A exibição e a sede

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Diogo Mendes · São Paulo, SP
15/8/2018 · 0 · 0
 

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Enquanto passava pela Avenida Paulista, a multidão me atravessa. O lusco-fusco deslizava em meio as vidraças de formatos verticais, e ofertava intervalo, para as artérias das grandes cidades relaxarem da profusão de gente. Tínhamos pressa, eu também, prensados ao horário. Alguns dos nomes que compunham o filme soletrava em voz baixa, ainda não chegamos ao destino. As pessoas na Avenida Paulista têm pressa, as que não, aparentam. Ninguém contém hora e conta hora para ninguém. Lembrava dos dados que coletara a respeito daquele longa, a vontade de assistir há tempo, mas algo impedia. Ali, a memória me seduzia, se caso, caso mesmo, se mesmo, se não havia visto alguma parte do filme, quando nutria o reflexo do meu clone com insônia na televisão – lá sempre é insônia. Em um tempo recente, viver não era a base do serviço streaming. Agora, estávamos em baixo do Vão Livre do Masp, por momento entre conversas, os antigos casarões da Avenida Paulista postos ao chão ecoavam em mim. Havia eu, observado as principais defasagens das ruas asfaltadas e ruas pavimentadas. O asfalto machuca, o pavimento engana, incomodam e particularizam. Apesar que tentam ao máximo fazer da atração turística paulistana shopping, a cidade com todas as alegrias e mazelas provoca contradição. Já havíamos pegos, os ingressos gratuitos. A exibição de Eles Não Usam Black-tie (1981), para mim neste momento é simbólica, acho que inclusive comentei esperando iniciar. O filme tomou conta de todo o Vão Livre do Masp, virando outra substância, como são as grandes obras, interpretação intercalada de interpretação. Clima fechado nos minutos que despontam a película, hoje, remasterizada; chovia em certas cenas, talvez chuva fina. Bete Mendes é Maria, como muitas Marias que trabalham em fábricas e Carlos Alberto Riccelli vive Tião, como muitos confusos Tiãos, o casal apaixonado e ingênuo em boa parte do enredo – queremos, pelo menos a maioria, um final feliz, embora saibamos que finais, são só finais. No decorrer da narrativa visual sinto a garganta seca, meu palato criado dividindo pinheiros e araucárias me amortecia. Minha sede, vai ganhando novo contorno, pouco físico. A cena do Milton Gonçalves, Bráulio alertando os outros operários que o espancamento fora dirigido a vítima igual eles – ecoa na memória. Uma limousine que brilhava tinta branca recém de fábrica passou aos berros e buzinas, o cinema interferindo no mundo. Mais adiante Gianfrancesco Guarnieri, Otávio ajuda Fernanda Montenegro, Romana a catar feijão. O mundo fere o cinema, molecada em situação de rua jogava futebol com garrafa pet. É a gente na tela?, brincou gritando uma das crianças. A exibição acabou, minha sede acaba, sempre garoa.

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Diogo Mendes
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