Deixe me contar sobre meu irmão postiço. Marty McRevels. Mac. As estórias que se fragmentam perante os meus olhos, que o fazem completo na minha memória. Eu reviro os olhos para dentro para ver o Mac, já que foi lá que o enxerguei a maior parte das vezes. Magro, tão alto, tão magro, alto. Os óculos e o chapéu eterno, imóvel, que ele se recusa a tirar. Nem para comer. Porque, se afinal de contas, ninguém mais usa chapéu, as regras de boa conduta atrelada a eles também devem ser extintas.
1. Mac é supervisor da filial de uma rede de supermercados chamada “Inglêsâ€, na Carolina do Sul. Um dos principais problemas encontrados pelo supervisor de um supermercado, qualquer supermercado, é o furto. A maior parte das vezes, ele me diz, são os próprios funcionários do estabelecimento que passam à mão em uma coisinha ou outra. Mas um funcionário da filial do Mac começou a ficar folgado, saqueando as prateleiras inconsequentemente. Em um supermercado de uma cidade minúscula não existe muito sobre o que os empregados conversarem quando saem para fumar um cigarro então, entre baforadas nervosas, só se discutia a identidade do ladrão. Mas Mac sabia quem era o homem que ele viu pelo circuito interno de segurança. Um dia, enquanto o elemento em questão empilhava caixas no estoque, Mac se aproximou dele, silenciosamente, se divertindo com o nervosismo do ladrão ao vê-lo. Mac rosnou, balançando a cabeça em negativa e dirigiu-se ao rapaz (tecla SAP): “Sabe, esse ladrão está começando a dar prejuÃzo. Quando eu descobrir quem é o filho da puta eu não vou só jogar ele porta afora, como vou dar uma porrada no desgraçado. Eu juro, eu sou capaz de dar um tiro no filho da puta. Quando eu encontrar esse babaca vou arrancar a orelha dele fora com uma mordida. Vou por fogo na porra da casa dele. Ele vai me fazer perder o meu emprego, e escroto†O ladrão se borrou, olhando o chefe dele ameaçando uma vida, que por acaso era a dele. Conclusão: O sujeito nunca mais roubou nada e o Mac se divertiu horrores com tudo isso.
2. Mac encontrou outras formas de se divertir com seu trabalho chato: Seu chefe, um ex-fumante recalcado, seguia a risca a regra que impede qualquer um de fumar nas dependências do Inglês. Mac muitas vezes desobedecia essa regra (desobediência é algo inerente a personalidade dele) e em algumas dessas vezes foi flagrado pelo chefe furioso, que abanava os braços, enxergando Mac através do vidro de sua sala. Mac preza muito seu salário e parou de fumar no supermercado, o que não o impediu de fazer com que o chefe achasse que ele fumava. Cortou diversos canudos brancos, do tamanho de um cigarro e, sentado, com os pés para cima (para efeito dramático de folga), levava o canudo aos lábios finos, em uma perfeita tragada performática. A performance era calculada e ocorria sempre sob a supervisão desaprovadora do chefe, que abanava os braços nervosamente , “como uma galinha tentando decolarâ€. Mac respondia com uma manifestação cÃnica de incompreensão, a testa franzida, os ombros erguidos, as palmas das mãos viradas para o teto coberto por lâmpadas frias. Isso acarretava uma marcha zangada do chefe, de sua sala até o lugar onde Mac estava, acompanhada por ameaças e um dedo indicador que se movia tal qual um pêndulo frenético. Conforme a distância entre os dois diminuÃa, a reprovação do chefe se transformava em dúvida e ridÃculo. Mas Mac não se alterava, não ria, não zombava, simplesmente inquira humildemente o motivo da bronca, e o chefe, envergonhado, virava de costas, sem dizer nada – momento aproveitado para uma risada contida do meu irmão.
continua no arquivo!
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