BILLIE HOLIDAY

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Elaine Pauvolid · Rio de Janeiro, RJ
13/8/2008 · 59 · 1
 

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BILLIE HOLIDAY

Encontraram a porta aberta. O apartamento estava em ordem e em cima da mesa de centro algumas folhas de papel, uma máquina de escrever e nela a última página do que se segue:

“Em primeiro lugar, direi meu nome. Chamo-me Manone. Tal me foi me dado à época de meu nascimento. Conto desta forma porque foi a visão de meu rosto que fez que minha mãe sussurrasse: Manone. Logo após, ocorreu o seu falecimento.
No entanto, a história que quero passar-lhes é bem mais antiga e, garanto-lhes de início, que bem mais interessante. Trata-se de meu avô João Antônio, ganhador de todos os torneios de dama, judô e o melhor em carteio da roda que freqüenta. Roda composta por pessoas de alta estima.
Ainda ouço o som seco, meio fosco da vitrola com Billie Holiday. Meu avô gosta destas extravagâncias e me foi inserindo nelas assim, perdoem-me a rima, desde a infância. Em verdade, quero contar-lhes sobre ele. Nascido na cidade pequena de uma Minas Gerais desconhecida mesmo para mim, criou-se entre bezerros, milho, serestas e colos negros aconchegantes. Depois disso, como todo garoto assim nascido, foi para a escola de padres tornar-se mais um. Do mesmo modo saiu depois de já ter colhido os conhecimentos da formação. Tomando outro rumo, ingressou na faculdade de Filosofia, o que desgostou um pouco a sua mãe. Esta, já conformada com a falta de ver um padre na família (por sinal um padre por ela parido, o que seria a honra triplicada pela graça do Espírito Santo, e que quando ela assim pensava subia-lhe um frio na espinha, e algo que se espalhava no couro cabeludo, coisa que ela explicava como sendo o efeito da sina não cumprida.), reivindicava, ao menos, o direito roto de ter um advogado na família. Não precisava nem ser juiz, ela completava levantando as mãos gorduchas e vermelhas.

Ele persistiu e seguiu, assim, seu curso de filosofia. Mudou-se para o Rio de Janeiro. Preferiu uma pensão à república tão comum nestes casos. É que, explicou mais tarde, conhecia um rapaz que também largara o caminho da batina e fora empregar-se num escritório na Cinelândia. Este se tornara um aprendiz de jornalista, e era nesta pensão que morava. As tias vieram a comentar várias vezes, em vários almoços esticados até o lanche das seis, que tal moço enchera a cabeça do (delas) garoto e por isso arrasara a família, principalmente a mãe, pegando a todos de surpresa, tomando outro rumo assim na vida. E completavam: como se já não bastassem os problemas de uma outra lá tia. Bom, foi na pensão que meu avô conheceu Billie Holiday.


(se estiver gostando do texto, você pode continuar sua leitura baixando o arquivo que está disponível nesta página para vc)

Sobre a obra

um texto que tenta ser simples para falar das coisas simples, que se desenrolam de forma nem sempre simples...

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elaine pauvolid
www.elainepauvolid.net
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

lindo texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 15/8/2008 11:23
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