Cena corrida: Manuel (depois apelidado de Satanás) sai fugido, pés velozes quase não tocam o solo. Foge das explorações: coronelismo, fanatismo, cangaço, enfim sistemas. Até “[...] O sertão vai virar mar/ O mar virar sertão [...]†através da perspectiva do cineasta Glauber Rocha (1939-1981), no filme Deus e o Diabo na terra do sol (1964).
As mazelas de Manuel (podem ser meditadas como as sofridas por todos brasileiros). Nossas relações ainda são reguladas pelo coronel, fanático e cangaceiro – cada uma dessas personas, polarizando e variando de extremos. Ademais, trazem para cena (ou seria vida?) outros, no caso do coronel a sombra do jagunço.
Bem e mal se enfrentando, sendo bem-mal e mal-bem, pólos.
Deus:
Talvez influenciado pela perspectiva do Velho Testamento na BÃblia, moderada por meio do Cristianismo, Glauber Rocha representa o cangaceiro – figura no Brasil que aproxima aludindo à bravura do arquétipo de samurai. No longa, o Deus retratado é impiedoso, febril e sente sede de vingança.
Não aceita a morte de Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião.
Controla seu bando, com mãos calejadas, repletas de anéis, e prima determinada liberdade, que também não cede.
O cangaceiro em Glauber Rocha foi desenhado pelo olhar atento de personagens com essência brasileira, postos de lado.
Corisco (baseado em Cristino Gomes da Silva Cleto, último chefe do Cangaço) vencerá o mal? Aliás, percebendo a própria dualidade.
Diabo:
Desordena consigo, com fama que muitas vezes extrapola a realidade possui serventes e também serve ao sistema dos poderosos. A retratação do Diabo no filme está intrinsecamente relacionada entre poder e ganância.
Tende a não aceitar o serviço pressionado pelo sistema religioso.
Agi sozinho, na espreita, sem seguidores; controla e é controlado.
O jagunço em Glauber Rocha vive o intenso – e puro – paradoxo, aceita a gatunagem, entretanto tenta o não envolvimento em vão.
João das Mortes (baseado em algum jagunço invisÃvel da História Insurgente) cumprirá o trato? Os mandantes, esperam.
Luta:
Tiroteio.
Manuel e Rosa (representação da mulher era opaca naquele contexto) correm se distanciando de Deus (Corisco, cangaceiro, ou bem ou mal) e sua companheira/ cangaceira, enquanto o Diabo (Antônio das Mortes, jagunço, ou mal ou bem) vem só, anunciado, se anunciando.
No sertão árido, mais tiro.
A cena alegórica (rente à vida) do brasileiro passa – em alguns casos, infinda. Arte confundindo com a vida confusa, vida confundindo com a arte confusa, confundidas, confusão.
Glauber Rocha teve influência do cineasta Mario Peixoto com – seu e único filme – Limite (1931). Ambos experimentais cada um em seu tempo e particularidade mostram que nós brasileiros ainda não nos conhecemos, e mais, somos conduzidos pelo coronel, fanático e cangaceiro.
Já o jagunço não está escalado na trindade de poderes, consiste em um braço do coronel que opera impiedoso, trocado a qualquer momento. Na terra do sol, sol abrasador, brilhando, quente briga com a gente, o ontem e o hoje, parecem estagnados.
** Ouça ao fundo “Perseguição/ Sertão Vai Virar Mar†– Sérgio Ricardo na leitura do parágrafo inicial.
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