Mato das Cobras (Parte 1)

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Vittorio DAfflitto · Guarulhos, SP
11/2/2014 · 2 · 1
 

É que a gente tava conversando, senhor. Eu e meu amigo Lazú, o Lázaro. E assim sem mais nem menos, quando a gente foi ver, cruzando a nossa vista, um ônibus que estacionou e um homem nos mirava. Um olhar duro, ressequido. Interrompeu nossa conversa e ficamos em choque, Lazú mais ainda. Envergonhado como ficou, a moral baixou como se tivesse devendo pra alguém.

Então foi aí que ocorreu pra ele. De perseguir. Ele nunca foi de fazer essas coisas. Acho que o sangue subiu e ficou parado muito tempo, é a vingança né? Mas Lazú sempre foi humilde, de alma e origem. Quando vi não acreditei, ou não queria acreditar, e assim me juntei também à sensação.

Naquela mesma hora de segunda a sexta, menos por ser nosso horário de sempre pra voltar pra casa, a gente ficava ali parado esperando aquele ônibus e depois o nosso. É um que vai pra Ãgua Azul, passando pela estrada Mato das Cobras de volta pra casa.

E o mesmo homem no mesmo banco. Na janela ficava olhando, aquele olho de despejo, além de ser mesquinho sentar assim no mesmo lugar todo dia. E não falava nada.

Era mais pra Lazú, parecia mais coisa pra ele. Ficava calado, ressentido. Depois de partir o ônibus, aquela poeira e fumaça. Teve um dia que foi demais, chegou nos olhos e ardeu, aí bastou pro Lázaro. Já era muita ousadia.

Lembro que foi numa sexta-feira. Lembro porque eu tava com dinheiro no bolso pro gás, foi no dia de pagamento. E Lazú com uma bolsa preta, essa que o senhor achou lá na mata. Eu estranhei, mas deixei passar. É que eu tinha quase certeza do que tava lá. Não imaginei porque foi rápido demais, nunca vi Lázaro com ela. Eu sabia que ia acontecer.

Então foi aquilo, Lazú deu sinal, o braço duro igual cruz quebrada e eu entrei depois.

Um mormaço. Tava quente, umas crianças de colo nos bancos amarelos com as mães e uma chorando vermelha, um inferno. Até pensei que ele ia desistir, mas passou a catraca. E o homem tava lá, de lei, sentado na primeira janela depois do cobrador. Acho que o homem nem deu por ele porque não sei que momento ele começou a se abanar, vai ver ficou com medo. Ou nem isso. E também não era o único, mas tirando ele eram só as mulheres que tavam fazendo essa abanação, e as velhas faziam mais ainda.

Se eu peguei isso nele é porque agora vi que ele tinha percebido a gente. Aquilo era nervoso.

Lazú não olhava. Ficou ali com a mão na bolsa e a outra no ferro do banco. Uma mulher dormia. Loirinha loirinha. Devia de ser bonita acordada, mas tava com a boca aberta, vencida e uns pingos de suor na ponta do nariz, parecia uma morta equilibrada no banco. Alguns fios ficavam passeando no punho injetado do Lazú. Só isso tava incomodando ele porque ficava abaixando os olhos e trocando as mãos. Mas em nenhum momento o homem olhou pra ele. Nem ele olhou pro homem. Ficou vendo o cobrador só no sorriso falar com uma menina.

O motorista também não respeitava as pessoas lá de dentro, parece que a gente se acostuma em ser passageiro, vai deixando os outros tomar liberdade. Mas às vezes alguém se mete de tudo, toma as dores e grita “ô, vai com calma motorista do caralho!â€. Isso faz quando tá descendo, que é esperto, e mais os ousados.

E a gente foi cortando rua num sobe e desce e uns arrancos, depois num tranco o ônibus virou na estrada e o vento esfriou. Aquela paisagem eu conhecia bem quando fui caseiro naqueles lados.

O ônibus teve uma hora que freou e estacou pra passar por uma vala e aí pôs a primeira pra subir o barranco. Nessa bolsa de Lazú bateu toda a parafernália dos metais e por um buraco no lado saltou a ponta de uma tesoura dessas de jardinagem suja de barro. Ficou como a cabeça de um rato só espiando e voltou pro fundo. Nos fiapos do pano ficou pendurado só a sujeira do pó, acho que só eu vi.

E a luz do sol toda calma cortada nas árvores, subindo o barranco, parecia um acidente daqueles paraquedistas que caem nos galhos. Eu fiquei pensando, ouvindo lá de dentro aquele matagal passar no ferro azul do ônibus, eu queria tá suave, tanta coisa pra fazer que deu cansaço, imaginar aquilo tudo. Foi triste a gente ali tendo motivo pra estar. Além da bolsa devendo pesar.

Aí o homem deu sinal, a moça nem se mexeu. Então ele deu um toquinho no braço da loirinha, a boca um sorriso besta, e a moça acordou num pulo dos olhos como aqueles filmes que ressuscitam a pessoa com choque e o homem passou por Lazú com os olhos baixos de desculpa. Eu pensei “esquece isso!â€, tava nervoso, e só foi o que pensei até ir com Lazú pro fundo, e descer do ônibus.

Dei um tropeço no segundo degrau, isso que me fez empacar. Fiquei lá olhando a estrada.

Nada vinha do outro lado, só o ônibus indo embora, sumindo na estrada, pensei também da onde vinha aquela opinião do Lazú, mas rápido.

Depois quando voltei em mim os olhos, Lazú tava correndo atrás do homem e os dois se enfiando na beira da mata igual dois cachorros. E eu fui dar suporte pro meu amigo.

Sobre a obra

E Lazú com uma bolsa preta, essa que o senhor achou lá na mata. Eu estranhei, mas deixei passar. É que eu tinha quase certeza do que tava lá. Não imaginei porque foi rápido demais, nunca vi Lázaro com ela. Eu sabia que ia acontecer.

Então foi aquilo, Lazú deu sinal, o braço duro igual cruz quebrada e eu entrei depois.

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Autoria
Vittorio D'Afflitto
Ficha técnica
Vittorio D'Afflitto escreve aos domingos.
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alcanu
 

Tudo nessa vida é passageiro !
Menos cobrador & motorista !
Lembre-se bem disso !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 13/2/2014 12:22
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