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Desabafo

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Fred Paiva · Jaraguá do Sul, SC
11/8/2010 · 0 · 0
 

A sala é penumbra. A noite se alastra, invade a casa e encobre a imundície retrato da bagunça que estou. Pelos de gato, pele morta, micro-cacos de um copo que quebrou outro dia, pó de asfalto e mofo formam rodilhas feito feno em filme de faroeste pelo piso, delineiam gotas secas de gordura, porra ou água pingada do guarda-chuva da última chuva que molhou todo o quarto pela janela entreaberta, esquecida. Aquela mesma fresta que me fez levantar assustado, no meio da noite, das pancadas da porta reagente ao vento larápio, invasor. Uma noite como agora, indecisa, fria-quente, impaciente. E eu aqui deitado nesse sofá imenso, sujo e solitário; resignado a mim por mim. Preso em uma vida tola, uma argila fútil que moldei e deixar moldar e intencionalmente deixei cozer e perpetrar a cerâmica fria e repulsa que parece me conter. Sim, pareço isso, pois não transpareço, sinto-me isso. Uma casca fina e frágil que pode romper-se a qualquer movimento que eu faça, e que nenhum cogumelo atômico faria desintegrar. Queria implodi-la. Pegar uma marreta e acertar as paredes e as coisas que escrevi nas paredes. Tirar o sumo de tudo e abrir um buraco no piso para o andar de baixo. Esfacelar. E gritar. E gritar e gritar e gritar e gritar e gritar. Que escrever não alenta. Angustia. Palavras surdas de papel não aliviam. O papel não vale nada. Vale é o sentido do leitor em apuros próprios a resolver. (…) esta pilha de livros de nada vale. São minhas incógnitas escritas em resmas e mais resmas de papel de toda qualidade por autores que não conheço e nem sei o que quiseram dizer com suas palavras ocas, recipientes dos problemas alheios. Queria afogá-los. Jogá-los na máquina e batê-los e centrifugá-los e batê-los e centrifugá-los e assim, sucessivamente, até que a água leve todo o papel e restem apenas as capas vazias e sem serventia. Capas como esta que visto. Uma bela encadernação de um livro ruim. Não lido e deixado sobre a cabeceira pegando pó. Gostaria de abandonar tudo isso. Trocar de pele, de superfície, mudar de vaso. Deixar este cerâmica se acabar sem flores, sem cumprir seu destino de abrigar o belo e o efêmero, seja este qual for. E sentar quietinho na beira da calçada pra ver os carros passarem. Sem álcool nem roupas legais nem músicas nem gente me dizendo o que pensar e fazer. Só eu e meu gato e quem sabe uma brisa e um amigo pra conversar sobre isto tudo (que nem sei como lidar).

Fred Paiva

Sobre a obra

Algo como um conto de Fred Paiva, publicado na coletânea "Mundo Infinito", organizada por João Luis Chiodini e publicado pela Design Editora, o qual reune os contos selecionados no Concurso Jaraguaense de Contos realizado em 2010.

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informações

Autoria
Fred Paiva
Ficha técnica
Fred Paiva é ator, escritor e engenheiro mecânico.
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