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Futuro Caótico ou "I Predict A Riot"

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Gus Vieira · Fortaleza, CE
9/8/2008 · 87 · 1
 

A socióloga Maria Luíza Fontenele teve experiência na administração pública quando exerceu, entre 1986 e 1989, uma mandato como prefeita de Fortaleza pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Foi a primeira mulher eleita para o cargo. Hoje, é avessa ao modelo de poder institucionalizado e divide o tempo ministrando disciplinas na Universidade Federal do Ceará (UFC) e atuando no grupo político Crítica Radical, que discute a crise do sistema capitalista. Para ela, a humanidade estaria passando por um crise sem precedentes e o futuro seria a atenuação do caos.

Fui recebido no espaço político da Crítica Radical, localizado no centro histórico de Fortaleza, quase uma hora antes de uma das reuniões do grupo. Maria Luizia evitou falar nomes de políticos e quase sempre utilizou o pronome “nós” se referindo aos colegas. Ela mudou. Evitou bombardear críticas e procurava explicar detalhadamente cada resposta.

O que a senhora tem feito? Abandonou de vez a carreira política?Tenho lutado pela emancipação humana e essa visão mais ampla me levou a integrar o grupo Crítica Radical, que não só questiona o sistema capitalista, como analisa a crise que estamos atravessando neste momento. Não há possibilidade de alternativa para os problemas humanos que se mantém no capitalismo. Então, a ruptura com esse sistema é, na nossa formulação, o elemento principal para se conquistar essa emancipação.


Essa atuação seria feita fora dos partidos políticos? Fora dos partidos politicos e das instituições “formais”, como os sindicatos. Somos anti-políticos em relação ao Estado. Todos esses movimentos sociais são imanentes ao sistema capitalista, lutam para dar sobrevida à ele. Os movimentos sociais geralmente se limitam a ficar meramente sob o caratér reinvincatório. Nossa discussão tem uma amplitude maior.


E na prática, como funciona o diálogo coma as instituições, digamos, “formais”? Nossa origem vem do marxismo tradicional operário, portanto já tínhamos uma atuação em entidades ou formas de organização partidária fora do tradicional enquanto estávamos em partidos ou sindicatos. Quando éramos do PT, também éramos do PRC [Partido Revolucionário Comunista, organização política clandestina brasileira que atuou de 1980 a 1989, oriundo de uma cisão do PCdoB e que participou da fundação do Partido dos Trabalhadores]. Mesmo no PT, nos colocávamos numa perspectiva revolucionária, de lutar contra o capitalismo e toda a forma de dominação. Hoje, acredito que é importante romper com essa tradição marxista operária e compreender que os estudos de Marx foram além da questão de classes e detectou que há, na essência do capitalismo, um elemento que leva à sua própria destruição, que é exatamente o trabalho abstrato.

O que seria o trabalho abstrato? Marx foi capaz de prospectar que, no futuro, o trabalho humano seria substituído pela máquina e a produção de riquezas seria resultado do emprego da tecnologia na produção de bens superando, portanto, a mão de obra nessa atividade. E isso levaria à crise no sistema porque gera desemprego em massa e cria uma contradição. Se não existe emprego, não existe poder de compra e, portanto, não existe geração de outras oportunidades de emprego. O caráter da racionalidade tecnológica chegou a um ponto que a produção é maior que a possibilidade de gerar empregos. Isso está estrangulando o sistema. O sistema teria então chegado ao seu limite e, para que o dinheiro possa circular, se utiliza a esfera financeira.


Quais os resultados dessa “crise”? Crise na alimentação, nos transportes, no meio ambiente, no fornecimento de combustíveis... E isso leva um certo pânico àqueles que mantém minimamente a estrutura do sistema em funcionamento. Dois terços da humanidade não tem acesso ao emprego, ao dinheiro ou a essa forma dita racional de funcionamento do sistema. Essas pessoas vivem da caridade ou das atividades secundárias do sistema. No passado, a indústria agregava a maioria dos operários, o que levou ao pensamento de que era necessário criar partidos operários, pois a classe operária seria a classe social capaz de fazer a grande revolução humana e acabar com o capitalismo.


E qual a origem da “crise”? Marx disse que, em algum momento, o trabalho morto, que é o trabalho da máquina, iria substituir o trabalho humano e a riqueza não seria mais resultado da produção humana. Esse seria o momento que a humanidade entraria numa crise sem precedentes. Não seria uma crise simples e sim uma crise da própria essência do sistema. A crise atinge as nações, o Estado, os partidos politicos... Hoje se tem uma geléia geral dos partidos. Se tem um Estado que não é o Estado do bem-estar social, e sim um Estado cada vez mais policialesco, pois existem cada vez mais pessoas excluídas. Essas pessoas sobrevivem com políticas que que se chocam com a politica de Estado, como o mercado das drogas ou da prostituição.

Quando a senhora participava da política "tradicional", a senhora não tinha liberdade de discutir e praticar o que pensa hoje? O que vem das direções dos partidos são considerados verdadeiros dogmas. Então o marxismo leninista se tornou uma ideologia dogmática. As assembléias e reuniões são mecanismos para referendar as decisões das direções e levar adiante suas propostas . Estamos questionando as formas de organização, e por isso as pessoas fazer crítica severas ao nosso pensamento.


O que a senhora tem a dizer para aqueles que tem esse pensamento, mas continuam fazendo a política “tradicional”, ou seja, dentro dos partidos políticos? Às vezes é interesse pessoal. Temem o desemprego. Esse é um ponto. Um outro ponto é que a análise da crise do sistema sempre foi obscurecida pelas esquerdas porque, para elas, era mais fácil discutir a luta de classe porque era só dá consciência ao proletário que este faria a revolução. Isso é mais fácil do que desconstruir toda uma lógica. As relações sociais, que hoje são baseadas no dinheiro, teriam que ser feitas de outra forma. Há um medo de abraçar uma proposta com essa radicalidade, pois consiste em desconstruir tudo o que já foi vivido até então.


O PT já teve um raciocínio parecido com o que a senhora pensa hoje. Qual sua avaliação sobre o Governo Lula, considerado popular e de esquerda? As pessoas começaram a perceber que a revolução era algo muito mais complexo do que a simples instalação de um poder proletário. Daí optaram por, simplesmente, administrar a crise.

Foi uma opção voluntária? De alguns sim, de outros não. Muitas pessoas acreditam que ainda mantém a chama revolucionária, mas não é verdade pois, é controverso manter essa chama administrando a crise. Para as pessoas que, de certa forma, chegaram ao poder, a única alternativa é administrar a crise.

Essas pessoas estariam portanto... Sendo joguetes desse processo. Sendo marionetes. Alguns estão se enganando e enganando aos demais. E outros estão conscientemente enganando os demais. Quando o Lula foi candidato, nos entregamos a ele um documento, que "Basta de Servidão voluntária" dizendo que nem Lula nem Alckmin resolveria os problemas do país. Nem o PSDB, que se dizia social-democrata, nem o PT , que tinha uma proposta socialista, mas em sua quase totalidade é social-democrata. Não existem alternativas. A crise no mundo dito socialista demostrou que o controle da produção pelo Estado não altera a lógica do sistema.

E qual o porquê de não votar? Optamos por não votar, não integrar partidos e nem tampouco participar da escolha de qualquer candidato. Quando você escolhe alguém para lhe representar, você está passando para outra pessoa o direito de decidir por você. E você fica na condição de mero espectador. Esse representante quase sempre não tem compromisso algum com a coletividade e nem pretende atender às necessidades humanas. Daí, podemos dizer a democracia privilegia poucos e exclui a maioria.

Além dessa crítica, que outro argumento é utilizado para convencer as pessoas a não votar? O sistema capitalista criou uma esfera econômica que “abocanhou” a esfera politica. O que deveria ser de interesse público, hoje está cada vez mais vinculado à interesses particulares. Esse domínio está eliminando as nações e os Estados, tornando sem efeito a politica dos partidos. Daí você tem o caos: pessoas se organizando fora do Estado, fora da politica, criando um poder paralelo baseado no crime, baseado em outras questões que acentuam cada vez mais o aspecto privatizante e o poder da dominação, que leva portanto à violência.

O discurso do não-voto não seria um discurso simplista. Seria de difícil compreensão das pessoas? O “não vote” é uma proposta extremamente difícil. As pessoas, em sua grande maioria, estão com uma estrutura de aço espremendo suas cabeças, impedindo que percebam que a realidade pode ser mudada. Então o voto é uma forma de manter a atual realidade. No entanto, nas eleições para Presidente e Governador tivemos um milhão e quinhentas mil pessoas que não votaram no Ceará.

E isso se deve a quê? Não sabemos se foi um desencanto. Ou se foi a pobreza que impediu as pessoas de chegar ao local de votação. É um dado que indica apenas parte da realidade.

O que Fortaleza tem para comemorar e o que ainda deixa a desejar? Fortaleza vem sofrendo um processo de degradação. E o que eu diria ser resultado do dito progresso é um numero maior de casas com água e iluminação elétrica portanto, com uma melhoria na qualidade de vida. Por outro lado, você tem uma cidade com a dengue matando pessoas. Tem um trânsito assassino e a total insegurança


Então, Fortaleza está pior? De uma maneira geral, todos os centros urbanos estão pior.


E o futuro, qual seria? O caos?
A acentuação do caos. A acentuação da barbárie. A acentuação da violência. Esses casos que acabam se tornando emblemáticos são apenas a ponta do iceberg, porque estão aí para mostrar que a sociedade está doente e que as relações sociais estão extremamente empobrecidas.

Sobre a obra

Entrevista com a socióloga Maria Luiza Fontenele, ex-prefeita de Fortaleza. O trabalho foi realizado como atividade do curso de Comunicação Social da Faculdade 7 de Setembro. A conversa aconteceu em junho de 2008, na sede do movimento "Morte ao Capitalismo".

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informações

Autoria
Gustavo Marques (ex-Vieira)
Ficha técnica
Entrevista, redação e edição: Gustavo Marques
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

belíssimo trabalho.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 9/8/2008 12:16
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