MODO DE APANHAR PÁSSAROS A MÃO

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Alexandre Santos · João Pessoa, PB
1/11/2006 · 106 · 0
 

É incrível a capacidade da escritora Maria Valéria Rezende de me impressionar. Conheci-a nas reuniões d’O Clube do Conto da Paraíba e confesso que, ao primeiro contato, fiquei maravilhado com sua leitura inebriante e seus contos que conseguem transportar à minha cabeça todas as cenas, imagens e falas de seus personagens.

Aparece-me então com o romance O Vôo da Guará Vermelha que, ao ler a última página, corri para descrevê-lo em artigo. Fechei o artigo dizendo o seguinte: Ler “O Vôo da Guará Vermelha” e não sentir-se outra pessoa é praticamente impossível. Este livro é um convite à mudança. À medida que as personagens vão se descobrindo, o leitor também se descobre, assim, os dois caminham lado a lado, revelando ao outro, e a si, suas capacidades de mudança. O leitor, certamente, não será o mesmo após devorá-lo até a última página.

Agora, Valéria presenteia-me com Modo de Apanhar Pássaros a Mão, um belíssimo livro que reúne dezesseis contos. Nele, a autora mostra sua indiscutível habilidade de passear pelo campo das emoções. Percebe-se facilmente nos contos Viaduto, A Princesa de Tróia, A Bicicleta e O Sonho e o Tempo, nos quais brinca com o leitor, fazendo-o saltar de sentimento em sentimento e só perceber ao final da leitura.

Em Desejo, Maria Valéria retira todo o fôlego do leitor ao propor uma leitura rápida, sem pontos. Neste conto, o motoboy Carlinhos corta as avenidas de São Paulo em alta velocidade para saciar o desejo de sua esposa grávida. A leitura, portanto, torna-se imprescindível, ao passo que se leitor tomar nem que seja uma pontinha de ar, não consegue acompanhar a moto e a personagem.

Três contos, porém, merecem certa atenção: Dilema, Sagüi (os dois primeiros contos do livro, respectivamente) e Melodrama ou A Noiva da Noite (o último conto do livro).

Em Dilema a autora questiona a vida literária através da personagem Alícia Maria Cordeiro Lobo, que dedicou sua vida ao fazer literário, sendo capaz de largar noivado e carreira acadêmica. Porém, Alícia tem seu romance rejeitado, e ganha a vida fazendo revisão em livros de novos escritores. O dilema real aparece quando a vizinha de Alícia morre e deixa para ela um romance inédito, "O livro que Alícia daria tudo para ter escrito, que de tal maneira a fascina que nem lhe dói a constatação indiscutível de que seu próprio romance está longíssimo da genialidade". Alícia vê-se então pega no maior dilema de sua vida: publicar o livro assumindo a autoria e tornar-se famosa ou continuar a revisar os livros dos outros?

Já Sagüi é um capítulo do segundo livro de Valéria (O Vôo da Guará Vermelha, citado logo acima). Neste conto, a personagem Irene lembra uma traumática passagem de sua infância, quando, sem querer, mata enforcado o sagüi que cuidou e ajudou a curar quando doente. Irene hoje é uma prostituta contaminada pelo vírus da Aids, sem clientes – pois “muitos homens não querem nada com camisinha, vão procurar outra” – e tendo que dar dinheiro para a velha que cria seu filho. O conto traz a crítica em forma de questionamento; quantas Irene existem por esse Brasil?, quantas mulheres machucadas pela vida sofrem aos cantos por aí?

Melodrama ou A Noiva da Noite é um conto trágico em meio à alegria do carnaval carioca. A personagem central, Aurélia, ama Orestes, que ama Rita e é correspondido. Rita é o destaque da escola de samba este ano, vestirá a fantasia A Noiva da Noite. Orestes é marinheiro e parte em viagem prometendo a Rita que voltaria. Rita entrega-se então aos braços do Alemão. Quando Orestes volta, no dia do desfile, Aurélia rouba a fantasia de Rita e se faz passar por ela. Quer apenas prender o olhar apaixonado de Orestes em seus olhos, para assim, poder tecer sonhos, fantasiar um amor correspondido.

Na contracapa do livro encontra-se a seguinte frase: “A cadência narrativa deste livro envolve, desarma, e então nos golpeia com uma delicadeza fulminante.” E é por essa magia tão envolvente, essa poesia presente nas personagens, que faço de Modo de Apanhar Pássaros a Mão uma leitura mais que recomendada, necessária.

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