LALÃO DO RECIFE: VIOLONISTA E MESTRE DE OBRAS

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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
8/4/2013 · 3 · 0
 

“Já escrevi algumas vezes que se houvesse a aplicação de princípios de direito econômico na música, o Rio de Janeiro seria punido por formação de cartel.

Acabo de chegar de uma roda de choro no Flamengo, no Rio, com um conjunto de músicos que brilharia em qualquer palco do mundo. O apartamento é do Rogério Caetano, o Rogerinho Sete Cordas, que o Reco me apresentou no Clube do Choro em Brasília, há alguns anos. Já era dos melhores. E não parou de crescer musicalmente, nem parou em Brasília: seguiu para o Rio.

Comandando a roda o gaúcho Yamandu Costa, que conheci aos 18 anos nos palcos do Tom Brasil. Muitas vezes exagera na velocidade, mas seu talento é ilimitado. A velocidade vem como se fosse um vulcão interno que não consegue parar dentro dele. Saiu do Rio Grande, parou no Rio.

Depois, o Alessandro, do Choro Rasgado, um piracicabano que começou a surgir para o choro há alguns anos no "Ó do Borogodó". Toca de tudo, de violão a bandolim, e tem um nível quase similar ao do Yamandu. De Piracicaba foi para São Paulo. Vai acabar parando no Rio.

O quarto da roda era Armandinho, o bandolinista que conseguiu promover um corte na era Jacob e criar um novo estilo de tocar bandolim à altura do mestre maior. Tornou-se conhecido quando chegou ao Rio. Depois, chegou meu velho companheiro do Bar do Alemão, o Arismar do Espírito Santo.

E tocaram o paraguaio Barrios, e tocaram o venezuelano Lauro, e tocaram o argentino Eduardo Falú com um virtuosismo que não se vê nem em John Williams. Inacreditável o que fizeram com a Catedral, de Barrios, com a Valsa Criola, de Lauro, com a Quartelera, de Falú.

No final da minha estada, Yamandu sacou do coldre uma saraivada de choros de primeiríssima linhagem, uma mistura de Canhoto da Paraíba com Garoto, de uma sofisticação harmônica e melódica inacreditáveis. Os choros eram de Lalão.

Quem é Lalão? Lalão é um pedreiro que Yamandu conheceu em Recife há dois anos. Deve ter perto dos 50 anos. Este ano, Yamandu voltou só para gravar o gênio. Me disse que além de compor aqueles choros, Lalão interpreta como ninguém.

Vivo repetindo aos que falam em decadência da música brasileira: hoje em dia se tem a mais talentosa geração de instrumentistas da história. Mas poucos sabem. E menos ainda sabem que lá no Recife existe um pedreiro de nome Lalão capaz de compor choros que deixariam vermelhos de inveja os melhores harmonizadores do jazz.†(Luís Nassif em 26/07/2006)

Sobre esse fato de divulgarem que ele era pedreiro, Lalão não gostava e dizia que era "cachorrada". Ele já tinha sido mestre de obras e esta experiência o capacitou para construir sua confortável casa de primeiro andar no bairro do Ibura. Mas não vivia nanando em dinheiro. Dizia que às vezes faltava grana para abastecer o carro.

Quando Canhoto da Paraíba já estava impossibilitado de tocar em função de um AVC que sofreu, houve um show em sua homenagem. E Canhoto foi logo avisando que tinha apenas um violonista em Pernambuco capaz de executar sua obra com toda a arte que ela exigia: Lalão.

Lalão vivia de música, mas não da que ele fazia. Tocava em bailes, em conjuntos de rock, interpretando repertório dos anos 80. Acompanhava na guitarra, desde 2008, o cantor Geraldo Azevedo em turnês, como aconteceu em 2012. Mas sua paixão mesmo era o violão, que ele só conseguia mostrar em saraus caseiros, em casas que visitava. Bastava começar a tocar para todos os presentes se encantarem. Mas, terminava a noite, ele recolhia suas composições e nada acontecia. Em 16/02/2013, aos 61 anos, vítima de infarto, Esdras Mariano, o Lalão, foi tocar para o Pai!

Sobre a obra

Um breve resumo da vida artística de um bamba do choro no Brasil: Lalão do Recife.

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Abílio Neto - pesquisador musical
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