Em seu livro, Mito e realidade, o filósofo Mircea Eliade afirma que o mito sempre esteve presente na história humana. Porém, o mito sofreu uma transformação na modernidade, criou-se uma dicotomia entre mito e realidade. O mito nas sociedades arcaicas era um mito vivo, algo real, não apenas uma invenção. Se o mito estava vivo e não está mais, podemos dizer que a mitologia da modernidade é uma mitologia morta, sem alma. A palavra mito se tornou sinônimo de mentira.
Neste sentido, a mitologia da civilização não nos permite compreender o significado do mundo e da existência humana. Ao invés disso, ele fortalece falsas imagens a respeito de nós. Há também uma quantidade muito grande de mitos concorrendo entre si, cada um afirmando que seus concorrentes são falsos, e que apenas ele mesmo é real. Neste contexto, perde-se a orientação comum, não se sabe mais nada, não há mais referências para dizer o que é real e o que não é. Este estado de confusão gera angústia e excitação ao mesmo tempo. A sensação é como a de acelerar numa estrada, sem saber o que te espera na próxima esquina. Sem mitos vivos, não há mais perspectiva para algo além do presente, daquilo que é constatável empiricamente.
A morte do mito é a morte do homem enquanto ser integrado a um meio que ele não pode controlar. O homem se vê agora como senhor de si mesmo, senhor do mundo. O único sentido que possa haver para a vida só pode ser criado pelo próprio homem. Não só o mito deixa de ser vivo, o meio em que o homem vive deixa de ser vivo, e ele mesmo se vê mais e mais parecido com algo inanimado, movido por mecanismos e sem valor intrÃnseco.
O mito do bom selvagem, por exemplo, é um mito relacionado ao filósofo Jean-Jacques Rousseau, que é citado por defensores da civilização toda vez que alguém ousa criticar este modo de vida, e compará-lo com modos de vida pré-civilizados. É como se todo aquele que reclama da civilização não soubesse a realidade do homem, e esta seria que “sempre foi assim, de fato foi até piorâ€.
A tradução para “mito do bom selvagem†é na verdade equivocada, a tradução correta seria mito do nobre selvagem, e este mito teria se originado do livro Histoire de La Nouvelle France, de Marc Lescarbot, em 1617. O autor observou que os Mi’Kmaq, uma sociedade indÃgena americana, eram “verdadeiramente nobresâ€, uma vez que todos os membros da comunidade, incluindo crianças e mulheres, podiam caçar. Lescarbot disse isso porque na França de sua época a caça era um esporte restrito aos nobres.
A realidade por trás do mito foi ignorada, e ele foi transformado num mito que diz apenas o seguinte: “Os selvagens são moralmente superiores aos civilizadosâ€. Mas isso não é o que a palavra nobre indica. Nobreza significa um status social elevado. Realmente haviam nobres entre vários povos nativos, o que seria impensável para um povo que julgava essa posição como sendo concedida por um direito divino.
Em biologia, nobre também significa selvagem, uma vez que o processo de domesticação também é conhecido como processo de vulgarização. Mas o fato é que o mito é atribuÃdo a Rousseau porque ele acreditava que a sociedade tornava o homem corrupto, e que em estado selvagem o homem recebe uma educação que preserva sua autenticidade. A realidade por trás disso também ficou relegada aos que estudaram a filosofia desse autor a fundo, e em geral o mito foi considerado desfeito pelas modernas pesquisas antropológicas que apontavam que havia tanta violência entre os selvagens quanto entre os civilizados.
Alguns antropólogos, no entanto, diziam que a violência em nossa sociedade moderna apenas se tornara implÃcita e indireta, mas que no fundo os civilizados eram causadores de muito mais barbaridades do que os chamados bárbaros. Mas isto não pode se reduzir a uma questão de quem mata mais. A questão é sobre uma perda de significado da vida, e de perda de significado da morte também. Sem um mito vivo sobre nosso destino e o significado de nossa existência nesse mundo, nossa vida mortal parece tão curta que pensar no fim dela se torna desesperador.
Então, para aliviar esta consciência de finitude, a civilização criou alguns mitos sobre a vida, mas não mais em termos de destino da vida humana, e sim em termos de satisfação individual. Contanto que o número de satisfações individuais esteja sempre crescendo, a civilização está cumprindo seu objetivo, logo não pode ser acusada de nada. Percebemos que havia um mito ainda mais antigo que o mito do bom selvagem, o mito do bom civilizado.
O mito do bom civilizado indica que o homem prosperou na civilização, e logo ele melhorou suas condições de vida. Com condições de vida melhores, o próprio homem expande suas capacidade humanas, e a sociedade se torna por isso mesmo mais benéfica ao homem do que ela era no passado. O avanço tecnológico e cientÃfico em todas as áreas, principalmente na medicina, é considerado algo intrinsecamente favorável, e logo inquestionável. Qualquer um que queria questionar isso entra em contradição, pois que depende desses benefÃcios para viver.
A ampliação de possibilidades é vista como um valor por si só, ainda que cada uma dessas possibilidades não seja capaz de preencher o vazio de significado na vida humana. Assim como ocorre com pessoas com transtorno obsessivo, o prazer está no ato de acumular futuras possibilidades, e não no ato de experimentar a atualidade. Quando uma possibilidade se realiza, ela perde o encanto, e é logo descartada em troca de uma nova busca.
O mito do bom civilizado é que, porquanto estejamos felizes com nosso encaixe nesta sociedade, ela representa também algo superior, algo bom por si mesmo. Aldous Huxley criticou essa idéia dizendo que “é possÃvel tornar as pessoas felizes com sua escravidãoâ€, e alguns psicólogos também concordarão que não basta estar bem adaptado à sociedade para se considerar são.
A realidade por trás do mito do bom civilizado é que, destituÃdos de esperança transcendente e dependente de um poder externo e não-humano, as pessoas se agarram com todas as forças ao presente, ao que eles podem controlar. Elas se sentirão pessoalmente ofendidas se alguém sugerir que suas terapias de consumo são na verdade patologias. Elas não querem ser destituÃdas do único prazer que desfrutam nessa vida, por mais fútil que ele seja. Então se cria uma complexa mitologia, cheia de sÃmbolos modernos. A base delas é a mitologia de o homem civilizado é um vencedor, é um campeão da humanidade, tendo vencido os obstáculos que a natureza colocou diante dele, e conquistado o direito e o poder ao qual ele estava “destinado desde o princÃpioâ€.
Este mito, como o mito mais profundo da civilização, é o primeiro que deve ser analisado. Mas muitos outros mitos modernos são repetidos pela mÃdia, e assimilados pelas pessoas, desde a infância, e tomados como verdadeiros e inquestionáveis. É sobre estes mitos que este livro pretende tratar.
Referências:
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Tradução: Pola Civelli. São Paulo: Editora Perspectiva, 2004.
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Editora Globo, 1992.
LESCARBOT, Marc. Histoire de la Nouvelle-France. Toronto: W.L.Grant & H.P. Biggar, 1617.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Editora Ãtica, 1989.
Artigo sobre mito e civilização, para uma mitologia do processo civilizador
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