O toque da corneta não era apenas uma música no fim do dia. Representava um ritual de encerramento dos trabalhos, anunciando o tão desejado descanso. Era um lamento profundo cortando a noite, como que a condensar a tristeza coletiva numa sequência de acordes tristes – o choro do dia. Nesta hora, a reflexão invade a mente indolente, que já não governa os pensamentos. Expõe-se a fraqueza do homem, que assume a temida capitulação perante o meio que o cerca. Aquele ambiente tenso não lhe parecia injustiça, tampouco exclusividade. “Só os mais fortes sobrevivem.” – este é o lema da seleção natural. E não era assim em todas as funções ? Talvez, mas aquele universo tinha algo de particular em sua capacidade de cercear. Por suas limitações físicas, mas principalmente pelas intangíveis. Era o preço da prontidão, seria ingenuidade ponderar. Alguém tinha que viver daquela forma para estar preparado para o pior.
A rotina maçante poderia ser sintetizada em três tipos de atividades: disciplinares, intelectuais e físicas. Havia tempo pré-determinado e programação detalhada para todas elas. Nada era esquecido, tudo era planejado. Assim como o comportamento esperado daquela pequena amostra em laboratório. Pois não é o homem um produto do meio, pelo menos em grande parte ? “É de pequeno que se espreme o pepino.” – costuma-se dizer. Pois desta forma se forma mais cedo, sem riscos de defecções tardias. Afinal, elas custam caro e são sinal de fracasso. Entretanto, quero ressaltar que não considero minhas argumentações como a expressão da verdade - sequer acredito que ela exista. E agrava ainda mais minha situação o fato de eu ser de uma espécie diferente, desfilando solitário por aquelas construções do homem, a tecer ácidas críticas a seu modo de vida.
Mas não me furto a imaginar em que aqueles jovens estariam pensando ao deitar. Haveria libertários desejos povoando-lhes as pretensões imaginárias no recolhimento de mais um dia ? Haveria tristeza, revolta, angústia ? Que origem teria esta dor disfarçada que conduzia muitos a uma espiral de divagações ? Uma delas, com certeza, seria o medo. Não só o medo de enfrentar situações agressivas ou insólitas. O medo era mais profundo, ia além, posto que residia no receio da conversão à força - esta só não dói quando é espontânea. E a que receavam se converter, que filosofia lhes causava tanto pavor ? Não saberiam ainda responder, tão jovens e imaturos eram. Mas um fato ocorrido certa tarde no píer marcou-me de tal forma que sua lembrança emergiu continuamente durante semanas, como cena de um filme defeituoso a se repetir sem controle.
- Setenta e oito, venha cá !
- Sim, senhor !
- Chega aqui, mais pra frente ! Rápido !
- Sim, senhor !
- Está vendo essa água azulzinha ? Pula nela, agora !
- Como, senhor ?
- Não me ouviu ? Tá surdo, idiota ? Pula !
- Senhor, desculpe, não estou entendendo. O senhor quer que eu pule e vá depois todo molhado pra formatura ?
- Por acaso eu tô falando outra língua ?!?
- ...
- Vem aqui, deixa eu te explicar uma coisa. Eu jamais ia deixar você pular, seu imbecil ! Era só pra te testar. Quando chegasse perto da ponta, eu ia mandar voltar. Mas você tinha que obedecer. Você sempre tem que obedecer ! Agora, vê se entende uma coisa de uma vez por todas: você não pode questionar !!! Entendeu ? Você está aqui pra cumprir ordens, não pra raciocinar !
Aquilo me encheu de uma profunda melancolia. Entretanto, sei exatamente o meu lugar e meus limites. Invasor solitário e dependente da boa vontade alheia, não me cabe julgar os acontecimentos do mundo dos homens. É mais fácil e coerente guardar estas ideias heréticas para outros como eu, e continuar a representar o papel de sempre para obter algum alimento. Às vezes, consigo até o improvável: um afago dos mais sensíveis. Disfarçadamente, passam a mão sobre minha cabeça, enquanto abano o rabo. Não deveriam se envergonhar do que sentem.
Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".
Obedecer ou não.Quando a gente engrena você acaba o texto.É assim que é bom não.A emoção!
camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 12/5/2010 15:06Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!