tantos outros globais, Sidney Magal, como um sacerdote inca, e Paul Nachy, o mais famoso lobisomem espanhol. A aparição de Sidney Magal no filme é o momento de maior frisson dos espectadores, o que causou espanto em Ivan Cardoso, que havia convidado para o papel o cantor Cauby Peixoto, que não tem feito mais aparições públicas e recusou. Ele afirma que chegou a achar que o papel de Magal, que canta uma profecia inca para a personagem de Danielle Winits, seria um verdadeiro fracasso. Quem quiser saber mais sobre o filme, que deverá entrar em circuito comercial no fim deste ano, é só entrar no site oficial: http://www.umlobisomemnaamazonia.com.br .

Momento polêmico do bate-papo com o público foi quando Ivan Cardoso defendeu que só é possível fazer cinema em São Paulo ou no Rio de Janeiro, onde estão as grandes produtoras e todos os laboratórios de manipulação de película do Brasil. Ele defendeu que não é viável comercialmente fazer cinema nos interiores porque não há estrutura nem profissionais em quantidade suficiente. Algumas pessoas ficaram bastante incomodadas com a defesa do diretor, mas estávamos num mostra de vídeo, formato absolutamente democrático e que não foi escolhido por acaso pelos organizadores do evento. Então, qual era realmente o problema?


Bastidores

O público da mostra era dos mais jovens que eu já vi num evento desses. Os organizadores até brincaram: "estamos criando o público do amanhã". E parece mesmo que é isso que está acontecendo em Goiânia.

Gente jovem produzindo vídeos e com espaço para exibi-los. Montando suas bandas e com lugar para divulgar. Goiânia tem dois dos festivais independentes mais importantes do Brasil: o Bananada e o Goiânia Noise. Os dois produzidos pelos mesmos organizadores da Trash e que são também a turma da Monstro Discos. Para quem não conhece, a Monstro Discos é dos mais importantes selos de música da atualidade, agora entrando no mercado europeu.

Nas barraquinhas dos expositores no lado de fora da sala de exibição podia se encontrar muitos ilustradores da cidade, grande parte deles fazem parte do grupo da Voodoo, nova revista de quadrinhos, também produzida na cidade.

No editorial da primeira edição os voodoos explicam a que vieram: "Preste bem atenção: esta é uma revista movida a ódio. Não aguentamos mais artistas plásticos cheios de opinião, publicitários engomadinhos, cineastas que nunca fizeram um filme, webdesigners analfabetos e quadrinistas cujo sonho é usar um nome em inglês pra desenhar super-herói vagabundo lá na gringa. Estamos de saco cheio! E por isso resolvemos fazer VOODOO!".


Shows

No finzinho da programação do sábado foi realizada a festa Trash, com bandas de vários estados. Destaco o show do Rock Rockets que conseguiu botar para quebrar, num show muitíssimo empolgante.

Tocaram também Macakongs 2099, de Brasília, com um show hardcore de responsa, Os Legais, de Santa Catarina, Morangos Mofados, do Rio de Janeiro, e a banda local Johnny Suxxx and the Fucking Boys.

No domingo os participantes do workshop sobre o Terrir, ministrado por Ivan Cardoso, mostraram o seu trabalho e houve apresentação de vídeos até às 18h.

Ufa! Uma programação e tanto. Agora é só aguardar a próxima.

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Thiago Camelo
 

Muito bacana Roberta, obrigado por contar de modo bastante completo como foi o evento e falar um pouco sobre a cena cultural daí!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 13/10/2006 19:13
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