Cadeirinha

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Diogo Mendes · São Paulo, SP
12/8/2016 · 0 · 0
 

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Pinga. Pingueiro. Pinga. Pingueiro.
Água que pássaro não beberia.
Pingueiro. Pinga. Pingueiro. Pinga.
Talvez beba.
Pinga-pinga.
Ela, tirou de evidência as carregadas remelas, levantou do colchão de casal, suado e usado, nas mesmas proporções que se colidem, também banal, só chover, que a conhecida goteira aparecia, inoportuna, no canto do quarto. Pisou devagarzinho, um pedacinho do papelão colado na janela abriu-se, retinas inflamadas para o próprio destino, Distrito.
Comentou sem tirar os olhos da janela.

- Cadeirinha... Oia, seus filhos aqui drumindo e cê, fidido lá num sei onde... Chega bebum e quer... Aí, seu bebum!

Aproximou-se das duas crianças que dormiam em um outro colchão, esse de solteiro.“ Seus fiós aqui com frio e você bebendo. Ai seu filho de umazinha! Até me lembro em que pancadão a gente se pegou ”, pensava.
Um inseto, longe lembrava uma barata, perto assemelhava um besouro, quem sabe a insinuação das luzes, proporcionou um terceiro ser, inominável. Testemunha que coreografava nos limites do colchão e a parede.

- A casa caindo bicho! O Distrito fechou, pro cê, Cadeirinha. Seu filho de uma! Hoje, quando chegar...

Andou para o outro lado: “ Vou bater nos seus braços, porque nas pernas eu num bato. Nas pernas ninguém bate... Tadinho ”, refletiu.
Decidiu agachar.

- Depois do acidente, o Cadeirinha só quer a pinga... Pior, vou dar bola pro Netão, ele é gente fina e arrasta a asa pra eu. Se o Cadeirinha continuar zuando comigo vai ver.

O ranger da cadeira de rodas despontava.

- Vai ter que pedir muita moeda no sinal. Pra eu desculpar ele. Fazer muita cara de tadinho, pros podres poderosos...

“ Vou ter que pensar uma desculpa bem boa, ixi dessa vez minha casa vai cair ”, planejava Cadeirinha que começou a bater um caneco que carregava junto da cadeira de rodas.

- Mori, minha morena, é que eu tava conversando com o pessoal na frente do pancadão.
- Cê num é um homem casado?
- Minha vôzinha disse que samo amasiado...
- Seja o que for, eu que durmo com você, Washington Jackson de Oliveira.

A cadeira rangeu, de pé Drika tomou o primeiro grito:

- OIA SEUS FILHOS NO CHÃO TÁ VENDO?
- O QUE TEM, DRIKA?
- SÓ EU QUE TRABALHO DE VERDADE, TOU CANSADA...
- TAMBÉM, DRIKA...
- SABE O QUE DESCOBRI? VOCIÊ SÓ FICA OLHANDO MULHERADA... TOMA JEITO!
- AI DOEU, DRIKA!

Receberam leves tapas, os braços de Cadeirinha à medida que as vozes regularam. Drika continou.

- Safado... Vagal...
- Você ama, não é?
- Pari!
- O quê?
- Acho que ouvi um barulho estranho...

Aparentemente assustada, Drika se aproximou da janela, agora tendo medo de abrir a retina que disparava para o Distrito. Perguntou Cadeirinha.

- Moramo onde, quer o quê?
- Tou com medo vai ver.
- Eu, esse pobre a...?
- A... que adora um decotão, né?
- Pra isso...
- Washington, vai ter que pedir muita moedinha no sinal. Tá me ouvindo?
- Eu não ando, mas escuto que é uma beleza.
- Ainda se continar mancando comigo vai perder essa última qualidade.

A cadeira enroscou, enroscou, enroscou, enroscou, enroscou, enroscou na soleira da porta. Após voltando a ranger lá fora.

- Amori, não tem nada aqui!
- Cadeirinha... Tem sim.
- O quê?
- Você!

Até o dia seguinte ficou no sereno, enquanto a manhã principiava. Um grupo de cachorros vira-latas brincava na estrada sem asfalto. Ele terá que pedir muita moeda; única certeza.

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