Há uma Hora Certa para Tudo

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B.Cardoso · Curitiba, PR
16/8/2007 · 29 · 1
 

O sol castigava todos os passageiros do ônibus cheio e o chacoalhar constante causava sonolência e mal-estar, algo como uma ânsia que ameaçava ganhar força ou um suor anormal na região da lombar, umedecendo camisetas e vestidos e fazendo com que as pessoas se movessem incômodas os poucos centímetros que podiam – para evitar o contato com os corpos oleosos ao redor – e suspirassem impacientemente ao tentarem perder-se na paisagem urbana que passava com certa velocidade do outro lado dos vidros sujos e riscados.

Via-se uma moça sentada e cabisbaixa, com livros e um caderno sobre as penas, cruzando as mãos sobre o material para segurar também um estojo verde, bastante velho. Usava calças e moleton azuis num tom claro, quase infantil, embora aparentasse estar na casa dos vinte anos. Os cabelos eram pretos e estavam presos e tudo aquilo intrigava as pessoas mais próximas, pois ela estaria sofrendo mais do que qualquer um com o calor infernal que se acumulava dentro do veículo.

Atraia olhares, também, o fato de haver abaixo de seu nariz um tom de pele mais escuro do que restante, confundido por alguns com uma sombra que a própria face cansada poderia gerar por estar voltada para baixo. Entretanto, após algumas curvas que fizeram o sol incidir por diversos lados diferentes, soube-se que o que ela carregava no lábio superior era um bigode ralo e contrastante com sua pele branca que passou a arrancar sorrisos dos passageiros e fê-los distrairem-se da viagem fatigante.

Não tardou para que houvesse manifestações verbais – desde insinuações entre dois rapazes que diziam como era simples fazer a barba ou como detestavam usar bigode; até comentários sobre a extrema masculinidade da moça, justificada, entre outras coisas, por ela estar agasalhada naquele calor.

Ela se encolheu em seu assento e pôs-se a respirar mais rápido do que o normal quando compreendeu que os comentários eram sobre sua pessoa. O suor formava-se em sua nuca e as pequenas gotículas escorriam-lhe pelo pescoço. Não olhava para outro lugar senão para as próprias mãos e com os dedos fazia movimentos rápidos para distrair-se e abstrair o ambiente.

Foi quando o ônibus parou num cruzamento, ao lado de uma igreja, e ela, para o deleite de todos, ergueu o rosto envergonhado – alguns riram alto e outros desviaram o olhar para não piorar a situação. Retirou, então, a mão direita de cima de seus livros e com ela fez o sinal da cruz, olhando com toda a atenção para a fachada do templo e, de fato, esquecendo-se por alguns instantes das chacotas.

Muitos repetiram o ato e mesmo aqueles que nunca haviam feito tal reverência logo cruzaram atrapalhadamente a mão direita pelo tórax, tocando também a testa, enquanto mantinham um olho na cruz e outro no bigode, inseguros no gesto e evitando de todas as formas rir naquele sagrado instante. Um profundo silêncio perdurou até que o ônibus entrasse mais uma vez em movimento e deixasse a igreja para trás, permitindo, então, que os respeitosos passageiros voltassem a apontar, rir e humilhar a moça que agora vertia grandes lágrimas sobre seus pertences.

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informações

Autoria
Bruno Cardoso
Ficha técnica
Um conto sobre os outros.
Quem se identificar, envergonhe-se.

O conto está todo aí, mas você pode baixar o PDF se preferir. Publicarei-o no meu site também, pois caso você rejeite as duas primeiras opções não terá mais desculpas para não lê-lo.

(A imagem, com licença CC, eu retirei daqui: http://www.flickr.com/photos/rogeriofukuda/969272715/)
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baduh
 

Muito bem B. Cardoso.

Está bem escrito, com uma linguagem suave - embora trate de uma situação difícil. Vai então o meu votinho, e as minhas congratulações.

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2007 16:18
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