Aqui de novo neste território. Sento prum expresso e já na primeira golada queimo a lÃngua. Durante a degustação penso nas prioridades do dia e vejo que estou atrasado na entrega dum trabalho.
O sacrifÃcio é o de coletar dados para uma investigativa que me foi solicitada: tento encontrar no meio desta multidão toda, uma pessoa, primo de um cliente que a muito tempo trabalha aqui, mas que ela não consegue rever. Só sabe que trabalha aqui. As caracterÃsticas: homem, moreno. Só.
Passo a observar todos os que possuem esta caracterÃstica e vejo que terei muito trabalho, então vou selecionando, fazendo triagem.
Desde a semana passada venho me preparando para esta tarefa. Venho, olho as pessoas, fito-as pela feição e procuro perceber algum traço semelhante aos do meu cliente, que sei apenas, que além de ter as mesmas caracterÃsticas pedidas, é cego.
Perambulo pelos corredores e entro em todas as lojas que possam ter um homem trabalhando. Desde as lojas de brinquedos, que nesta época do ano estão absurdamente lotadas, até os fast-foods. A cada loja que entro percebo que estou procurando agulha no palheiro e vi que estava andando à toa. Precisava de mais pistas. Resolvi então, convocar mais dois grandes colegas de profissão para me ajudarem no caso e fizemos uma reunião ali mesmo na praça de alimentação.
Durante a nossa conversa, olho em direção a saÃda dos sanitários e vejo um jovem, estatura mediana, moreno e que me chamou a atenção. Acompanhei seus passos desde que saiu do banheiro até quando sumiu pelo corredor. Deixei meus colegas ali na mesa enquanto fui seguir o rapaz.
Ele entrou numa tabacaria, mas não me pareceu cliente, apesar de ficar olhando pros cachimbos expostos na prateleira. Eu fui entrando e dizendo boa tarde.
- Tudo bem amigo. – disse um atendente.
- Tudo. Estou dando uma olhada.
- Fique à vontade.
Enquanto eu fingia olhar para os produtos expostos, o rapaz do qual eu havia desconfiado passa para o lado de dentro do balcão e diz ao atendente:
- Quando acabar aÃ, separa um daqueles cachimbos pra mim.
Nunca vi meu cliente fumando, mas mesmo assim não desisti, e perguntei:
- É presente?
- É pra uma pessoa muito especial, mas que não fuma.
- E porque vai dar um cachimbo pra uma pessoa que não fuma?
- É pra um primo meu que a muito tempo não vejo. Ele gostava de ver a fumaça subindo e sumindo no ar, mas ficou cego.
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