Como Assim Você Não Chora?

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Salmerón · São João del Rei, MG
22/1/2012 · 1 · 0
 

Lá estávamos nós de novo. Naquela mesma escadaria de prédio, tendo aquela mesma conversa. Ela com a mesma long neck de Stella e a inocência impecavelmente esculpida por uma vida sem frustrações. Já eu, estava lá do jeito que sou.


– Como assim você nunca chorou?

– Ora, nunca chorei e pronto.

– Todo mundo já chorou.

– Não, todo mundo já chorou pra alguém.

– Pois então!

– Eu nunca tive alguém pra chorar.

Dei um sorriso cínico. Ela olhou pra baixo, esboçou uma feição de pena – mas só de leve, é difícil gostar de mim o bastante pra sentir pena. Acho que ela se tocou que nem todo mundo teve aquela vida alegre de menina bonita.

Me lançou um olhar. Olhei de volta.

– Você pode chorar pra mim.

– Já sou velho demais pra isso. O que tinha pra chorar já secou e virou aneurisma. Agora só me resta esperar ter um derrame e morrer.

Ela riu. Me chamou de dramático.

Não sei porque insisto nessa amizade. Ela é uma guria tão alegre, eu devia desistir de abrir seus olhos. Devia deixar ela em paz, no seu mundinho de curso técnico de Enfermagem. Mas não consigo.

Ela insiste em vir falar comigo. Insiste em sair e beber comigo, depois ainda me pede conselhos. Não resisto, pois no fundo tenho esperança de trazer ela pro buraco também. Então lá vou eu, mostrar pra ela como a vida é uma merda.

Mostro pra ela que ser feliz é tentar construir um castelo de cartas dentro de um barco em mar revolto. Que amar alguém é tão fácil quanto acender um cigarro embaixo d’água.

Mas ela sempre se distrai, dá um sorriso e diz que vai dar tudo certo. E eu sempre me encanto com essa inocência digna de alguém que vive num filme da Sessão da Tarde.

Então ela me diz que eu pareço velho. O engraçado é que temos a mesma idade no cartório: vinte anos. Ela, vinte anos vividos; eu, vinte anos sofridos. Daí o motivo da minha jovialidade senil.

Pra não perder o costume, ela tentou ver além daquela montanha de sarcasmo xulo – não entende que não há nada além dela.

– É sério, você pode chorar pra mim.

– Vamos imaginar que o derrame não me mate, e que eu fique preso na cama em estado débil. Você pode me trazer um baseado e um uísque no meu aniversário. Já basta pra mim.

Ela achou que era piada e riu. Prossegui com o raciocinismo.

– É o seguinte: ninguém nunca me deu apoio; niguém nunca me deu suporte; ninguém nunca me deu um abraço e disse que ia dar tudo certo. Ninguém nunca sequer fez um esforço pra fazer eu me sentir aceito. Eu sempre fui a criança estragada, o ovo podre. Nunca tive ninguém e nunca precisei de ninguém, e não é agora que vou precisar.

– Que triste!

- A vida é assim mesmo. Fazer o quê?

– Mas você tem várias pessoas que te apoiam agora!

– É, claro. Mas não adianta dar remédio pra defunto. Eu não tenho salvação.

E era verdade. Durante a infância arrancaram tudo de humano que havia nascido em mim. Durante a adolescência salgaram a terra pra garantir que nada mais ia nascer ali – e de fato não nasceu.

– Claro que dá pra te salvar! Você é bonito, inteligente…

– …Sem açúcar. Eu sou amargo demais pra alguém conseguir beber. Mas eu juro que não ligo. Eu não espero que me amem, nem que tentem me ajudar. Além do mais, na pior das hipóteses eu só preciso tirar uns dias e comprar uma passagem psicoativa pra fora dessa fossa.

– Eu não gosto que você ficando usando essas coisas. E se você ficar viciado?

– Não vou me tornar dependente das drogas, sabe por quê? Elas são só mais uma das coisas que eu preciso pra ser feliz, e eu já me acostumei a viver sem nada pra alegrar meus dias.

– Você é muito pessimista. Eu ainda acho que você só precisa se abrir mais, sabe? Só precisa desabafar com alguém.

– Já te falei: não preciso e nunca precisei disso. Além do mais, não tenho ninguém pra desabafar.

– Eu já falei que pode desabafar comigo!

– Não vou desabafar com você.

– Por quê?

– Eu não confio em gente feliz. Gente feliz só é feliz porque é forte – mas essa força vem à custa da do mais fraco. Então, eu é que não vou dar espaço pra alguém me derrubar mais ainda.

Ela fez uma cara de desgosto e balançou a cabeça, que nem minha mãe ao ler meu primeiro texto. A merda fora cagada – só faltava dar uma mexida pra feder o prédio inteiro.

– Eu quero é ver o mundo pegar fogo. Mas não o mundo real, não esse mundo cinza e sem gosto no qual eu vivo. Eu quero que esse mundo de porcelana em que você e suas amigas vivem se quebre – eu quero todo mundo aqui no fundo, porque só assim vocês vão entender a natureza humana. Juro que é pro bem de vocês.

– Ah, desisto de você. Se você não quer ajuda, foda-se.

– Não é que não quero ajuda. Eu não preciso de ajuda. Eu não preciso chorar – você é que precisa. Precisa chorar uns belos baldes de sabão, pra lavar as suas janelas e enxergar a vida como ela é.

Ela fechou a cara, cruzou os braços e deu um gole na long neck. Eu franzi a testa e dei um gole no meu latão.

Mudamos de assunto. Conversamos banalidades.

Ela chamou um táxi, me deu um abraço quase honesto e disse que depois a gente se fala. Chegou em casa, tomou um banho e comeu um sanduíche de peito de peru – com pão integral, é claro. Deu um beijo no namorado e foi dormir.

Peguei o ônibus e depois de um tempo cheguei em casa. A mesa estava cheia de contas pra ignorar. Acendi um cigarro, comi um resto de qualquer coisa. Beijei a garrafa de conhaque e fui pra cama chorar.

Sobre a obra

Disponível em: www.marinaeozepelim.wordpress.com

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Autoria
André Salmerón
Ficha técnica
Irrelevante.
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