Finalmente cansei daquela porcaria que era a televisão. De manhã era programa infantil e culinária em todos os canais, depois o jornal que escorria sangue ou se travestia de revista de variedades sobre amenidades e baboseiras. Finalmente de noite novela em todos os canais, depois seguidas dos reality shows mais insuportáveis que se podia pensar. Tinha aquele das pessoas idiotas trancadas num apartamento, o das pessoas idiotas trancadas numa granja, o das pessoas idiotas trancadas numa praia, o das pessoas idiotas trancadas numa empresa ou num estúdio fazendo papel de ridÃculo. Tédio e estupidez, nada mais, o que me demonstrou que a tevê não servia somente para idiotizar aqueles que a assistem, mas também aqueles que produzem seu conteúdo.
Finalmente joguei o aparelho no lixo e voltei a me informar do mundo como antigamente, batendo papo com os vizinhos. Certo dia estou chegando em meu apartamento e meu vizinho de porta, o renomado médico doutor Lefácio, me pergunta: Tudo bem? Está difÃcil esse problema das baratas, não? Cumprimento ele e concordo, sem saber ao certo do que aquele homem estava falando.
No dia seguinte, venho chegando de noite e noto um carro preto estacionado na frente da porta do prédio, bloqueando a passagem. Que grosseria alguém parar aqui, penso eu, e dou umas batidas na lataria do veÃculo para chamar a atenção.
Mas aà o som estranho, uma batida oca, ao invés de som metálico, como se houvesse atingido uma grande casca de madeira ou queratina, e o visco grudento em minha mão. Logo as patas se esticam e a gigantesca barata olha em minha direção e foge, para um imenso buraco cavado no jardim.
Entro em casa correndo, em pânico. Lavo a mão enojado umas cem vezes. Depois jogo água sanitária. Depois álcool. Penso até em flambar a mão, mas logo reconsidero e bebo o álcool, para esquecer aquilo tudo.
Acordo na manhã seguinte já mais conformado e ligo para uma empresa especializada, Dofa exterminadores, dizia o anúncio. Eles trazem um tanque de um veneno poderosÃssimo, cubeta tosgosa, e me garantem que o problema estará resolvido.
De fato, nunca mais vi o inseto. No mês seguinte encontro aquele mesmo vizinho que dessa vez pergunta: E o rato, hein? Que problemão, né?
Concordo e entro e logo em seguida imagino o tamanho que o rato deve ter, se a barata já era maior que um fusca. Faço as malas e decido ir embora. O problema de morar em capital é que tem pragas demais se hipertrofiando ao sugar o governo.
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