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Ninguém fugiu do olhar da professora Cristina, porque não foi necessário. Nem durante sua fala e nem ao final ela encarou alguém. Seu olhar ficou o tempo todo passando de rosto para rosto, sem demorar em nenhum, fazendo deles uma imagem geral, sem identidade especÃfica. Ela achava que só assim seria capaz dizer o que quisesse. O que a entristeceu depois, o que a fez chorar sozinha no carro, no estacionamento de um shopping, foi saber que sua revolta teve como estopim uma briga feia com o marido, que comprou uma moto sem consultá-la. Nada perto de qualquer consciência cÃvica ou dever pedagógico. Ela queria deixar a raiva sair de seu corpo. Livrar-se dela naquele momento, ali na sala de aula.
“Mas, professora, não é bem assim...â€, disse Túlio, o rei dos CDFs. “A gente não pode cruzar os braços. A questão é saber escolher os parceiros dessa luta. De jeito nenhum, a parte da burguesia que quer derrubar ele.â€
“Que parceiros? Os sindicatos, os partidos de esquerda?... Não se iluda, Túlio. Ninguém nesse paÃs quer revolução de verdade.â€
“Mas não dá pra ficar em cima do muro, Cristinaâ€, disse Nádia.
“A gente tem que se molharâ€, disse outro aluno.
“O negócio é pegar em armas!â€, Marcos gritou, dando risada. Outros riram também.
A maioria da sala já estava cheia daquela situação. Aos poucos, o barulhinho de conversas paralelas foi se espalhando. Mas Túlio, Nádia e mais dois ou três insistiam em continuar o debate. Estavam aborrecidos com o comportamento da professora Cristina. Vinte minutos depois, ela encerrou o assunto e explicou o que fazia ali: teria de sair para resolver um problema e a turma ficaria com uma atividade para ser entregue no final da aula, na secretaria. A reclamação foi geral, mas a meia-voz. Nádia até ensaiou uma afronta, mas ela não quis bater realmente de frente com um de seus Ãdolos. Túlio aproveitaria a folha em branco que lhe foi entregue para dizer o que pensava sobre os rumos do paÃs; esse seria o seu protesto.
No intervalo, continuaram falando sobre a manifestação.
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