China e Japão: do século XIX à situação atual

Tokyo Times/Reprodução
2
Leonardo Pujol · Porto Alegre, RS
25/8/2014 · 2 · 0
 

Ao longo de sua história, tanto a China quanto o Japão passaram por grandes transformações. Processos que tiveram interações (ainda que algumas não muito cordiais) entre si, salpicados pela influência do mundo ocidental. Relativamente próximos, separados por apenas uma estreita faixa de mar, atualmente os dois titãs, países que estão entre as cinco maiores economias do planeta, mais se bicam do que nunca. Os motivos principais são disputas territoriais e interesses domésticos, mas bem se sabe que as interpretações diferentes de fatos históricos são o principal trauma. São feridas antigas remoídas de um passado doloroso, que coloca em risco a relação atual entre ambos.

As disputas do século XIX atracavam nos portos

Em 1854, no auge do expansionismo americano no Pacífico, o comandante Matthew Galbraith Perry viu no Japão um local importante para as estratégias dos EUA. Por isso, o comodoro estadunidense forçou a abertura do comércio japonês bombardeando os portos do país. Naquele tempo, a república japonesa era comandada pelo regime feudal do xogunato, que não tinha um poder centralizado. Com a ação dos “navios negros” de Perry, ficou evidente a fraqueza do Japão para enfrentar ameaças externas, resultando na desmoralização interna do xogum e, consequentemente, a deflagração de uma crise no sistema político japonês.

O abalo provocado pela chegada do regime americano deu origem ao movimento de industrialização intitulado Restauração Meiji (1867-1868), que possibilitou a centralização política do Japão através do imperador Mutsuhito. Essa reação japonesa conduziu o país a desenvolver o próprio expansionismo imperial, atingindo ilhas oceânicas e outras regiões asiáticas, como por exemplo, em 1895, quando as tropas japonesas desembarcaram na China e conquistaram o arquipélago de Taiwan.

Na época, a política chinesa estava instaurada sob um país de sequelas. Vinha de duas guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860) contra o Império Britânico e da Guerra Sino-Francesa (1884-1885). A primeira originou o Tratado de Nanquim, que determinou a cessão de Hong Kong à Grã-Bretanha por 155 anos e a abertura de cinco portos ao comércio internacional – que concedia a vantagem de mão de obra barata e disciplinada. Mesmo sem muita autonomia, economicamente falando, a China ainda exercia influência em outra região, a Coreia, uma soberania registrada por séculos. E o Japão, como país recém emergente, voltou sua atenção para lá.

Antes de chegar a Taiwan, os japoneses perceberam que a Coreia poderia ser o fornecedor da matéria prima necessária para sustentar o novo regime capitalista, como o carvão e minérios de ferro. Ao chegarem à região coreana, o Japão conseguiu após alguns incidentes impor o Tratado de Ganghwa (1876), obrigando a Coreia a abrir comércio aos estrangeiros com o objetivo de proclamar sua independência da China. É importante frisar que esse militarismo agressivo do Japão reconstruído estava integrado na esfera americana que, agora juntos dos Tigres Asiáticos (Coreia e posteriormente Taiwan), controlava a Ásia insular e peninsular do Pacífico.

Enquanto isso, os chineses perdiam moral, muito embora tivessem um exército bem equipado para lutar pelos seus propósitos, os chamados qings, modelados e treinados de acordo com o padrão ocidental. O problema é que a China, mesmo com sua tropa especializada, perdeu a Primeira Guerra Sino-Japonesa (onde foi forçada a ceder Taiwan e reconhecer a independência da Coreia) e a Guerra Sino-Francesa (em que os chineses apoiavam o Vietnã para impedir a anexação de regiões vietnamitas para os franceses).

Essas perdas de território levaram o regime chinês a um colapso. Ao mesmo tempo em que assistiam o Japão ascender como potência, revoluções internas e o imperialismo estrangeiro aumentavam a tensão em uma nação que estava desgastada e assumidamente derrotada.

Uma virada de século de tensão e ascensão

Na China, a virada do século foi marcada pelo Levante dos Boxers (1900), movimento de oposição ao domínio estrangeiro no país. No Japão, as ideias eram tão otimistas, que as tomadas que aconteceram nos anos anteriores pareciam ter continuidade. Tanto tiveram que, para o assombro mundial, os japoneses ganharam a Guerra Russo-Japonesa (1905). Esse confronto aconteceu porque tanto os japoneses, quanto os russos, tinham intenção de dominar a região da Manchúria (China) e o território coreano, batalha vencida pelo exército japonês. Momentos que precederam as marcantes transformações pós-década de 1930.

A abalada China estava desde o início do século XX bipartindo-se. Após 1920, surgiu a divisão entre o Kuomintag (KMT) nacionalista de Chiang Kaishek e o Partido Comunista Chinês (PCC) de Mao Tsé-tung, criando uma guerra civil entre os dois. Com a invasão japonesa na Manchúria, nacionalistas e comunistas pausaram os conflitos internos para unirem-se e defenderem-se do invasor estrangeiro (Segunda Guerra Sino-Japonesa - 1937). Ainda sem condições de enfrentar o Japão em uma batalha direta, a China apelou à Liga das Nações. O resultado foi a expulsão dos japoneses da Manchúria e também da Liga.

O período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi interessante e quiçá fundamental para o sistema atual de diversas nações. No caso do Japão não foi diferente. Como os EUA haviam decretado o fim dos acordos comerciais com os japoneses, a solução encontrada pelos nipônicos foi assinar um pacto com a Alemanha nazista e a Itália fascista para formar o que chamaram de Poderes de Eixo. Em 1941, a base norte-americana de Pearl Harbor, na ilha de Oahu, Havaí, foi atacada pela Marinha Imperial Japonesa. Um ano depois, o Japão criou uma espécie de “lago japonês”, uma região dominada brevemente pelo país que abrangia países como as Filipinas e a Indonésia.

Só que o ataque à Pearl Harbor foi o estopim para japoneses e americanos se confrontarem. Em 1945, os EUA bombardearam as cidades de Hiroshima e Nagasaki, marcando a rendição dos japoneses e a ocupação dos militares americanos no Japão. Invés de forças de ataque, o país japonês teria apenas forças de defesa. Começava, mais uma vez, a invenção da nação japonesa através dos americanos.

Na China, após a expulsão do Japão da Manchúria, a guerra civil foi retomada. Em 1949, os comunistas regidos por Mao Tsé-tung tomaram Pequim e expulsaram os nacionalistas de Chiang Kaishek para Taiwan. Tsé-tung, como chefe supremo, proclamou a comunista República Popular da China, um país que nos anos seguintes passou por uma série de reformas como a coletivização das terras, controle estatal da economia e nacionalização de empresas estrangeiras.

O fim da década de 1940 marcou a criação da república chinesa, mas do outro lado do mar também marcou o desenvolvimento de um novo sistema japonês. O modelo utilizado no Japão seguia padrões ocidentais, embora divergissem na em alguns pontos relacionados a gestão. O sentimento de superioridade (supremacia racial) crescia no mesmo ritmo em que o país se desenvolvia, por exemplo. Mas do modelo de produção adotado, os japoneses procuraram trabalhar da seguinte forma: fidelizar o profissional através da garantia vitalícia de trabalho, que ia à contrapartida dos baixos salários.

Mesmo com a influência americana, o modelo capitalista japonês distinguiu-se profundamente do realizado pelos americanos, que tinham uma visão liberal e competitiva. Isso devido à relação oriunda do regime autoritário da Era Meiji ter voltado à tona – claro, com adaptação às condições pós-guerra. O padrão aplicado seguiu um sistema de poupança produtiva, investimento massivo em tecnologia e redução do consumo. Ou seja, uma política econômica que, de acordo com Demétrio Magnóli, no livro Relações Internacionais - Teoria e História (2004), punia os consumidores e premiava os produtores.

“O sistema econômico como um todo, ao contrário do modelo americano, orientou-se para a poupança produtiva, reduzindo o consumo. Os preços relativos, definidos pela intervenção indireta da burocracia de Estado e pelo funcionamento das instituições financeiras, punem os consumidores e premiam os produtores. O extraordinário crescimento econômico do país – medido pelo PIB, pelas exportações e pelo patrimônio das corporações – contrastava com a relativa pobreza material da população, expressa na desproporção entre o tempo de trabalho e de lazer ou no custo dos imóveis residenciais”, diz.

À medida que os anos iam passando, a economia japonesa sofria com processos de ajustamento: choques externos que forçaram uma remodelação nas linhas de produção. O sistema trabalhador mudou. Países periféricos como Coreia do Sul, Cingapura, Malásia, Hong Kong e Taiwan passaram a receber as unidades produtivas japonesas que, por sua vez, dinamizaram suas economias. Outra nação que recebeu a demanda foi a China, que teve nos fluxos capitais japoneses, um papel decisivo na industrialização chinesa.

A aproximação com a União Soviética, entre 1949 e 1960, demonstrou um plano estratégico incondicionalmente ligado a Moscou, inclusive com a aplicação da Doutrina Truman. De 1960 a 1972, Pequim rompeu com Moscou (Ruptura Sino-Soviética) e reforçou o isolamento do exterior. Esse rompimento gerou anos de instabilidade interna na China, especialmente em 1966, quando iniciou a chamada Revolução Cultural – radicalização política e profundas divisões nas cúpulas comunistas.

A Revolta Cultural encerrou dez anos depois com a morte de líderes de destaque político, como Mao Tsé-tung. E foi aí que a China deslanchou para aventuras econômicas, o que impulsionou a economia mundial de tal forma, que um poderoso foco no Oriente foi criado. Liderados pelo reformista Deng Xiaoping, a China desenvolveu programas de reformas econômicas como o das Quatro Modernizações (1978), que preconizaram mudanças interessantes nas mais diversas áreas como agricultura, indústria e ciência. Uma posição que chegou inclusive a ser chamada por especialistas de "economia socialista de mercado", uma intitulação um tanto paradoxal.

As posições atuais

Desde os tempos de Tsé-tung, a China busca o posto de grande potência asiática. A aproximação Sino-Americana e o ingresso na ONU evidenciaram ainda mais esse objetivo. O país então seguiu dando apoio a empresas multinacionais através da garantia de ampla infraestrutura, mão de obra barata e matérias primas essências. Em troca, os chineses receberam dessas companhias a tecnologia necessária para a modernização do país.

Com a produção em massa, os preços dos produtos fabricados na China se tornaram atraentes devido ao baixo preço se comparado a outros mercados, dando para o país uma competitividade no mercado internacional incomum. A maior prova disso talvez seja as lojas brasileiras que frequentemente contém produtos com a inscrição “Made in China”.

O Japão, por outro lado, teve seu exemplar modelo de negócio esgotado. Desde a década de 1990, o sistema financeiro japonês tem passado por problemas em consequência do estouro da bolha especulativa, uma percepção que chegou ao ouvido dos consumidores como a pobreza do estado japonês. O desfecho foi a deflação, ou seja, uma queda nos preços. O que parece ser positivo, na verdade não é. Sabendo que os preços ficarão mais baixos futuramente, os consumidores acabam adiando as compras. O saldo, consequentemente, é as empresas venderem menos e reduzir os salários dos trabalhadores.

Com isso, os japoneses tem menos dinheiro para gastar e esse processo vem se tornando dia a dia uma imensa bola de neve. De acordo com estudos do Banco Mundial (BC), o Japão vem caindo atualmente no que diz respeito às potências mundiais. Chegou a ocupar a posição n° 2 por anos, mas hoje está na posição n° 4. A China, por sua vez, vem crescendo monstruosamente. No último balanço do BC, foi apresentado que a economia chinesa é a 2° maior do mundo – evolução linear com os investimentos em portos, aeroportos e ferrovias que o país vem fazendo.

É verdade que não dá pra prever o futuro, portanto não dá para saber o que vai acontecer com os chineses. Muitos analistas julgam que a China poderá muito em breve ultrapassar os EUA e se tornar a maior economia do mundo. Outros preferem aguardar à opinar. Com relação ao Japão, sabe-se que a poupança interna dos produtores e a conquista dos mercados externos fizeram no país nipônico uma das potências mundiais, porém, hoje vem caindo... fazendo, inclusive, com que o país desvalorize a sua moeda, o iene.

É interessante: um regime que tinha como promissor, acaba decaindo. O outro, tido como incapaz, surge monstruosamente como potência econômica. Tivessem as relações com os parceiros comerciais sido diferentes, o inverso, o panorama atual obviamente seria distinto. No entanto, resta esperar para ver quais medidas serão tomadas no futuro e se novamente os países ocidentais influenciarão na política econômica desses países orientais.

Sobre a obra

Os processos de interação da China e do Japão com o mundo ocidental do século XIX ao século XX e os efeitos dessas relações para a situação atual de ambos

compartilhe



informaes

Autoria
Leonardo Pujol
Ficha tcnica
Artigo de Política Internacional Contemporânea
Downloads
407 downloads

comentrios feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Voc conhece a Revista Overmundo? Baixe j no seu iPad ou em formato PDF -- grtis!

+conhea agora

overmixter

feed

No Overmixter voc encontra samples, vocais e remixes em licenas livres. Confira os mais votados, ou envie seu prprio remix!

+conhea o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados