Ai, meu São Francisco!

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gilbert daniel · Internacional , WW
14/12/2013 · 1 · 0
 

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Só sei que eu não gosto de nada. Minha cara amarrada. Não consigo entender o frenesi entorno de não sei o quê. Um sujeito deslocado como eu não pode ter ilusões, não tenho esse direito, entende?
Eu deveria escrever sobre a Ivete Sangalo. A moça tá fazendo o maior sucesso. Ahã.
Também poderia comentar a prisão do governador Arruda.
Mas não quero falar dessas coisas. Podem me chamar de alienado, individualista. Não me importo. Eu sou assim. O sujeito que publica um livro de crônicas inéditas. Meu método consiste em guardar e esconder anotações esporádicas em pedacinhos de papel espalhados pela casa em gavetas, armários, caixas de sapatos e entre contas atrasadas de condomínio. Não consigo escrever direto no computador. Nunca consegui. Preciso do contato que o papel e a caneta proporcionam, algo concreto, que mancha, rasga e apodrece. Vivo.
Não vem ao caso mas quem se importa. Me lembro do meu primeiro dia na escola como o abandono. Pra ser sincero, não passei de um menino mimado com tudo pra ter uma infância razoavelmente feliz, mas que insistia em não conseguir – pior que recusar – participar da festa.
As pessoas não entendem, confundem as coisas. Ficção não tem nada com vida real. Isso eu também roubei do Deleuze. É uma arquitetura improvável, sem limites, pelo menos no meu modesto caso. Queria fazer a linguagem gaguejar – outra vez, Deleuze. Mas tenho apenas este quintal. Kafka fazia a linguagem gaguejar, entretanto, o autor tcheco era e é um cosmos. Tenho consciência do meu terreiro, do meu barracão de fundo, minha quitinete.
O uísque começa a fazer efeito.
Certa vez me perguntaram se eu consigo escrever depois de beber. Respondi que sim, não vejo problema em misturar essas duas coisas. Entretanto, o difícil é depois da bebedeira decifrar a minha ‘‘caligrafia’’. Trabalho é trabalho, me desculpe a obviedade. Digo isso porque parece que ninguém entende, afinal não fazem idéia da canseira que dá escrever um livro. Trabalhar com palavras é um castigo, um suplício. Mas o divertido é confundir ainda mais a cabeça de algumas pessoas.
A rede para deitar, uma bebida, caneta e papel. Eu sou uma fraude total, invejoso e contraditório no pior sentido. Uma invenção literária, Silvana Bambalalão e a casa assaltada.
Deleuze, pela terceira vez. Não se faz literatura falando da vida particular. Ficção é outro departamento.
Ai, meu São Francisco. Por que eu não nasci vendedor da TV Polishop?
Por que eu não dancei com Jussara, nem namorei Lucy Peanuts?
Meu São Francisco... por quê?
Ivete Sangalo, a musa do carnaval. Todo brasileiro é baiano.
Uma pergunta ainda me assombra e me tira o sono. E se a ‘‘má companhia’’ for a gente mesmo? Quando a ‘‘pessoa errada’’ é a própria em questão, o que fazer?
O mais ridículo e improvável. Suicidar-se com um coquetel de florais e bolinhas homeopáticas.

Sobre a obra

Crônica vadia

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Autoria
Gilbert Daniel
Ficha técnica
crônica
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