O sol castigava todos os passageiros do ônibus cheio e o chacoalhar constante causava sonolência e mal-estar, algo como uma ânsia que ameaçava ganhar força ou um suor anormal na região da lombar, umedecendo camisetas e vestidos e fazendo com que as pessoas se movessem incômodas os poucos centÃmetros que podiam – para evitar o contato com os corpos oleosos ao redor – e suspirassem impacientemente ao tentarem perder-se na paisagem urbana que passava com certa velocidade do outro lado dos vidros sujos e riscados.
Via-se uma moça sentada e cabisbaixa, com livros e um caderno sobre as penas, cruzando as mãos sobre o material para segurar também um estojo verde, bastante velho. Usava calças e moleton azuis num tom claro, quase infantil, embora aparentasse estar na casa dos vinte anos. Os cabelos eram pretos e estavam presos e tudo aquilo intrigava as pessoas mais próximas, pois ela estaria sofrendo mais do que qualquer um com o calor infernal que se acumulava dentro do veÃculo.
Atraia olhares, também, o fato de haver abaixo de seu nariz um tom de pele mais escuro do que restante, confundido por alguns com uma sombra que a própria face cansada poderia gerar por estar voltada para baixo. Entretanto, após algumas curvas que fizeram o sol incidir por diversos lados diferentes, soube-se que o que ela carregava no lábio superior era um bigode ralo e contrastante com sua pele branca que passou a arrancar sorrisos dos passageiros e fê-los distrairem-se da viagem fatigante.
Não tardou para que houvesse manifestações verbais – desde insinuações entre dois rapazes que diziam como era simples fazer a barba ou como detestavam usar bigode; até comentários sobre a extrema masculinidade da moça, justificada, entre outras coisas, por ela estar agasalhada naquele calor.
Ela se encolheu em seu assento e pôs-se a respirar mais rápido do que o normal quando compreendeu que os comentários eram sobre sua pessoa. O suor formava-se em sua nuca e as pequenas gotÃculas escorriam-lhe pelo pescoço. Não olhava para outro lugar senão para as próprias mãos e com os dedos fazia movimentos rápidos para distrair-se e abstrair o ambiente.
Foi quando o ônibus parou num cruzamento, ao lado de uma igreja, e ela, para o deleite de todos, ergueu o rosto envergonhado – alguns riram alto e outros desviaram o olhar para não piorar a situação. Retirou, então, a mão direita de cima de seus livros e com ela fez o sinal da cruz, olhando com toda a atenção para a fachada do templo e, de fato, esquecendo-se por alguns instantes das chacotas.
Muitos repetiram o ato e mesmo aqueles que nunca haviam feito tal reverência logo cruzaram atrapalhadamente a mão direita pelo tórax, tocando também a testa, enquanto mantinham um olho na cruz e outro no bigode, inseguros no gesto e evitando de todas as formas rir naquele sagrado instante. Um profundo silêncio perdurou até que o ônibus entrasse mais uma vez em movimento e deixasse a igreja para trás, permitindo, então, que os respeitosos passageiros voltassem a apontar, rir e humilhar a moça que agora vertia grandes lágrimas sobre seus pertences.
Muito bem B. Cardoso.
Está bem escrito, com uma linguagem suave - embora trate de uma situação difÃcil. Vai então o meu votinho, e as minhas congratulações.
Baduh
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